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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais79 seguidores
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a China em matéria 
de emprego e salários trouxeram implicações políticas relevantes. De acordo com 
o Eurobarometer, esses resultados justificaram o voto contrário no referendo da 
Constituição Europeia, em 2005, na França. A Comissão Europeia sugeriu a im-
posição de sanções financeiras às empresas que tinham recebido financiamento 
da União Europeia, mas decidiram se estabelecer em outra localidade. Em maio 
de 2005, a Comissão de Desenvolvimento Regional do Parlamento Europeu 
(European Parliament\u2019s Regional Development Committed) expressou forte 
apoio a esta proposta e também pediu medidas legais a fim de garantir que as 
corporações detentoras de subsídios europeus não se deslocassem para o exterior 
durante um período \u201clongo e predeterminado\u201d. Vários países europeus adotaram 
regulamentos visando impedir o acesso a recursos públicos subsidiados às empre-
sas que transferissem uma parcela significativa de suas atividades para o exterior \u2013 
como na Itália \u2013, ou ofereceram subsídios às companhias para estimular o retorno 
ao país de origem de atividades que antes estavam localizadas no exterior \u2013 como 
na França. Alguns economistas chegaram a defender sanções comerciais se a Chi-
na não permitisse a valorização de sua moeda. Apesar das evidências observadas 
sobre os efeitos da ascensão econômica chinesa, as políticas econômicas dos ou-
tros países, em vários casos, também foram responsáveis pelas transformações das 
cadeias produtivas e do mercado de trabalho europeu. 
Tendo em vista esse debate, torna-se fundamental analisar as pesquisas re-
centes para compreender de modo mais preciso e abrangente as consequências 
para a Europa do recente crescimento econômico da China. Este trabalho, por-
tanto, avalia como a concorrência com economias de baixos salários, particular-
mente a da China, afeta os países europeus. De maneira mais específica, pretende 
destacar os diversos canais, tanto positivos como negativos, pelos quais se deram 
os impactos sociais, econômicos e no comércio exterior dos países europeus.
82 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
Para alcançar esses objetivos, este trabalho divide-se em duas seções, além 
desta introdução e das considerações finais. A seção 2 discute a forma como a 
crescente competitividade da China nos mercados de exportação tem afetado 
o desempenho comercial dos países europeus, estabelecendo uma comparação 
entre Alemanha e França. Em uma análise ainda preliminar, as duas primeiras 
subseções (2.1 e 2.2) sugerem que os países europeus resistiram muito bem à 
concorrência da China, pelo menos melhor do que os Estados Unidos e o Japão.2 
Isso foi explicado pelo fato de a China e os países europeus exportarem cada vez 
mais produtos semelhantes de acordo com as categorias estatísticas, mas que não 
apresentaram as mesmas variedades/qualidades. A subseção 2.3, a partir de uma 
comparação entre Alemanha e França, também aponta que o posicionamento 
mais elevado de mercado permitiu à União Europeia maior resistência às pressões 
competitivas advindas de países emergentes com baixos salários. Todavia, apesar 
dos efeitos reduzidos do crescimento das exportações chinesas para a Europa, as 
reformas comerciais e financeiras do país asiático deram às empresas europeias 
uma oportunidade para ingressarem no mercado chinês, aproveitando-se da forte 
expansão das receitas exportadoras daquele país. A subseção 2.4 salienta que gran-
de parte das exportações chinesas foram produzidas por firmas com investimen-
to estrangeiro (FIE) e que uma proporção quase igual de exportações chinesas 
incorporou componentes importados. Com efeito, a China agregou um valor 
relativamente baixo à sua produção, transferindo boa parte desses ganhos para as 
transnacionais estrangeiras (entre as quais as europeias).
A seção 3 deste trabalho mostra o impacto econômico e social da interna-
cionalização chinesa sobre as economias europeias, analisando, nas duas primeiras 
subseções, os vários canais pelos quais o comércio com a China e os investimentos 
realizados nesse país afetou o mercado de trabalho europeu. Partindo dessa análise, 
os supostos efeitos negativos da transferência de parte da produção para países com 
mão de obra barata não se comprovaram empiricamente. O impacto macroeco-
nômico adverso da concorrência, em termos de emprego, imposta pelas regiões 
de baixos salários concentrou-se no trabalhador menos qualificado e foi bastante 
limitado. Ademais, na subseção 3.3, discute-se a possibilidade de que a emergência 
da China pudesse ser efetivamente uma oportunidade para as empresas europeias, 
entre outros aspectos, reduzirem seus custos de produção e aumentarem a produti-
vidade, além de impulsionarem um ciclo virtuoso de inovação. Estudos empíricos 
em nível de empresa enfatizaram que, por um lado, os efeitos dos IDEs nas ativi-
2.Embora a sobreposição de exportações da China com a UE seja muito maior do que seria possível prever, dado o seu 
tamanho e nível relativo de desenvolvimento, em mercados de produtos, as variedades chinesas custam menos do que 
as variedades da UE, e o preço relativo chinês vem diminuindo ao longo do tempo em alguns segmentos. Uma análise 
detalhada de dados sugere que a emergência da China como exportadora de quase todos os produtos (mesmo os mais 
sofisticados) não implica automaticamente um colapso das indústrias manufatureiras na Europa (e em outras econo-
mias desenvolvidas). Conforme argumentado por Fontagné (2009), a especialização ocorre em níveis mais refinados 
de desagregação da mercadoria do que se costumava pensar.
83A Ascensão Chinesa: implicações para as economias da Europa
dades das matrizes \u2013 emprego e produtividade \u2013 foram muitas vezes considerados 
positivos. Por outro lado, a disponibilidade de produtos baratos importados da 
China beneficiou o consumidor final, em especial os de baixa renda. 
Por fim, seguem-se as considerações finais que busca sintetizar as principais 
ideias descritas nas seções anteriores.
2 OS EFEITOS DA CONCORRÊNCIA CHINESA SOBRE OS MERCADOS DE 
EXPORTAÇÕES DA UNIÃO EUROPEIA
2.1 O debate em torno da concorrência sino-europeia 
Segundo a teoria de vantagem comparativa, o grau em que os países se especializam 
em diferentes grupos de bens tem implicações importantes para os trabalhadores, 
seja por meio da determinação dos salários, seja pela variação dos custos produtivos. 
Se a concorrência imposta pela China tem se dado naqueles setores em que a União 
Europeia produziu e exportou a maior parcela de sua cesta de bens, os efeitos da en-
trada chinesa no mercado global impactariam os mercados exportadores europeus. 
Com efeito, a redução de preços globais dos manufaturados, impulsionada pela libe-
ralização do comércio e pelo crescimento chinês, deveria reduzir os salários europeus. 
Em contrapartida, se os chineses e a União Europeia não estiveram posicionados no 
mesmo segmento de mercado e, assim, não concorreram diretamente, os salários dos 
trabalhadores europeus não seriam impactados diretamente pelos bens produzidos 
na China. Nesse mesmo caso, a diferenciação/complementaridade entre a produção 
chinesa e da União Europeia reduziria o valor das importações europeias, em função 
da redução dos preços dos produtos chineses, criando um adicional de renda dispo-
nível para aquisição de outros bens e serviços (SCHOTT, 2008).
Vários estudos cujo objeto de análise foi a especialização do comércio da China 
e dos países da União Europeia sugeriram que ambas as regiões convergiram para a 
atuação em setores similares de mercado. Para Rodrik (2006), por exemplo, a China 
se afirmou como caso atípico em relação à sofisticação total de suas exportações. 
De acordo com o índice de sofisticação de Hausmann, Hwang e Rodrik (2007), 
que estimou o \u201cnível médio de receitas das exportações de um país\u201d, o volume de 
exportações chinesas se mostrou semelhante