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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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japonesa, depois dos anos 1980, quando ocorreram as já mencionadas 
mudanças conjunturais e estruturais na economia internacional, o Japão também 
exerceu essa função para um conjunto de países asiáticos (OZAWA, 2003).
A expansão e modernização da indústria do Japão, principalmente aquelas 
que atuavam nos setores mais dinâmicos da economia global \u2013 eletrônica, au-
tomotiva, informática etc.\u2013, em um contexto de crescente abertura produtiva, 
ocorreu simultaneamente à \u201cexpulsão\u201d das atividades produtivas nipônicas para 
outras nações da região. Conforme lembrou Palma (2004, p. 430), a integração 
da produção asiática ganhou força na medida em que algumas categorias de pro-
dutos \u201cdeixaram de pertencer à pauta de produção de exportações japonesa, seja 
porque eram intensivas em trabalho ou porque o país esgotou o crescimento po-
tencial de sua produtividade\u201d. As pressões competitivas para as empresas do Japão 
intensivas em tecnologia ampliarem sua eficiência produtiva e avançar na cadeia 
de inovação, ao lado dos aumentos crescentes nos custos de trabalho, motivaram 
o deslocamento de processos produtivos mais simples para países vizinhos com 
baixos salários. Nesta lógica, as corporações nipônicas começaram a exportar seus 
produtos justamente a partir desses últimos mercados.
Por um lado, os países do Leste e Sudeste asiático passaram a se especializar em 
atividades mais simples e a vender externamente bens finais de cadeias produtivas 
de alto conteúdo tecnológico por meio, principalmente, da montagem de partes e 
componentes importadas. Por outro lado, as empresas transnacionais (ETN) japo-
nesas \u2013 e das corporações de outros países desenvolvidos \u2013 externalizaram progres-
sivamente sua produção \u2013 transferindo sua capacidade de exportação \u2013 a fim de 
aumentar suas assimetrias concorrenciais, que se traduziam na geração de ganhos 
monopólicos e permitiam ao país enfrentar a desenfreada concorrência global.
Com efeito, as atividades das ETN do Japão foram continuamente externali-
zadas, impulsionando a formação de uma rede regional de produção que integrava 
diferentes países e empresas, nas quais eram diversificadas as etapas da cadeia de 
valor a fim de obter o máximo de retorno para o conjunto de atividades. Por causa 
disso, foram abertos espaços para uma articulação maior das outras economias a 
Ásia à divisão do trabalho dessas corporações. Essa articulação regional \u2013 \u201cgansos 
voadores\u201d \u2013 obedeceu a uma lógica bastante particular, cujos países envolvidos 
121A Articulação Produtiva Asiática e os Efeitos da Emergência Chinesa
(...) especializavam-se de acordo com seus diferentes custos de produção. Os de 
menor grau de desenvolvimento começavam importando determinado produto 
para, posteriormente, produzir no mercado local e, numa fase seguinte, exportar. 
(...) para cada produto havia uma fase de heterogeinização e de complementari-
dade regional, sucedida por uma de homogeneização marcada pelo acirramento 
da concorrência e posteriormente heterogeinização. Em sua formulação original, 
Akamatsu vislumbrava um \u201cciclo de produto intra-setorial\u201d através da expansão de 
novos produtos num mesmo setor de acordo com sua sofisticação tecnológica e um 
\u201cciclo de produto inter-industrial\u201d, com a passagem de bens de consumo para bens 
de capital. Cada ciclo passaria pelas três fases: importação, produção doméstica e 
exportação. Neste esquema (...) a elevação dos custos de trabalho decorrente da 
absorção do excedente de mão de obra constitui um elemento central para o deslo-
camento das especializações (MEDEIROS, 2010, p. 261-262).
A conformação desse cenário permite afirmar que a disputa entre Estados 
Unidos e Japão e as estratégias de expansão transfronteira das ETN explicaram os 
primeiros impulsos fornecidos ao desenvolvimento asiático a partir da década de 
1980. As restrições comerciais impostas ao Japão \u2013 valorização forçada do iene e 
cotas de exportações \u2013 e a necessidade das empresas nipônicas de se deslocarem, 
levando-se em conta a oportunidade de lucros \u201cextraordinários\u201d oferecidos pe-
los mercados asiáticos,11 possibilitaram à região asiática comandar um processo 
virtuoso de crescimento econômico e de expansão de suas estruturas produtivas, 
ampliando sua rede de comércio e investimentos. 
Em suma, o esgotamento dos ganhos de produtividade para determinados 
setores exportadores nipônicos, em um ambiente de realinhamento da relação 
dólar/iene, bem como de estabelecimento de cotas exportadoras ao Japão, de-
terminou uma nova hierarquização da indústria asiática. Enquanto os japoneses 
asseguraram o desenvolvimento da tecnologia de ponta e a realização de etapas 
\u201cmais finas\u201d da produção, os países de menor grau de desenvolvimento ficaram 
responsáveis pelos processos mais padronizados e menos qualificados. Isto pro-
moveu uma rápida ampliação dos fluxos de investimentos e do comércio intrar-
regional principalmente o intrafirma (OZAWA, 2003).
Todavia, essa rápida integração e hierarquização da produção se deveram a outros 
dois aspectos da esfera geoeconômica. Primeiro, a exemplo do que já havia acontecido 
com o Japão nos anos 1950 e 1960, a abertura do mercado consumidor norte-america-
no para os outros países da Ásia que não o Japão se constituiu em uma importante fonte 
de demanda para as exportações desses países (BELLUZZO, 2005). Além disso, a libe-
ralização das contas de capitais globais permitiu ao mercado financeiro norte-americano 
11. Nesse sentido, para Kojima (2000 apud MEDEIROS 2010, p. 262) \u201cas grandes firmas [inicialmente as japonesas] 
são consideradas um condutor benevolente do progresso tecnológico. O crescimento decorre dos ganhos de produtivi-
dade que se origina de uma maior eficiência alocativa e eficiência produtiva (...). É o ganso líder (o país mais avançado) 
que inaugura uma pressão para baixo nos demais países, iniciando a sequência articulada\u201d.
122 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
comandar um processo de expansão do crédito, que se materializou na alavancagem de 
grandes empresas estrangeiras e no endividamento do setor financeiro norte-americano. 
Esses processos tornaram possíveis aos países asiáticos intensificarem o acúmulo de su-
perávits em conta-corrente e atrair crescentes fluxos de investimento direto estrangeiro 
(IDE) dos Estados Unidos, estimulando a concorrência entre as corporações norte-ame-
ricanas e japonesas no continente (BELLUZZO; CARNEIRO, 2003).
Segundo, a opção do governo japonês em manter, na segunda metade da dé-
cada de 1980, uma política fiscal e monetária expansionista, a fim de estimular o 
consumo e o investimento privado como forma de recuperar a recessão causada pela 
rápida queda do superávit comercial, também rearticulou a forma de ação de suas 
empresas.12 Essa conjuntura associada às constantes variações cambiais e a possibili-
dade de as empresas exportadoras japonesas terem livre acesso às operações financei-
ras \u2013 via abertura da conta capital \u2013 fomentou um novo tipo de atividades no país:
Diante desse quadro, as empresas produtivas lançaram-se com grande apetite em 
operações especulativas numa busca desenfreada por lucros não-operacionais. Com 
os ajustes ocorridos nas empresas japonesas na década de 1970 e 1980, a tendência 
havia sido de muitas delas aumentarem substancialmente seus saldos de caixa. Com 
a desregulamentação do mercado financeiro, as corporações passaram a aproveitar 
as oportunidades que os mercados interno e externo lhes proporcionavam em ter-
mos de juros, câmbio, etc. (TORRES FILHO, 1997, p. 10).
Essa nova forma de operação das empresas japonesas expandiu ainda mais 
suas fronteiras de atuação em torno do globo. Como o choque cambial onerou a 
operação produtiva dessas empresas no Japão e como os bancos também estavam 
buscando outros mercados para reaver seus lucros, essas empresas foram \u201cobrigadas\u201d 
a se deslocar e investir