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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais79 seguidores
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na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
industrial na economia. Com efeito, para sustentar o nível do emprego industrial 
eram necessários, em primeiro lugar, que os ganhos gerais de produtividade fossem 
acompanhados pelo crescimento de demanda em todos os setores da economia 
e, em segundo lugar, que esses ganhos na indústria propiciassem uma ampliação 
equivalente da sua demanda. Ou seja, se a demanda pelos bens produzidos na in-
dústria não acompanhassem o crescimento da produtividade do setor, surgiria um 
excesso de oferta de bens que impulsionaria a redução da capacidade de produtiva 
e, consequentemente, a menor necessidade de postos de trabalho na indústria.
Em função das céleres mudanças tecnológicas na indústria,18 a demanda eu-
ropeia por produtos industriais tenderam a crescer a uma taxa inferior à dos ga-
nhos de produtividade. Desse modo, a geração de empregos na indústria diminuiu 
de modo progressivo ao longo do tempo, como sugere o modelo apresentado no 
anexo. De acordo com Rowthorn e Ramaswamy (1999) e Fontagné e Bouhlol 
(2006), o crescimento da demanda da manufatura \u2013 impulsionada pelo efeito-ren-
da negativo, e efeito-substituição positivo \u2013, em geral, mostrou-se insuficiente para 
compensar a menor necessidade de mão de obra associada aos ganhos de produ-
tividade no setor. No contexto francês, esse segundo fator explicou cerca de 30% 
de perdas de emprego industrial, entre 1980 e 2007, sendo que, na década passada 
(2000-2007), foi responsável por até 65% dessas perdas (DEMMOU, 2010).
Com efeito, as estimativas existentes indicaram que esses dois fatores responderam 
por, pelo menos, 70% da redução do emprego industrial da Europa. Assim, o terceiro 
fator \u2013 a concorrência internacional \u2013 determinou não mais que 30% deste fenômeno.
Além disso, vale ressaltar que os efeitos promovidos por esse terceiro fator não se 
deveram exclusivamente aos países com baixos salários, como a China, mas também 
a outros países com salários mais elevados. Dessa perspectiva, a distribuição das im-
portações da UE-15 sugere que os produtos baratos adquiridos nos países com baixos 
salários têm um impacto restrito sobre a estrutura produtiva interna. Conforme o 
gráfico 6, as importações da UE-15 concentraram-se na própria região, uma vez que 
as compras oriundas da UE-15 tiveram uma participação elevada (entre 50% e 70%) 
e estável, ao longo dos últimos três decênios. Além disso, a participação dos outros 12 
países da UE-27 triplicou, entre 1980 e 2009, atingindo 7% do total das importações 
da UE-15. Fora dessa região, as importações foram dominadas por países desenvolvi-
dos, cuja participação em todo o período, na média, foi de 15% (gráfico 6).
18. Teoricamente, a mudança tecnológica afeta a estrutura da demanda (e, portanto, do emprego) por meio de dois ca-
nais principais: um efeito-renda (associado aos ganhos de produtividade global da economia) e um efeito-substituição 
(associado aos ganhos diferenciais de produtividade entre os setores manufatureiro e não manufatureiro). O primeiro 
efeito (renda) refere-se à mudança não uniforme na composição dos agentes de sua cesta de consumo à medida que 
a renda real evolui. O segundo efeito trata da possibilidade de compensar essa evolução, uma vez que os ganhos 
maiores de produtividade na indústria \u2013 em comparação com o restante da economia \u2013 deprimem os preços relativos 
e, portanto, estimulam a demanda por bens nesse setor. A magnitude do efeito depende da sensibilidade da demanda 
às mudanças nos preços relativos.
103A Ascensão Chinesa: implicações para as economias da Europa
GRÁFICO 6
Participação das importações da UE-15 por regiões selecionadas \u2013 1981-2009 
(Em %) 
0
7
14
21
28
35
42
49
56
63
70
1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009
UE-15 Países desenvolvidos (excluindo UE-15)
Países emergentes Demais países da UE-27
China
Fonte: Chelem Database. Disponível em: <http://chelem.bvdep.com>. 
Elaboração da autora.
As compras de países emergentes, apesar de um aumento muito rápido no 
período \u2013 de 5%, em 1980, para 16%, em 2009, do total das importações totais \u2013, 
permaneceram com uma contribuição bastante restrita se comparada às demais 
regiões. As importações provenientes da China (com Hong Kong) aumentaram 
37 vezes durante o período, mas representaram apenas 6% do total importado 
pela UE-15 em 2009 (gráfico 6).
Ademais, os fluxos de IDE dos países europeus tiveram como destino 
principal as nações da região. Os países da OCDE, por exemplo, receberam 
em torno de 90% do IDE vindo da Alemanha ou da França em 2008. Este 
número praticamente não mudou desde 2000. A China respondeu por, 
respectivamente, menos de 1% e 2% do estoque de IDE francês e alemão 
no exterior em 2008.
Estimativas diretas do número de funcionários no exterior em fi-
liais estrangeiras de empresas europeias confirmam que o padrão de 
simples relocalização de postos de trabalho europeus para países com 
salários baixos é bastante limitado. Segundo dados da OCDE, as mul-
tinacionais alemãs empregavam 2,3 milhões de trabalhadores no es-
trangeiro em 2008. Dois terços estavam em países da OCDE e, mais 
precisamente, em outros países europeus (perto de 45% na UE-27). 
Esses números têm se mantido relativamente constantes desde 1985. 
104 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
Embora a participação da China tivesse se expandido de 3% para 9%, 
entre 1985 e 2008, o país empregou apenas 200 mil funcionários alemães, 
enquanto a perda de emprego total da indústria alemã foi de 3 milhões 
(EU KLEMS, 2009).
Evidentemente, essas estatísticas mais recentes fornecem apenas um re-
trato imperfeito do impacto total da emergência da China sobre o mercado de 
trabalho da União Europeia, pois se concentram em atividades externalizadas 
pelas empresas europeias e não tratam do volume de emprego que foi substi-
tuído pela importação de produtos nesses países com baixos salários. Todavia, 
mesmo os métodos que incorporam os impactos do comércio exterior para a 
eliminação dos empregos europeus \u2013 medidas de conteúdo de mão de obra 
intensiva no comércio internacional, modelos de equilíbrio geral computável 
e modelos econométricos19 \u2013 não constataram uma redução significativa dos 
empregos industriais na Europa. Os resultados desses estudos apontaram que 
somente cerca de 10% a 20% da eliminação dos postos de trabalho da indús-
tria europeia foi explicada pela ampliação das relações comerciais bilaterais 
com os países emergentes.
3.2 O impacto no emprego europeu oriundo do IDE para os países com 
baixos salários
A chave para avaliar o impacto do IDE das empresas europeias no emprego domés-
tico é o grau de substituição ou complementaridade entre as empresas nacionais e 
as operações no exterior e, portanto, a substituição ou complementaridade entre 
o emprego doméstico e o no exterior (HANSON; MATALONI; SLAUGHTER, 
2005). Poderia se esperar que a transferência da atividade para o exterior reduziria o 
emprego no país de origem, enquanto a expansão do escopo da atividade em nível 
internacional criaria empregos no país de origem. Do ponto de vista teórico, se a 
operação estrangeira replicasse o negócio nacional, haveria um efeito de substitui-
ção entre o trabalho doméstico e o estrangeiro. Logo, a realização de IDE deveria 
reduzir a geração dos postos de trabalho na atividade nacional das empresas. Isso 
ocorre quando a estratégia para a realização do IDE visa aproveitar-se da existência 
de fatores de produção com custos menores em terceiros mercados (denominado 
IDE vertical). Em contrapartida, quando as atividades estrangeiras são desenvol-
vidas de modo a expandir o mercado das empresas nacionais (denominado IDE 
\u201chorizontal\u201d), as atividades externas e internas se complementam. Mesmo no caso 
do IDE vertical,