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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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com os fluxos de IDE. Estes, maciçamente concentram-se em eletrônica, equipamentos de telecomunicação, 
têxteis e vestuário, petróleo e produtos químicos e máquinas e equipamentos. Estes fluxos de investimento respondem 
por parcela importante da produção compartilhada envolvendo a China\u201d (MEDEIROS, 2006, p. 391).
38. Ao contrário do que ocorreu com a Ásia desenvolvida (ver na seção 4), a China acumulou grandes superávits 
comerciais com Hong Kong. Os gráficos 1A e 2A, anexos, confirmam o impacto positivo para a China no seu comércio 
exterior bilateral com Hong Kong. 
138 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
nas \u201cplataformas exportadoras\u201d exerceram forte pressão competitiva sobre os NIE-
2, ao invés de estabelecer maior complementaridade com suas indústrias, como 
observado na relação com Japão e Coreia do Sul, por exemplo. \u201cDe várias formas, 
a dinâmica chinesa exerceu uma pressão competitiva nas economias dos [NIE-2], 
cuja manifestação mais evidente foi disputa por IDE e pelas exportações industriais 
dirigidas para os países desenvolvidos\u201d (WONG, 2010, p. 79). Apesar disso, estes 
efeitos negativos foram mais do que compensados pela demanda criada nas pró-
prias plataformas. Ou seja, ao mesmo tempo em que as exportações processadas 
deslocaram empresas estabelecidas nos NIE-2, elas abriram oportunidades para que 
estes países também pudessem vender bens de capital e intermediários necessários à 
indústria de alta tecnologia chinesa (WONG, 2010).
No setor primário, o aumento do consumo chinês de commodities e ali-
mentos também beneficiou os NIE-2. Isto porque as empresas chinesas am-
pliaram a importação e os investimentos nessa região a fim de assegurar esses 
recursos, que são cada vez mais essenciais para sustentar o seu crescimento eco-
nômico. Dois dos segmentos mais beneficiados foram o de madeira encontrado 
na Malásia e Tailândia, bem como o de frutas e vegetais frescos das Filipinas 
(HUMPHREY; SCHMITZ, 2007). 
Essa última dinâmica da relação China/NIE-2 também deu a outros pa-
íses do continente \u2013 as regiões menos desenvolvidas da Associação de Nações 
do Sudeste Asiático (Association of South-East Asian Nations \u2013 Asean)39 e da 
Associação do Sul da Ásia para Cooperação Regional (South Asia Association 
for Regional Cooperation \u2013 SAARC)40 \u2013 oportunidades a fim de explorar o gi-
gantesco mercado interno chinês. Coxhead (2007, p. 1103) anotou as principais 
características da relação chinesa com essas duas regiões (SAARC e Asean-3):
A expansão chinesa refletiu num aumento da demanda e contribuiu para a elevação 
dos preços globais de todos os tipos de produtos agrícolas e recursos naturais. Esse boom 
afetou os produtores brasileiros de soja, os produtores chilenos de cobre, bem como os 
fornecedores de energia de todo o mundo, mas a proximidade geográfica e a abundância 
de recursos naturais do Sul e Sudeste Asático fez dessas regiões as principais beneficiárias. 
Nesses locais, o cultivo de vários produtos \u2013 palmeiras, borracha, café e outros \u2013 cresceu 
extraordinariamente desde os anos 1990. A pesca marinha e outras atividades marítimas 
também se expandiram aceleradamente.
Todavia, somente no caso da Asean-3, a evolução tecnológica dos \u201cgansos 
voadores\u201d serviu como um mecanismo propulsor para fortalecer seu processo de 
39. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference of 
Trade and Development \u2013 Unctad), a Asean é composta, além dos NIE-2, pelas seguintes nações: Brunei, Camboja, 
Laos, Mianmar, Cingapura e Vietnã. Entre os países menos desenvolvidos, destacam-se Vietnã, Laos e Mianmar, cuja 
denominação adotada, neste trabalho, é Asean-3.
40. A SAARC tem como membros: Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e o Sri Lanka.
139A Articulação Produtiva Asiática e os Efeitos da Emergência Chinesa
industrialização. O upgrade tecnológico da cadeia produtiva regional, em espe-
cial dos países mais atrasados como a China, em um contexto de aumento dos 
custos de produção e de acirramento concorrencial em setores de ponta dessa 
cadeia, possibilitou a entrada da Asean-3 no esquema dos \u201cgansos voadores\u201d para 
a realização de tarefas mais intensivas em trabalho e/ou de baixo valor agregado, 
inclusive no período recente em algumas cadeias de maior intensidade tecnoló-
gica. Essas tarefas anteriormente eram produzidas nos últimos gansos seguidores, 
notadamente na China. Na medida em que as empresas desse último país passa-
ram a concentrar sua atuação em outras atividades, foram abertos novos canais 
para que Mianmar, Vietnã e Laos conseguissem se inserir na articulação asiática 
de produção e investimentos.
O Vietnã, por exemplo, absorveu etapas de setores industriais de menor 
valor agregado \u2013 intensivo em mão de obra, notadamente \u2013 da China, em es-
pecial por meio da ilha de Taiwan e de Hong Kong.41 A \u201cGrande China\u201d (Chi-
na, Taiwan e Hong Kong) representou cerca de um quarto o estoque de IDE 
recebido pelo Vietnã entre 1998 e 2007 (MARTINS; LEÃO, 2011). Quanto 
ao Laos, embora grande parte dos investimentos recebidos da China estivesse 
concentrada em produtos primários e commodities, a aproximação das duas na-
ções também estimulou a migração de etapas de produção de algumas indústrias 
chinesas para o Norte do Laos \u2013 como as de motocicletas e as de produção de 
baterias (ANDERSSON; ENGVALL; KOKKO, 2009).
Esse processo também tem sido apoiado na criação da área de livre comér-
cio entre China e a Asean, nomeada de Área de Livre Comércio China-Asean 
(China-Asean Free Trade Area \u2013 CAFTA). A CAFTA deve resultar em um rápido 
crescimento dos fluxos de comércio e, simultaneamente, permitir maior articu-
lação das cadeias produtivas das duas regiões, fazendo que os efeitos da ascensão 
chinesa, possivelmente, se mostrem ainda maiores. Partindo das análises de Wong 
(2010) e Chin e Stubbs (2010) três foram os aspectos identificados nesse sentido: 
i) fortalecimento das exportações de matérias-primas e insumos da Asean para a 
China; ii) atração das tecnologias de bens e serviços desenvolvidas na China; e iii) 
possibilidade dos países menos industrializados da Asean se tornarem mercados 
prioritários para os investimentos das transnacionais chinesas.42
41. Nessa direção, vale destacar o deslocamento da fábrica de lâmpadas chinesa Ben Fan para o Vietnã. Em função dos 
baixos níveis salariais, a Ben Fan tem como meta a transferência de 85% de sua produção para o país. Espera-se alcançar o 
número de 8 mil funcionários entre 2010 e 2011, contra 300 em 2009 \u2013 e apenas 5 mil na China, contra 25 mil em 2008.
42. \u201cA equipe que liderou a articulação comercial intraregional detalhou o pacote construído a fim de fortalecer as 
relações China-Asean, incluindo um projeto piloto para identificar setores específicos e prioritários. A ênfase tem sido 
dada na cooperação econômica e na aproximação comercial entre China e Asean, por conta disso tem se tornado 
necessária, nas duas regiões, a \u2018eliminação de restrições para o comércio de bens, tecnologia, capital e informação\u2019. 
(\u2026) Dessa perspectiva, a China tem implementado uma estratégia \u2018going abroad\u2019, na qual as empresas chinesas foram 
encorajadas a investirem no exterior. Nesse movimento, a Asean ganhou notoriedade, \u2018caracterizando-se numa região 
prioritária para atuação das empresas chinesas\u201d. (CHIN; STUBBS, 2010, p. 10, tradução livre).
140 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
Pelo lado chinês, a aproximação com a SAARC e com a Asean-3 ofereceu 
a possibilidade de crescimento das suas exportações processadas. Com efeito, a 
abertura da China para realizar investimentos e comprar bens primários da Ase-
an-3 e da SAARC ocorreu em contrapartida da venda de suas manufaturas baratas 
produzidas das \u201cplataformas exportadoras\u201d.
4 OS IMPACTOS DA CHINA NA RECENTE ARTICULAÇÃO