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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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investigaram se a modernização 
observada das exportações chinesas refletiu a adoção real de tecnologia em 
nível local (AMITI; FREUND, 2010; LARDY, 2005). Em 2007, a parti-
cipação das exportações chinesas no comércio de processados foi de 54% e 
para as exportações de alta tecnologia esse percentual foi de 85%. As ativida-
des de comércio de processamento também foram dominadas por entidades 
estrangeiras: em 2007, 82% das exportações de comércio de processados e 
91% das exportações de comércio de processados de alta tecnologia se origi-
naram de empresas estrangeiras.
Ao considerar a evolução da participação de produtos de alta tecnolo-
gia nas exportações chinesas ao longo do tempo, notou-se que a moderniza-
ção recente das exportações da China respondeu em grande medida à atua-
ção das corporações estrangeiras \u2013 que normalmente atuam no comércio de 
processados. De acordo com o gráfico 5, o percentual de produtos de alta 
tecnologia para as exportações de empresas nacionais aumentou somente 4 
pontos percentuais (de 8,5% para 12,8%), enquanto para as empresas es-
trangeiras o percentual praticamente dobrou (de 26,1% para 48,9%) entre 
1997 e 2007. Jarreau e Poncet (2011) apontaram que os ganhos típicos \u2013 
em termos de valor agregado \u2013 associados ao aumento da sofisticação de 
exportação foram limitados na China às atividades de exportação comuns 
realizadas por empresas nacionais. Isto é, nenhum ganho direto foi extraído 
das atividades comerciais de processamento ou de empresas estrangeiras, 
mesmo que estas fossem os principais contribuintes para a melhoria global 
das exportações da China.
97A Ascensão Chinesa: implicações para as economias da Europa
GRÁFICO 5
Participação das exportações chinesas de alta tecnologia por tipo de empresa \u2013 
1997-2007
(Em %)1
0
5
10
15
20
25
30
35
40
45
50
55
1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007
Empresas nacionais Empresas estrangeiras Todas as empresas
Fonte: Ministry of Commerce of China.
Nota: 1 Cálculos dos autores.
O estudo de Koopman, Wang e Wei (2008), cuja análise partiu de uma 
fórmula geral para calcular os componentes nacionais e estrangeiros nas expor-
tações do comércio de processados, concluiu que a participação estrangeira de 
valor agregado nas exportações chinesas foi de cerca de 50%, muito superior do 
que na maioria dos outros países. Esta participação tem se mantido relativamente 
constante ao longo dos últimos anos, embora a migração da indústria de compo-
nentes eletrônicos para a China levou a maioria dos observadores a esperar que o 
valor agregado no setor de exportação da China estaria aumentando ao longo do 
tempo. Efetivamente, o conteúdo estrangeiro tem sido maior em setores mais so-
fisticados, como o de aparelhos eletrônicos e equipamentos de telecomunicações 
(cerca de 80%). Tanto Van Assche e Gangnes (2010) como Yao (2009) argumen-
taram que, levando-se em conta o regime comercial de processados da China, a 
composição das exportações chinesas não foi muito diferente da de outros países 
com níveis semelhantes de desenvolvimento. 
O mouse de computador made in China produzido em Suzhou pela 
Logitech International S/A, uma empresa suíço-americana, foi um exemplo do 
argumento de que as exportações chinesas não são tão chinesas. Conforme rela-
tado pelo Wall Street Journal, em 2004, do preço final de venda de US$ 40,00, a 
Logitech ficava com cerca de US$ 8,00, enquanto aos distribuidores e varejistas 
cabia US$ 15,00. Após a contabilização de mais US$ 14,00 que iam para os for-
necedores estrangeiros das peças de Wanda, o que cabia à China de cada mouse, 
98 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
para arcar com os custos produtivos (salários, infraestrutura etc.), era equiva-
lente a apenas US$ 3,00. No caso dos produtos made in China que chegam 
aos consumidores finais na Europa, o resultado para a China foi sem dúvida o 
mesmo. Assim, a maior parte da riqueza gerada pelas exportações chinesas foi 
apropriada pelos estrangeiros, em especial para os bens mais sofisticados.
Em suma, observou-se ao longo dessa seção que a emergência da China 
nas cadeias produtivas e no comércio mundial não representou necessariamen-
te um declínio das exportações europeias, uma vez que eles não estão compe-
tindo diretamente com as indústrias. No entanto, isso somente foi possível em 
função da capacidade de a indústria da Europa subir a \u201cescada\u201d da qualidade. 
Nesse sentido, a busca pela especialização em produtos de maior qualidade 
do setor de alta tecnologia se deveu ao fato de estes estarem menos expostos 
às exportações chinesas. A história de sucesso da Alemanha mostrou, por um 
lado, a importância de focar nas atividades de mais alta qualidade e, por outro, 
a possibilidade de intensificar esse processo aproveitando o desenvolvimento 
do comércio de produtos intermediários, fabricados em localidades de preços 
baixos, como nos novos Estados-membros da União Europeia ou mesmo na 
China. Além disso, destacou-se que o melhor posicionamento da China no 
comércio internacional respondeu, em grande parte, pela atuação das empresas 
estrangeiras no mercado chinês. Com efeito, a ascensão chinesa tanto não teve 
grandes efeitos negativos para o comércio europeu, como abriu um espaço 
para suas empresas otimizarem sua produção.
Todavia, muitos analistas têm questionado que a crescente ocupação chinesa 
na indústria e no comércio global poderia ter fortes repercussões no mercado de 
trabalho europeu. Partindo dessa constatação, a seção 3 deste artigo se volta para 
as consequências econômicas e sociais da transferência de cadeias produtivas da 
Europa para terceiros países, com destaque para a China.
3 OS EFEITOS SOCIAIS E ECONÔMICOS DA TRANSFERÊNCIA PRODUTIVA 
PARA OS PAÍSES COM BAIXOS SALÁRIOS
O deslocamento da produção (terceirização) não teve grande impacto direto 
sobre as economias europeias.13 Ainda que parte importante da sociedade ti-
vesse responsabilizado o acirramento da concorrência imposta por países com 
baixos salários, como a China, não somente pela transferência inexorável da 
13. Assim, estritamente falando, a terceirização pode ser definida como a transferência de uma fábrica para o exterior \u2013 
primeiro, fechar a fábrica no país de origem e, em seguida, abri-la no exterior \u2013, de onde ela produz para vender lo-
calmente \u2013 deslocando exportações nacionais anteriores \u2013 ou para exportar de volta ao país de origem (importação). 
No entanto, de uma forma menos rigorosa, ela pode corresponder a qualquer decisão de instalar parte do processo de 
produção no exterior, em países com baixos salários, e em uma modalidade ainda mais flexível, meramente importar 
de países com baixos salários.
99A Ascensão Chinesa: implicações para as economias da Europa
produção para essas regiões, mas também por reduzir os postos de trabalho 
nos países desenvolvidos, vários analistas têm expressado uma visão contrária. 
Eles argumentaram que, embora os custos fossem importantes, outros de-
terminantes da transferência, como acesso ao mercado, qualidade e presença 
de fatores de produção complementares (infraestrutura, instituições e força 
de trabalho), favoreceram os países desenvolvidos. Nesse sentido, observou-
-se um número crescente de empresas chinesas investindo em países europeus 
(FONTAGNÉ; PY, 2010). O deslocamento produtivo ainda beneficiou as em-
presas da União Europeia com menor participação sobre o mercado de trabalho. 
A literatura existente sugere que a terceirização tem impacto limitado sobre o 
emprego doméstico nas economias desenvolvidas.
Partindo das contradições que envolvem o debate em torno dos efeitos eco-
nômicos e sociais causados pela transferência produtiva da Europa para os países 
com baixos salários, esta seção busca esclarecer e apontar os principais aspectos 
que tratam dessa