TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas
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TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas


DisciplinaTeoria e Critica Literária I42 materiais563 seguidores
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sempre teve para ele uma existência fantasmal. 
Mas o que interessa a James é a exploração de todos os recônditos 
dessa \u201crealidade psíquica\u201d, de toda a variedade de relações 
possíveis entre o sujeito e o objeto. De onde sua atenção para os 
casos particulares que são as alucinações, a comunicação com os 
mortos, a telepatia. Por isso mesmo, James opera uma escolha 
temática fundamental: prefere a percepção à ação, a relação com o 
objeto ao próprio objeto, a temporalidade circular ao tempo linear, 
a repetição à diferença. 
Poderíamos ir mais longe e dizer que o desenho de James é 
fundamentalmente incompatível com o do conto fantástico. Pela 
hesitação que este faz viver, ele põe em relevo a questão: será real 
ou imaginário? será um fato físico ou somente psíquico? Para 
James, ao contrário, não há real senão o imaginário, não há fatos 
senão os psíquicos. A verdade é sempre particular, é a verdade de 
alguém; por conseguinte, perguntar se \u201cesse fantasma existe 
verdadeiramente?\u201d não tem sentido, desde que ele exista para 
alguém. Nunca se atinge a verdade absoluta, o padrão de ouro se 
perdeu, estamos condenados [Página 197] a nos limitar a nossas 
percepções e a nossa imaginação \u2014 o que, de resto, não é tão 
diferente. 
...É aqui que um leitor \u2014 ainda mais atento \u2014 pode deter-
nos novamente. De fato, nos dirá ele, você não fez até aqui senão 
substituir o gênero formal (a narrativa fantástica) por um gênero 
de autor (a narrativa jamesiana) que tem aliás, ela também, uma 
realidade formal. Mas continua a nos escapar a especificidade de 
cada texto de James. Querer reduzir a obra a uma variante do 
gênero é uma idéia falsa desde o ponto da partida; ela repousa 
sobre uma analogia viciosa entre os fatos da natureza e as obras 
do espírito. Cada camundongo particular pode ser considerado 
como uma variante da espécie \u201ccamundongo\u201d; o nascimento de 
um novo espécime não modifica em nada a espécie (ou, em todo 
caso, essa modificação é negligenciável). Uma obra de arte (ou de 
ciência), pelo contrário, não pode ser apresentada com o simples 
produto de uma combinatória preexistente; ela é isto também, mas 
ao mesmo tempo ela transforma essa combinatória, ela instaura 
um novo código do qual ela é a primeira (a única) mensagem. 
Uma obra que fosse o produto de uma combinatória preexistente 
não existe; ou mais exatamente: não existe para a história da 
literatura. A menos, está claro, que se reduza a literatura a um 
caso excepcional, que é a literatura de massa: o romance policial 
de mistério, a série negra, o romance de espionagem fazem parte 
da história literária, não tal ou qual livro particular, que não pode 
senão exemplificar, ilustrar um gênero preexistente. Significar, na 
história, é proceder da diferença, não só da repetição. Assim a 
obra de arte (ou de ciência) comporta sempre um elemento 
transformador, uma inovação do sistema. A ausência de diferença 
é igual à inexistência. 
Tomemos, por exemplo, a última história de fantasmas 
escrita por James, e a mais densa: The Jolly Corner (1908). Todos 
os nossos conhecimentos sobre a narrativa fantástica e sobre a 
narrativa de James não bastam para que a compreendamos, para 
que a expliquemos de modo satisfatório. Olhemos um pouco mais 
de perto esse texto, para observá-lo no que ele tem de único e de 
específico. 
A volta de Spencer Brydon à América, depois de trinta e três 
anos de ausência, é acompanhada de uma [Página 198] singular 
descoberta: ele começa a duvidar de sua própria identidade. Sua 
existência, até então, aparecia-lhe como a projeção de sua própria 
essência; de volta à América, percebe que poderia ter sido outro. 
Ele tem talentos de arquiteto, de construtor, que nunca utilizou; 
ora, durante os anos de sua ausência, New York conheceu uma 
verdadeira revolução arquitetural. \u201cSe ele tivesse ficado em sua 
terra, teria antecipado o inventor do arranha-céu. Se ele tivesse 
ficado em sua terra, teria descoberto seu gênio realmente a tempo 
de levantar alguma nova variedade de terrível lebre arquitetural e 
de levá-la a cavar uma mina de ouro.\u201d Se ele tivesse ficado em 
sua terra, teria podido ser milionário... Esse condicional passado 
começa a obcecar Brydon: não porque ele lamente não se ter 
tornado milionário, mas porque ele descobre que poderia ter tido 
outra existência; e então, seria ela a projeção da mesma essência, 
ou de outra? \u201cAchou que todas as coisas revertiam para a questão 
do que ele pessoalmente poderia ter sido, de como ele poderia ter 
levado sua vida e terminado, se não tivesse, desde o início, 
desistido?\u201d Qual é sua essência? Existe uma? Brydon acredita na 
existência da essência, pelo menos no que concerne aos outros, 
por exemplo, sua amiga Alice Staverton: \u201cOh, você é uma pessoa 
que nada pode alterar. Você nasceu para ser o que é, em qualquer 
lugar, de qualquer modo...\u201d 
Então Brydon decide encontrar-se, conhecer-se, atingir sua 
autêntica identidade; parte numa difícil procura. Consegue 
localizar seu alter ego graças à existência de duas casas, cada uma 
correspondente a uma versão diferente de Spencer Brydon. Volta, 
noite após noite, à casa de seus ancestrais, cercando o outro cada 
vez de mais perto. Até que uma noite... encontra a porta fechada 
onde a deixara aberta; compreende que a aparição está ali; quer 
fugir mas não pode mais; ela lhe barra o caminho; torna-se 
presente; descobre seu rosto... E uma imensa decepção se apodera 
de Brydon: o outro é um estranho. \u201cO desperdício de suas noites 
fora apenas grotesco e o êxito de sua aventura uma ironia. Tal 
identidade não se lhe ajustava em nenhum ponto...\u201d A procura era 
vã, o outro não é mais sua essência do que ele próprio. A sublime 
essência-ausência não existe, a vida que Brydon levou fez dele 
um homem que nada tem a ver com aquele que teria feito [Página 
199] outra vida. O que não impede a aparição de avançar 
ameaçadora, e Brydon não tem outra solução senão desaparecer 
no nada da inconsciência. 
Quando ele acorda, percebe que sua cabeça não repousa 
mais sobre as lajes frias de sua casa deserta, mas sobre os joelhos 
de Alice Staverton. Ela compreendera o que se passava, viera 
buscá-lo na casa, para ajudá-lo. Duas coisas se tornam então 
claras para Brydon. Primeiro, que sua busca era vã. Não porque o 
resultado fosse decepcionante, mas porque a busca mesma não 
tinha sentido: era a busca de uma ausência (sua essência, sua 
identidade autêntica). Tal busca é não somente sem resultado (isto 
não é grave) mas é também, de uma maneira profunda, um ato 
egoísta. Ele próprio o caracteriza como \u201cmero vão egoísmo\u201d e 
Alice Staverton o confirma: \u201cvocê não liga para nada a não ser 
para si mesmo\u201d. Essa procura, postulando o ser, exclui o outro. 
Aqui vem a segunda descoberta de Brydon, a de uma presença: 
Alice Staverton. Abandonando a busca infrutífera de seu ser, 
descobre o outro. E não pede mais que uma coisa: \u201cOh, guarde-
me consigo, guarde-me! ele suplicou, enquanto o rosto dela ainda 
pendia sobre ele: em resposta, o rosto desceu novamente e ficou 
perto, aconchegantemente perto\u201d. Tendo partido à procura de um 
eu profundo, Brydon acaba por descobrir o tu. 
Esse texto significa, portanto, a mudança da figura que 
víamos voltar ao longo de toda a obra jamesiana. A ausência 
essencial e a presença insignificante não dominam mais seu 
universo: a relação com outrem, a presença, mesmo a mais 
insignificante, afirma-se em face da busca egoísta (solitária) da 
ausência. O eu não existe fora de sua relação com o outro; o ser é 
uma ilusão. Desse modo, James se inclina, no fim de sua obra, 
para o outro lado da grande dicotomia temática que evocávamos 
mais adiante: a problemática do homem só em face do mundo 
deixa lugar a uma outra, a da relação do ser humano com o ser 
humano. O ser é desalojado pelo ter, o eu pelo tu. 
Essa transformação do projeto jamesiano tinha