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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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duráveis e não duráveis \u2013 e dos investimentos industriais 
34. O êxito dessa estratégia do Japão confirmou-se em uma série de estudos (KWAN, 2002; JOSEPH, 2006; GINZ-
BURG; SIMONAZZI, 2005, por exemplo) cuja conclusão foi a manutenção do padrão hierarquizado e sequencial dos 
\u201cgansos voadores\u201d, sendo o Japão o principal produtor das manufaturas mais sofisticadas seguido pelos NIE-1, NIE-2 
e China. Com efeito, todos os \u201cgansos\u201d se mostraram capazes de avançar na cadeia produtiva e tecnológica, mas isso 
não significou, por enquanto, uma mudança na hierarquia de desenvolvimentos industriais previamente estabelecida. 
Segundo Medeiros (2010, p. 282-283), por exemplo: \u201cO resultado encontrado [por Kwan (2002)] vai exatamente 
ao encontro do previsto no [Esquema dos Gansos Voadores]. Embora todos os países tenham elevado o seu grau de 
sofisticação, a hierarquia não mudou, as exportações mais sofisticadas originam-se no Japão, seguido pelos [NIE-1] os 
países do [NIE-2, com a Malásia à frente] e finalmente pela China\u201d.
35. Em certos setores da indústria microeletrônica \u2013 computadores pessoais, celulares, entre outros \u2013, estas corporações 
já tem se mostrado mais produtivas e capazes de concorrer e, inclusive, superar a fronteira tecnológica imposta pela 
indústria japonesa. No caso da Coreia do Sul, a transnacional LG já pode ser considerada como umas principais compe-
tidoras globais na área de microeletrônica, aparecendo como empresa líder nos segmentos de computadores pessoais, 
televisores, aparelhos de DVD e outros. Quanto à China, \u201cas corporações nacionais líderes na indústria eletrônica, tais 
como Huawei e a ZTE, já adquiriram a tecnologia 3G (terceira geração) e [tem se mostrado capazes de competir com 
as empresas dos países desenvolvidos], sendo consideradas importantes players globais\u201d (ZHANG et al., 2009, p. 9).
136 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
e em infraestrutura \u2013 cuja expansão impulsionou a compra de máquinas, equi-
pamentos e outros produtos manufaturados (HADDAD, 2007; LEÃO, 2010a). 
Isto fez que a China passasse a importar um volume crescente de produtos dos 
países vizinhos, tanto dos desenvolvidos, como dos em desenvolvimento. Nesse 
sentido, a China se afirmou como um mercado para as exportações asiáticas. 
A formação da ampla base exportadora chinesa, ainda que tivesse sido im-
pulsionada pelas empresas estatais, teve grande suporte do capital estrangeiro que 
entrou no país por meio das \u201cplataformas de exportação\u201d. Nestas plataformas, as 
corporações do exterior, em geral realizando alianças com empresas nacionais, des-
locavam etapas de montagem de bens finais destinados à exportação \u2013 sejam os in-
tensivos em trabalho, sejam os de alto conteúdo tecnológico \u2013 apoiando-se na im-
portação de insumos produzidos em seus países de origem. A partir desse processo, 
foi inaugurado um novo fenômeno na dinâmica econômica asiática que produziu
(...) dois mecanismos [distintos]. [Em primeiro lugar], um mecanismo substituti-
vo gerado pelas exportações chinesas em terceiros mercados, particularmente nos 
[Estados Unidos] sobre as exportações asiáticas. As plataformas exportadoras chi-
nesas de produtos intensivos em mão de obra deslocam produtores asiáticos destes 
bens e absorvem capitais voltados para a sua produção e exportações mundiais. 
Associado a estas exportações existe, em segundo lugar, um mecanismo comple-
mentar, decorrente das importações de insumos, partes e componentes e bens de 
capital. Este duplo movimento atinge de forma diferenciada os países [asiáticos] 
segundo suas capacitações tecnológicas específicas favorecendo os mais avançados 
na produção de bens de capital e aqueles produtores especializados de matérias-
-primas (MEDEIROS, 2006, p. 389-390).
Além disso, as exportações oriundas dessas plataformas, embora tivessem 
se dirigido majoritariamente para os Estados Unidos e para a Europa, alcança-
ram os países asiáticos, em especial aqueles em desenvolvimento. Por conta da 
forte competitividade desses produtos, bem como da proximidade geográfica e 
do estreitamento das relações bilaterais, a China encontrou no Sul e no Sudeste 
Asiático mercados para suas exportações de manufaturados. 
A análise anterior confirma como a emergência chinesa impactou praticamente 
todas as regiões da Ásia, tanto dentro como fora dos \u201cgansos voadores\u201d. Em termos 
bilaterais, as relações econômicas estabelecidas entre a China e o restante do continente 
foram redesenhadas. Em função disso, cabe avaliar as principais características das novas 
relações existentes, ressaltando as grandes diferenças existentes entre cada uma delas.
Para o Japão e os NIE-1 \u2013 excluindo Hong Kong36 \u2013 a forte expansão das 
plataformas exportadoras e do mercado interno chinês beneficiou suas empresas. 
36. A partir desse momento, denomina-se este grupo (Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura) de \u201cÁsia desenvolvida\u201d.
137A Articulação Produtiva Asiática e os Efeitos da Emergência Chinesa
A produção de bens de capital, assim como a de insumos manufaturados japo-
nesas, coreanas, taiwanesas e de Cingapura se aproveitaram da China de dois 
modos. De um lado, favoreceu-se da crescente demanda chinesa para importar 
máquinas e equipamentos necessários à realização dos gigantescos investimentos 
em infraestrutura e na indústria. Neste sentido, Haddad (2007, p. 19, tradução 
livre) destacou que \u201ca eventual perda de mercados exportadores dos NIE-1 para 
a China não teve efeitos negativos pelo fato dessa região ter deslocado [parte de] 
suas exportações e seus investimentos em direção à própria China\u201d. De outro 
lado, encontrou um mercado de processamento de exportações em forte cresci-
mento. Com isso, o Japão e os NIE-1 viram o mercado chinês deter um volume 
crescente de suas importações, bem como de investimentos diretos que eram em-
pregados nas etapas de montagem de bens acabados vendidos aos Estados Unidos 
e, em menor escala, à Europa (WONG, 2010; MEDEIROS, 2006).37 
No caso de Hong Kong, a relação econômica estabelecida com a China 
foi relativamente distinta daquela observada entre este último país e a Ásia de-
senvolvida. Isto porque o crescimento das plataformas exportadoras chinesas, 
assim como de sua indústria de base e intensiva em tecnologia criou uma dinâ-
mica complementar entre o setor industrial e de serviços das duas localidades. 
A transferência da base produtiva da ilha para a China formou o que Lemoine 
e Ünal-Kesenci (2004) denominaram de um \u201cduplo comércio transitório\u201d, ou 
seja, China e Hong Kong ampliaram suas relações comerciais em um duplo sen-
tido. Por causa dos elevados custos locais de produção e do know-how adquirido 
em serviços financeiros e logísticos, as empresas de Hong Kong especializaram-
-se apenas em atividades de serviços, dirigindo suas indústrias para o mercado 
chinês. Como resultado, a China passou a absorver grandes investimentos e ex-
portações de partes e componentes da ilha que acabavam sendo utilizados na 
produção de bens finais, cujo destino era novamente Hong Kong. A partir do 
seu mercado local, as empresas da ilha realizavam as tarefas ligadas aos setores de 
serviços antes de reexportar esses bens para as economias mais desenvolvidas de 
fora do continente (MEDEIROS, 2006).38 
Já a relação China/NIE-2 foi marcada por mudanças não apenas na esfera 
produtiva, como também no setor primário. Na produção, os bens chineses gerados 
37. \u201cHistoricamente o centro da produção compartilhada no sudeste asiático tem sido o Japão e segue sendo a partir 
de suas grandes corporações na TI. A China constitui hoje o maior mercado de componentes para a indústria japonesa, 
e parcela significativa dos investimentos nipônicos na China destina-se à montagem desta rede de comércio e produ-
ção, comandada por suas grandes corporações. (...) Tal como ocorre com o Japão, a estrutura do comércio é fortemente 
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