TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas
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TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas


DisciplinaTeoria e Critica Literária I42 materiais563 seguidores
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anterior. É pois necessário 
operar um certo número de transformações para obter o modelo, e 
somente este se prestará a uma análise estrutural. Entretanto, em 
oposição ao estudo mitológico ou onírico, nossa atenção deve 
voltar-se para o caráter dessas operações, tanto, senão mais, 
quanto [Página 31] para seus resultados, já que nossas regras de 
decodificação são análogas às regras de codificação de que se 
serviu o autor. Se assim não fosse, correríamos o risco de reduzir 
ao mesmo modelo obras inteiramente diferentes e de fazê-las 
perder todo caráter específico. 
O exame crítico dos métodos empregados exige a 
explicitação de algumas proposições fundamentais, subentendidas 
nos trabalhos formalistas. Estas são admitidas a priori, e sua 
discussão não é do domínio dos estudos literários. 
A literatura é um sistema de signos, um código, análogo aos 
outros sistemas significativos, tais como a língua articulada, as 
artes, as mitologias, as representações oníricas etc. Por outro lado, 
e nisso ela se distingue das outras artes, constrói-se com a ajuda 
de uma estrutura, isto é, a língua; é pois um sistema significativo 
em segundo grau, por outras palavras, um sistema conotativo. Ao 
mesmo tempo a língua, que serve de matéria à formação das 
unidades do sistema literário, e que pertence, pois, segundo a 
terminologia hjelmsleviana, ao plano da expressão, não perde sua 
significação própria, seu conteúdo. É preciso, além disso, levar 
em conta as diferentes funções possíveis de uma mensagem, e não 
reduzir seu sentido a suas funções referencial e emotiva. A noção 
de função poética, ou estética, que diz respeito à própria 
mensagem, introduzida por Iakubínski, desenvolvida por 
Jakobson (1921, 1923) e Mukarovsky, e integrada no sistema 
nocional da lingüística por Jakobson (1963), intervém tanto no 
sistema da literatura quanto no da língua, e cria um equilíbrio 
complexo de funções. Notemos que os dois sistemas, 
freqüentemente análogos, não são entretanto idênticos; além 
disso, a literatura utiliza códigos sociais cuja análise não compete 
a um estudo literário. 
Todo elemento presente numa obra traz uma significação 
que pode ser interpretada segundo o código literário. Para 
Chklóvski, \u201ca obra é inteiramente construída. Toda a sua matéria 
é organizada\u201d (1926, p. 99). A organização é intrínseca ao sistema 
literário e não diz respeito ao referente. Assim, Eichenbaum 
escreve: \u201cNenhuma frase da obra literária pode ser, em si, uma 
expressão direta dos sentimentos pessoais do autor, ela é sempre 
construção e jogo...\u201c (p. 161). Portanto é preciso igualmente levar 
em conta as dife- [Página 32] rentes funções da mensagem, pois a 
\u201corganização\u201d pode manifestar-se em vários planos diferentes. 
Essa observação permite distinguir nitidamente literatura de 
folclore; o folclore admite uma independência muito maior dos 
elementos. 
O caráter sistemático das relações entre os elementos 
decorre da própria essência da linguagem. Essas relações 
constituem o objeto da investigação literária propriamente dita. 
Tinianov (1929) assim formulou essas idéias, fundamentais em 
lingüística estrutural: \u201cA obra representa um sistema de fatores 
correlativos. A correlação de cada fator com os outros e sua 
função com respeito ao sistema\u201d (p. 49). \u201cA existência do sistema 
não resulta de uma cooperação igualitária de todos os elementos, 
supõe a predominância de um grupo de elementos e a deformação 
dos outros\u201d (p. 41). Uma observação de Eichenbaum fornece um 
exemplo disso: quando as descrições são substituídas pelas 
intervenções do autor, \u201cé principalmente o diálogo que torna 
manifestos o argumento e o estilo\u201d (p. 192). Isolar um elemento 
no decorrer da análise não é mais que um processo de trabalho: 
sua significação se encontra em suas relações com os outros. 
A desigualdade dos elementos constitutivos impõe uma 
outra regra: um elemento não se liga diretamente com qualquer 
outro, a relação se estabelece em função de uma hierarquia de 
planos (ou estratos) e de níveis (ou fileiras), segundo o eixo das 
substituições e o eixo dos encadeamentos. Como notou Tinianov 
(1929), \u201co elemento entra simultâneamente em relação: com a 
série de elementos semelhantes de outras obras-sistemas e mesmo 
de outras séries, e com os outros elementos do mesmo sistema 
(função autônoma e função sintática)\u201d (p. 33). Os diferentes 
níveis são definidos pelas dimensões de suas partes. O problema 
da menor unidade significativa será discutido mais além; quanto à 
maior, é, no quadro dos estudos literários, toda a literatura. O 
número desses níveis é teoricamente ilimitado, mas na prática 
consideram-se três: o dos elementos constitutivos, o da obra, o de 
uma literatura nacional. Isso não impede que, em certos casos, se 
ponha no primeiro plano um nível intermediário, por exemplo, 
um ciclo de poemas, ou as obras de um gê- [Página 33] nero ou 
de um período determinado. A distinção de diferentes planos 
exige maior rigor lógico e essa é nossa primeira tarefa. O trabalho 
dos formalistas visou essencialmente à análise de poemas, onde 
eles distinguiram os planos fônico e fonológico, métrico, 
entonacional e prosódico, morfológico e sintático etc. Para sua 
classificação, a distinção hjelmsleviana entre forma e substância 
pode ser muito útil. Chklóvski mostrou, a propósito de textos em 
prosa, que essa distinção é válida igualmente no plano da 
narrativa, onde os processos de composição podem ser separados 
do conteúdo episódico, evidente que a ordem de sucessão dos 
níveis e dos planos, no texto, não deve obrigatoriamente coincidir 
com a da análise; eis por que esta ataca freqüentemente a obra por 
inteiro: é ali que as relações estruturais se manifestam de forma 
mais nítida. 
Examinemos primeiramente alguns métodos, já sugeridos 
pelos trabalhos dos formalistas, mas desde então largamente 
aperfeiçoados pelos lingüistas. Por exemplo, a análise em traços 
distintivos, que aparece de modo bem claro na fonética, nos 
primeiros escritos dos formalistas, os de Iakubínski e Brik. Mais 
tarde, alguns formalistas participam dos esforços dos 
estruturalistas de Praga, tendo em vista definir a noção de fonema, 
de traço distintivo, de traço redundante etc. (ver, entre outros, os 
estudos de Bernstein). A importância dessas noções para a análise 
literária foi indicada por Brik, a propósito da descrição de um 
poema, onde a distribuição dos fonemas e dos traços distintivos 
serviria a formar ou a reforçar sua estrutura. Brik define a dupla 
de repetição mais simples como \u201caquela na qual não se distingue 
o caráter palatalizado ou não-palatalizado das consoantes, mas 
onde as surdas e as sonoras são representadas como sons 
diferentes\u201d (p. 60). 
A validade desse tipo de análise é confirmada tanto por seu 
êxito na fonologia atual quanto por seu fundamento teórico, que 
reside nos princípios acima mencionados: a definição relacional é 
a única válida, pois as noções não se definem com relação a uma 
matéria que lhes é estranha. Como notou Tinianov, \u201ca função de 
cada obra está na sua correlação com as outras... Ela é um signo 
diferencial\u201d (Rússkaia proza, p. 9). Mas a aplicação desse método 
pode ser con- [Página 34] siderávelmente alargada, se nos 
fundamentarmos na hipótese da analogia profunda entre as faces 
do signo. É assim que o mesmo Tinianov (1924) tenta analisar a 
significação de uma \u201cpalavra\u201d, do mesmo modo que se analisa 
sua face significante (\u201cA noção de traço fundamental em 
semântica é análoga à noção de fonema em fonética\u201d, p. 134), 
decompondo-a em elementos constitutivos: \u201cNão se deve partir da 
palavra como de um elemento indivisível da arte literária, tratá-la 
como o tijolo com o qual se constrói o edifício. Ela é indivisível 
em \u2018elementos verbais\u2019 muito menores\u201d (p. 35). Essa analogia não 
foi, na época, desenvolvida e matizada, em razão da