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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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ver Freitas e Cintra (2008), Kregel (2008) e Fhari (2010).
61O Eixo Sino-Americano e as Transformações do Sistema Mundial\u2026
americana, epicentro da crise. Para Fang, Yang e Meiyan (2009), o mecanismo 
de transmissão da crise sobre a economia chinesa ocorreu de forma indireta, por 
meio da queda da demanda externa por produtos chineses \u2013 as exportações caí-
ram de US$ 354,4 bilhões no quarto trimestre de 2008 para US$ 245,5 bilhões 
no primeiro trimestre de 2009 (tabela 15). Com isso, muitas empresas localiza-
das nas ZEEs que orientavam sua produção para a exportação \u2013 notadamente 
aquelas muito intensivas em mão de obra \u2013 foram obrigadas a dispensar con-
tingente significativo de trabalhadores. Fang, Yang e Meiyan (op. cit.) apontam 
ainda que a crise demonstrou quais são os principais problemas do padrão de 
acumulação da economia chinesa, bem como a necessidade de construção de 
estratégias voltadas ao reforço do consumo das famílias para a sustentabilidade 
do crescimento de longo prazo, reduzindo a dependência externa.
O governo chinês agiu de forma rápida e agressiva, redirecionando o seu foco 
de atuação, que até então estava voltado à contenção da inflação que se mantinha 
acelerada no primeiro semestre de 2008 \u2013 8% para o índice de preço ao consumi-
dor \u2013, para a manutenção do crescimento econômico. O Banco Central da China 
(Banco do Povo) adotou uma mudança no sinal da política monetária em curso por 
meio da i) expansão do crédito \u2013 base monetária M1 em porcentagem do PIB \u2013 de 
57,1% entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009 (de 171,3% 
para 257%) e ii) da redução nas taxas de juros (de 4,14 pontos percentuais \u2013 p.p. no 
terceiro trimestre de 2008 para 2,79 p.p. no quarto trimestre de 2008) (tabela 15). 
No plano fiscal, o esforço de expansão foi ainda maior, haja vista o imenso pacote de 
RMB 4 trilhões (US$ 586 bilhões) \u2013 54,3% desse valor foram destinados aos inves-
timentos em infraestrutura \u2013 e as iniciativas de ampliação da proteção social e de po-
líticas trabalhistas que sinalizam o reforço da estratégia de crescimento pautada pelo 
avanço de seu mercado interno (FANG; YANG; MEIYAN, 2009; KHATIWADA, 
2009; ACIOLY; CHERNAVSKY, LEÃO, 2010; PINTO, 2010a, 2010b).
TABELA 15
Indicadores macroeconômicos trimestrais selecionados \u2013 China, 1o trimestre de 
2008-4o trimestre de 2010
Períodos
2008 
T1
2008 
T2
2008 
T3
2008 
T4
2009 
T1
2009 
T2
2009 
T3
2009 T4
2010 
T1
2010 
T2
2010 
T3
2010 
T4
Resevas (menos 
ouro) (bilhões US$)
1.684 1.811 1.908 1.949 1.957 2.135 2.288 2.416 2.464 2.471 2.667 nd
Taxa de câmbio 
(iuan/US$)
7,2 7,0 6,8 6,8 6,8 6,8 6,8 6,8 6,8 6,8 6,8 6,7
Taxa de juros1 4,14 4,14 4,14 2,79 2,79 2,79 2,79 2,79 2,79 2,79 2,79 nd
Base Monetária 
(M1)/PIB (%)
227,6 208,7 203,5 171,3 257,0 249,9 247,2 204,2 281,0 263,7 nd nd
(Continua)
62 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
Períodos
2008 
T1
2008 
T2
2008 
T3
2008 
T4
2009 
T1
2009 
T2
2009 
T3
2009 T4
2010 
T1
2010 
T2
2010 
T3
2010 
T4
Exportações 
(bilhões US$)
306 360 408 354 246 276 325 355 316 389 430 nd
Importações 
(bilhões US$)
264 303 325 240 183 241 286 294 302 348 364 nd
Balança Comercial 
(bilhões US$)
41 58 83 114 62 35 39 61 14 41 66 nd
Índice de preço ao 
consumidor
8,0 7,8 5,3 2,5 -0,6 -1,5 -1,3 0,7 2,2 2,9 3,5 nd
Produção industrial 
(número índice)
nd 15,9 13,0 6,4 n.a. 9,0 12,3 17,9 14,6 16,0 13,5 nd
PIB (bilhões iuane) 6.628 7.419 7.655 9.702 6.868 7.730 8.161 10.776 8.162 9.122 nd nd
Fonte: IFS/FMI. 
Elaboração do autor.
Nota: ¹ Convertida pela taxa de câmbio \u2013 iuane/dólar \u2013 na média do período.
Obs.: nd = não disponível.
Os incentivos fiscais e monetários adotados pelo governo chinês mostraram-
-se eficazes na recuperação econômica, já que depois da abrupta queda do PIB (de 
28% no primeiro trimestre de 2009 contra o semestre imediatamente anterior) e 
da produção industrial (de 51,2% no quarto trimestre de 2009 contra semestre 
o imediatamente anterior), verificou-se rápida recuperação do PIB e da produção 
industrial, pois este cresceu 12,5% no segundo trimestre de 2009 \u2013 no cotejo 
com o trimestre anterior \u2013 e a produção industrial elevou-se em 39% no terceiro 
trimestre de 2009 \u2013 em relação ao trimestre anterior (tabela 15). 
Além dos incentivos fiscais e monetários, a China reafirmou a sua política 
cambial de atrelamento de sua moeda ao dólar30 \u2013 taxa de câmbio iuane/dólar 
permaneceu praticamente estável no valor de 6,8 entre o primeiro trimestre de 
2008 e segundo trimestre de 2010 \u2013, que tem como contrapartida o aumento 
das reservas cambias (de US$ 1,684 trilhão no primeiro trimestre de 2008 para 
US$ 2,667 trilhões no terceiro trimestre de 2010). Essa política cambial possibi-
litou a recuperação das exportações chinesas (de US$ 429,8 bilhões no terceiro 
trimestre de 2010) para um patamar maior do que aquele observado antes da 
crise (tabela 4). Com a desvalorização do dólar em relação às outras moedas na-
cionais \u2013 aumento elevado da base monetária dos Estados Unidos (tabela 13) \u2013 e 
a política de atrelamento do iuane ao dólar, as exportações chinesas ficaram mais 
competitivas em terceiros mercados \u2013 América Latina, Europa etc.
30. Com o aprofundamento da crise internacional, a China, em julho de 2008, interrompeu a sua política de flexi-
bilização gradual do câmbio \u2013 adotada em julho de 2005, que se configurou em um sistema de câmbio \u201cflexível\u201d 
administrado em bandas estreitas a partir da variação de uma cesta de moedas, com maior peso do dólar \u2013 e retornou 
ao sistema de paridade fixa em relação ao dólar (LEÃO, 2010b).
(Continuação)
63O Eixo Sino-Americano e as Transformações do Sistema Mundial\u2026
A despeito desse aumento das exportações chinesas, os superávits comerciais 
reduziram-se em virtude da aceleração das importações (de US$ 183,1 bilhões 
no primeiro trimestre de 2009 para US$ 364,2 bilhões no terceiro trimestre de 
2010), fruto das políticas econômicas expansionistas voltadas à recuperação da 
crise. Essa taxa de crescimento maior das importações em relação às exportações 
reforça a ideia de que o governo chinês esteja tentando realizar um ajuste estru-
tural no seu atual padrão de crescimento, buscando reforçar a demanda interna 
(FANG; YANG; MEIYAN, 2009; PINTO, 2010a, 2010b).
Essa política cambial, em um contexto de superávit do balanço de paga-
mentos, só foi possível com a ampliação da compra de divisa pelo BPC que gera 
a ampliação da base monetária. Para esterilizar o aumento da oferta de iuane, o 
BPC vem utilizando instrumentos de operação de mercado aberto \u2013 venda de 
títulos do Banco Central \u2013 e de aumento da taxa de compulsório dos bancos. 
O problema é que cada vez mais vem se elevando o custo de esterilização para o 
Banco Central e os ajustes frequentes nas taxas de compulsórios dos bancos tem 
afetado, em certa medida, a eficiência do sistema financeiro (XIAOLIAN, 2010).
Os estímulos fiscais, monetários e cambiais recolocaram a economia chinesa 
na rota do crescimento, inclusive, no auge da crise em 2009, a China contribuiu 
de forma positiva para o desempenho do PIB global que foi negativo naquele 
ano (tabela 14). Os dados de 2010 do PIB da China mostram crescimento de 
10,2%. A preocupação atual do governo chinês não é mais o restabelecimento 
econômico, mas sim os efeitos gerados pela forte e rápida recuperação econômi-
ca, sobretudo no que diz respeito aos seus impactos inflacionários \u2013 alimentos, 
matérias-primas e imóveis. 
Nesse novo contexto, a governo tem se utilizado, de forma pragmática e gra-
dualista, de instrumentos de política econômica, tais como elevações contínuas 
e graduais das taxas de juros básica desde outubro de 2010 e da taxa de compul-
sório dos bancos \u2013 o BPC elevou a taxa de compulsório