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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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de 1997 afetou de modo negativo 
grande parte da região. Nos anos 2000, a dinâmica de articulação produtiva asiá-
tica liderada pelo Japão passou a ter na China um novo protagonista. 
Partindo desse cenário, o presente capítulo tem dois objetivos. Primei-
ro, identificar as principais características dessa articulação produtiva da Ásia, 
capitaneada pelo Japão, sublinhando o momento de inserção da China nesse 
processo. E, segundo, apresentar o modo pelo qual a China passou a redefinir 
a dinâmica dessa articulação produtiva, notadamente depois da crise asiática 
de 1997. Para tanto, o texto está dividido em mais quatro seções, além desta 
introdução. Na seção 2, discute-se a conformação da articulação das indústrias 
asiáticas, dando enfoque à liderança japonesa e ao ingresso da China nesse 
* Mestre em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNI-
CAMP) e Pesquisador do Programa de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) na Diretoria de Estudos e 
Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Deint) do Ipea.
116 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
processo sem se esquecer do papel cumprido pela economia norte-americana. 
Na seção 3, apontam-se as principais políticas chinesas depois de 1997 que 
deram ao país a capacidade de sustentar o dinamismo de sua economia, ao 
contrário da maior parte dos países da região, bem como os efeitos da ascensão 
chinesa na articulação produtiva asiática. Na seção 4, apresentam-se as mudan-
ças no comércio e nos investimentos regionais depois dos anos 1990, período 
em que a China se tornou um grande líder regional. E, por fim, na seção 5, 
seguem-se as considerações finais.
2 A ECONOMIA POLÍTICA DOS \u201cGANSOS VOADORES\u201d: A ARTICULAÇÃO 
PRODUTIVA ASIÁTICA LIDERADA PELO JAPÃO SOB A HEGEMONIA DOS 
ESTADOS UNIDOS1
O período conhecido como pós-guerra presenciou o acelerado crescimento eco-
nômico da Ásia liderado pelo Japão. Apesar dos esforços empregados por cada 
país, esse crescimento se deu em uma rede hegemônica coordenada pelos Estados 
Unidos.2 Na esfera geopolítica, a existência de bases militares norte-americanas no 
território japonês e as restrições políticas impostas às possíveis ambições nipônicas 
de hegemonia regional e, na esfera geoeconômica, a abertura do mercado norte-
-americano, bem como a imposição do dólar como meio de pagamento e moeda 
reserva na Ásia condicionaram a reconstrução japonesa \u2013 e de parte da região \u2013 aos 
rumos da política norte-americana (FIORI, 1999; MCKINNON; OHNO, 1997).
A política dos Estados Unidos de enquadrar o desenvolvimento do líder regio-
nal asiático (Japão), depois da Segunda Grande Guerra (1937-1945), à sua esfera de 
influência também foi replicada posteriormente aos países próximos (Taiwan e Coreia 
do Sul). No contexto da Guerra Fria, cuja disputa entre os blocos socialista e capita-
lista se acirrou gradativamente, as revoluções socialista da China e da Coreia do Norte 
que irromperam entre o fim dos anos 1940 e o início do decênio seguinte serviram 
de justificativa para extensão da intervenção norte-americana na Ásia \u2013 em Taiwan 
e na Coreia do Sul, particularmente. Essa intervenção ocorreu nos mesmos moldes 
daquela observada no Japão, isto é, por meio do estabelecimento de bases militares e 
acordos políticos, assim como pela abertura econômica dos Estados Unidos para esses 
países e pela utilização do dólar como reserva de valor e meio de pagamento. 
Do ponto de vista econômico, como apontou Ozawa (2003), os Estados Unidos 
formaram uma \u201cmacroeconomia de indução ao crescimento\u201d \u2013 mediante o estímulo 
1. Parte desta seção foi desenvolvida em Leão (2010a).
2. Essa visão foi lançada por Cumings (1999): \u201ca experiência do nordeste asiático neste século não foi um reino de 
independência onde autonomia e igualdade reinaram, mas a de envolvimento em outra rede: a rede hegemônica. 
Esta rede tinha uma aranha: primeiro Inglaterra/América, depois América/Inglaterra, em seguida a guerra e a derrota, 
depois a América unilateral, finalmente, e até o momento, a América hegemônica. Japão, Coréia do Sul e Taiwan 
industrializaram-se dentro da rede\u201d.
117A Articulação Produtiva Asiática e os Efeitos da Emergência Chinesa
e a disseminação de tecnologia, conhecimento, informação de mercado, expertise e 
abertura do mercado de consumo \u2013 e uma institucionalidade capitalista propícia à 
expansão e à inserção global da estrutura produtiva da Ásia.3 Com efeito, \u201co milagre 
asiático não seria viável sem o papel dos Estados Unidos como hegemon do capita-
lismo. Os Estados Unidos criaram, e continuaram mantendo, um ambiente global 
extremamente favorável ao comércio, aos investimentos, ao upgrade estrutural desses 
países\u201d (OZAWA, 2003, p. 701). Simultaneamente à ação norte-americana, a expan-
são da estrutura produtiva e a escalada tecnológica asiática apenas se materializaram 
por meio da ampla participação estatal em cada país, tanto para fomentar e coordenar 
as empresas privadas \u2013 via concessão de crédito, controle de importações etc. \u2013 como 
para criar algumas indústrias e grande parte da infraestrutura.
Foram esses os pilares que sustentaram o desenvolvimento industrial 
regionalmente articulado e a divisão de trabalho muito particular na Ásia \u2013 
modelo conhecido na formulação de Akamatsu (1962) como \u201cgansos voado-
res\u201d. Este modelo se caracterizou pelo upgrade tecnológico dos países asiáticos 
na cadeia produtiva global capitaneado por uma economia-líder, o Japão. 
Na definição de Ozawa (2003, p. 701, tradução livre), \u201cesse líder foi respon-
sável não somente por ingressar e expandir, de modo sequencial, vários setores 
indústrias, mas também por implementar grandes inovações nestes setores e 
identificar aqueles capazes de realizar transformações estruturais cruciais\u201d.4
O Japão somente conseguiu liderar essa articulação produtiva depois de realizar 
um conjunto diversificado de políticas internas. Nesse sentido, o Estado Nacional 
japonês funcionou como um grande articulador e regulador do desenvolvimento in-
dustrial e tecnológico, ao longo do período pós-guerra. Para Fagundes5 (1998, p. 23),
As raízes institucionais da política e da organização industrial japonesa no pós-guer-
ra têm origem na centralização das decisões econômicas promovidas pelo Estado 
na década de trinta e durante a segunda guerra mundial (...). Embora não tenha 
promovido a nacionalização das indústrias japonesas, o Estado estabeleceu, na épo-
ca, um sistema de controle de preços e quotas de produção fortemente baseado na 
formação compulsória e controlada de cartéis em setores chaves da economia. (...) 
a economia japonesa emerg[iu] do pós-guerra com um arcabouço industrial carac-
terizado, de um lado, pela presença do Estado enquanto elemento coordenador das 
atividades econômicas, e, de outro, por um tipo de organização industrial basea-
3. A \u201cmacroeconomia de indução ao crescimento\u201d (macro-clustering) é um fenômeno no qual a economia hegemônica 
propaga estímulos e, ao mesmo tempo, articula entre si o desenvolvimento de um conjunto de economias (...). Esse 
estímulo ao crescimento inclui disseminação de tecnologia, de conhecimento, de habilidades específicas, de informa-
ção de mercado e a expansão de demanda, o que contribui para sustentar os altos níveis de eficiência e produtividade 
do trabalho. (OZAWA, 2003, p. 701).
4. \u201c(\u2026) this model is basically a leading growth sector stages model a la Schumpeter, in which industrial upgrading 
occurs periodically accentuating a sequence growth by stages, in a each of which a certain industrial sector can be 
identified as the main engine of structural transformation into a higher value-added level\u201d.
5. Para informações mais detalhadas sobre o papel do Estado japonês no processo de industrialização, ver Torres Filho (1983).
118 A China na Nova Configuração Global: impactos