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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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vez 
mais estudos e pesquisas. Neste sentido, o livro A China na nova configuração 
global: impactos políticos e econômicos busca identificar e analisar o papel 
destacado que esse país exerce na nova ordem internacional nesse século XXI, 
bem como os possíveis impactos dessa nova dinâmica para diversos países e 
regiões, especialmente para o Brasil. 
Marcio Pochmann
Presidente do Ipea
PREFÁCIO 
Foi com grande satisfação que recebi o convite para escrever um prefácio ao 
novo livro do Ipea sobre a China. O livro contém uma série de monografias que 
tratam de vários aspectos da China, de sua política externa e de suas relações 
com o Brasil. A realização desse conjunto de pesquisas reflete a crescente impor-
tância das relações sino-brasileiras e uma nova vocação do Ipea para o estudo de 
temas internacionais com impacto na realidade brasileira. O livro constitui uma 
contribuição relevante para melhor compreender o desenvolvimento chinês, a 
crescente projeção internacional da China e o novo significado da parceria estra-
tégica entre o Brasil e a China.
No plano interno, a China, após 30 anos de rápida expansão de seu produto 
interno bruto (PIB), procura agora acelerar a transformação de seu modelo de 
crescimento em direção a um modelo assentado no consumo e na qualidade mais 
que no investimento e no crescimento do PIB. Essa transformação, se conduzida 
com êxito, dará um passo importante para consolidar a situação da China como 
uma potência econômica global e como um país desenvolvido. Essa modificação 
também fará da China um parceiro cada vez mais importante ao transformá-la 
no maior importador mundial e em um investidor externo cada vez mais signifi-
cativo. Acompanhar os rumos dessa transição e procurar entender seus avanços e 
obstáculos é importante para definir a nova fase das relações sino-brasileiras e para 
identificar sinergias entre os planos de desenvolvimento do Brasil e da China.
O crescimento chinês, que em três décadas transformou a China na segunda 
potência econômica mundial, fez que o país também se projetasse em nível global 
e se tornasse um ator relevante em todas as grandes questões internacionais. Tal 
ascensão está associada à dos demais países emergentes e dos países em desenvol-
vimento em geral e traz consigo a perspectiva de uma transformação sem prece-
dentes na ordem internacional, com uma grande redução do fosso que separa os 
países em desenvolvimento dos países desenvolvidos. O Brasil, como integrante 
do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e de outros grupos dos 
quais a China faz parte, é também um importante ator nesse processo e nele vê 
o embrião do que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, tem cha-
mado de uma multipolaridade benigna. 
Brasil e China têm como um dos princípios de sua política exterior a solida-
riedade com os demais países em desenvolvimento. A crescente demanda chinesa 
por matérias-primas e a internacionalização das empresas chinesas têm levado a 
China a aumentar seu comércio com a África e a América Latina e a realizar im-
portantes investimentos nessas duas regiões.
10 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
O Brasil tem a América do Sul e a América Latina e Caribe (ALC) como 
prioridades de sua política exterior e mantém com a região vínculos políticos, 
econômico-comercias e culturais privilegiados. A presença chinesa na ALC 
deve assim ser acompanhada com atenção, com vista inclusive a identificar 
oportunidades de promoção do desenvolvimento regional, por exemplo, na 
integração da infraestrutura.
 No caso da África, a partir do governo do presidente Lula, a política ex-
terna brasileira passou a atuar decididamente na intensificação dos laços com 
o continente africano, em particular com os países lusófonos, e a buscar coad-
juvar nos esforços de desenvolvimento dos países africanos. A China vem tam-
bém expandindo suas relações políticas, econômicas e comerciais com a África. 
De novo, essa atuação chinesa nesse continente deve ser entendida e nela pode-
mos identificar, além dos naturais elementos de competição na área comercial e 
de investimentos, oportunidades de cooperação trilateral.
A relação da China com a Índia e sua evolução nos próximos anos consti-
tui capítulo importante da ascensão asiática, tanto do ponto de vista geopolítico 
quanto do da integração econômica e expansão das cadeias produtivas do conti-
nente. A dinâmica das relações entre a China e a Rússia, especialmente à luz das 
mudanças ocorridas nas últimas décadas do século XX e no início do século XXI, 
em que o cenário internacional passou por profundas transformações, assume 
caráter crescentemente estratégico. A evolução das cadeias produtivas asiáticas 
assume papel crescente nos fluxos de comércio mundial e poderá ter papel deter-
minante também na inovação tecnológica nas próximas décadas. Em todas essas 
áreas, os autores trazem contribuições relevantes e estimulantes para a compreen-
são da política externa chinesa.
A relação da China com os Estados Unidos é hoje talvez a mais importante 
relação bilateral para os dois parceiros, em particular no atual cenário de crise 
nas economias desenvolvidas e de continuação do ciclo de rápido crescimento da 
China. O rebalanceamento econômico mundial depende de ajustes nas econo-
mias americana e chinesa, que devem ser seguidos para entender a nova configu-
ração da geografia econômica do século XXI. 
A relação da China com a Europa, embora não se revista do mesmo signi-
ficado simbólico, ainda é a relação dominante em termos econômicos, por ser a 
União Europeia o maior parceiro comercial chinês e grande investidor na China. 
A crise financeira tem dado novos contornos a essa relação, tendo a China se 
transformado em importante credor de alguns países europeus. 
Todos esses estudos criam o pano de fundo para a análise da relação sino-
-brasileira, que cresceu a um ritmo acelerado nos últimos dez anos, tendo-se di-
versificado e ganhado complexidade. O diálogo político se intensificou no plano 
11Prefácio
bilateral com frequentes visitas de chefes de Estado, encontros de alto nível e 
criação da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação 
(Cosban), que hoje conta com 11 subcomissões e vários grupos de trabalho. 
O diálogo ganhou também uma crescente dimensão multilateral com a criação 
dos BRICS e do G-20, refletindo mudanças na ordem internacional. A fim de dar 
uma visão estratégica e de longo prazo a essas relações e definir objetivos de médio 
e longo prazo e ações concretas em cada área, os dois países adotaram em 2010 o 
Plano de Ação Conjunta 2010-2014.
A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil em 2009 e o 
maior investidor em 2010, o que reflete a complementaridade das duas econo-
mias. O crescimento muito rápido do comércio, com a concentração da pauta de 
exportações do Brasil em poucas matérias-primas e o rápido crescimento das im-
portações totais brasileiras da China, aliado à elevação das importações de produ-
tos de baixo custo, deram a essa relação uma imagem de desafios e oportunidades. 
Tal imagem se tornou mais preocupante com a crise.
Quando de sua recente visita à China, a presidente Dilma Rousseff indi-
cou a seus interlocutores a necessidade de dar um salto qualitativo na relação. 
Construindo a relação sobre a base do crescimento recente, os dois lados devem 
trabalhar conjuntamente para corrigir desajustes e assim garantir um cresci-
mento acelerado da relação no futuro em bases mais equilibradas e em direção 
a outras áreas. Em todos os campos se deve buscar explorar as sinergias entre os 
planos de desenvolvimento do Brasil e da China, focalizando a cooperação em 
áreas de interesse comum.
Com o presente volume, o Ipea presta contribuição relevante para a análise 
das relações com a China, tema cada vez mais