5367ipea_china_miolo_07_11_11
354 pág.

5367ipea_china_miolo_07_11_11


DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
Pré-visualização50 páginas
PRODUTIVA 
ASIÁTICA: ANÁLISE DO COMÉRCIO EXTERIOR E DOS INVESTIMENTOS 
DIRETOS ESTRANGEIROS
A partir da discussão realizada na seção anterior, busca-se nesta seção verificar 
quais foram as mudanças decorrentes da emergência chinesa nos fluxos de comér-
cio e investimento da região asiática. De modo geral, a China impactou basica-
mente de duas formas a articulação industrial e comercial da Ásia. 
Em primeiro lugar, fortaleceu e ampliou a integração produtiva regional 
já consolidada, principalmente das indústrias de alta tecnologia. Isto trouxe 
a reboque três movimentos simultâneos, a saber: i) favoreceu as exportações 
das empresas dos países mais industrializados da região \u2013 Japão e NIE-1 \u2013 que 
produziam e vendiam produtos sofisticados a partir de suas filiais instaladas no 
mercado chinês; ii) atraiu importações de insumos industriais e máquinas des-
ses mesmos países \u2013 incluindo também os NIE-2 \u2013 para reexportação de bens 
finais; e iii) tornou a China um grande competidor, bem como abriu espaço 
para atuação de outros países no esquema dos \u201cgansos voadores\u201d em setores 
industriais menos elaborados. Em segundo lugar, a partir da abertura do mer-
cado de consumo chinês, os países exportadores de produtos básicos (alimentos, 
insumos industriais etc.) também puderam aumentar suas exportações e receber 
investimentos nesses setores. Estes dois impactos redefiniram as relações econô-
micas bilaterais entre a China e as demais regiões da Ásia. 
No que diz respeito mais especificamente ao comércio exterior, foram for-
mados e/ou reforçados quatro padrões. O primeiro, que envolve a China e a Ásia 
desenvolvida (Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura), mostrou-se altamente 
intensivo em tecnologia e estruturalmente deficitário para a China, principalmen-
te por causa da expansão de importações de bens de alto valor agregado da Ásia 
desenvolvida. O segundo, que trata da relação entre a China e os NIE-2, também 
apresentou saldo comercial negativo para a China, mas com uma pauta comercial 
mais diversificada \u2013 que incluiu também commodities energéticas e alimentos.43 
Os dois outros padrões (China-SAARC e China-Asean-3) foram caracterizados 
43. Nesses dois primeiros padrões, a elevada competitividade da China nos setores de alta tecnologia permitiu a 
ampliação de suas exportações para as três regiões (Japão, NIE-1 e NIE-2), bem como deslocou algumas indústrias, 
notadamente da última região. 
141A Articulação Produtiva Asiática e os Efeitos da Emergência Chinesa
por superávits da China em razão das vendas chinesas de produtos manufaturados 
mais caros \u2013 média e alta intensidade tecnológica \u2013 e da importação de itens bá-
sicos e industrializados de baixo valor agregado. Contudo, a partir do ingresso da 
Asean-3 nos \u201cgansos voadores\u201d, o quarto padrão tem sofrido grandes transforma-
ções nos anos mais recentes, devido ao forte crescimento das exportações do Laos, 
do Vietnã e de Mianmar de produtos industriais de maior conteúdo tecnológico.
Quanto aos investimentos diretos, observaram-se dois grandes movimen-
tos. Um primeiro, no qual a transferência de estrutura produtiva dos países mais 
desenvolvidos da Ásia (Japão e NIE-1) para a China se materializou no aumento 
significativo dos fluxos de IDE para esse país. E, um segundo, em que as corpo-
rações chinesas ampliaram seus investimentos nas demais regiões do continente 
(NIE-2, SAARC e Asean-3) com o intuito de garantir recursos fundamentais, seja 
para o mercado consumidor ou para superar seus gargalos de infraestrutura, seja 
para transferir parte de sua estrutura produtiva. 
As duas subseções a seguir abordam essas questões. A primeira discute as 
principais características e a evolução dos quatro padrões de comércio exterior 
existente entre a China e algumas regiões da Ásia. A segunda aborda as transfor-
mações da emergência chinesa sobre os fluxos de investimentos diretos asiáticos.
4.1 Os padrões asiáticos de comércio exterior no contexto de emergência chinesa
4.1.1 O padrão China-Ásia desenvolvida
Impulsionada principalmente pela formação das plataformas exportadoras chi-
nesas, a corrente de comércio entre a China e a Ásia desenvolvida passou uma 
acelerada expansão. Como mostra o gráfico 1, essa evolução, por sua vez, foi 
particularmente desfavorável quantitativamente à China. Desde os anos 2000 os 
fluxos comerciais entre a China e a Ásia desenvolvida cresceram exponencialmen-
te. Enquanto em 2000 a corrente de comércio entre os dois países era de US$ 159 
bilhões, em 2008 era de US$ 634,5 bilhões. Este crescimento também promoveu 
o aumento do superávit da Ásia desenvolvida com a China. O saldo comercial 
que já era desfavorável à China no começo da década de 2000 \u2013 o déficit em 2000 
foi de 31,6 bilhões \u2013 se tornou ainda mais negativo no período subsequente. En-
tre 2001 e 2009, por exemplo, o déficit comercial saltou de US$ 30,4 bilhões para 
US$ 134,9 bilhões. Nesse período, o déficit acumulado foi de US$ 931 bilhões, 
sendo que a média anual foi de US$ 121,6 bilhões (gráfico 1).
142 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
GRÁFICO 1
Evolução da corrente de comércio chinesa com a Ásia desenvolvida \u2013 1995-2009
(Em US$ milhões correntes) 
-210.000
-140.000
-70.000
0
70.000
140.000
210.000
280.000
350.000
420.000
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009
Saldo Exportações Importações
Fonte: Handbook of Statistics/Unctad. 
Elaboração do autor.
Esse diferencial, além do próprio crescimento das exportações proces-
sadas chinesas \u2013 que tem relação direta com a expansão das importações de 
insumos industriais, bem como de máquinas e equipamentos oriundas desses 
países \u2013, foi resultado também da pauta exportadora chinesa mais diversi-
ficada. Por isso, apesar da maior participação dos produtos intensivos em 
tecnologia, os segmentos intensivos em trabalho e recursos naturais ainda 
mostraram grande importância.
Segundo a tabela 1, embora os bens intensivos em trabalho e recursos natu-
rais tivessem visto sua participação nas exportações chinesas para a Ásia desenvol-
vida cair ininterruptamente, este setor ainda representou mais de 20% do total 
exportado pela China (21,4% entre 2007 e 2009). Esta queda ocorreu em con-
trapartida do aumento na participação das exportações dos setores de alta e média 
intensidade tecnológica que se elevou de, respectivamente, 38,8% e 28,2% entre 
1998-2000 para 35,3% e 46,1% entre 2007-2009.44
44. Esse fenômeno foi resultado tanto do aumento do comércio intrafirma, no qual empresas da Ásia desenvolvida 
passaram a reexportar, da China, produtos finais para seus países de origem, como o crescimento das exportações de 
empresas chinesas \u2013 especializadas nesses segmentos \u2013 e/ou joint ventures de outros mercados, onde a competitivi-
dade é mais elevada do que no Japão e nos NIE-1.
143A Articulação Produtiva Asiática e os Efeitos da Emergência Chinesa
TABELA 1
Pauta de exportações chinesas para a Ásia desenvolvida \u2013 1995-2009
(Em %, acumulada a cada triênio)1
  1995-1997 1998-2000 2001-2003 2004-2006 2007-2009
Commodities e petróleo2 24,8 20,9 18,4 15,4 12,0
Intensivos em trabalho e recursos naturais 37,5 36,0 32,6 24,2 21,4
Baixa intensidade tecnológica 7,9 6,1 4,9 8,4 10,1
Média intensidade tecnológica 14,6 17,8 18,5 20,8 24,7
Alta intensidade tecnológica 13,2 17,7 24,4 30,3 30,7
Não classificados 1,9 1,5 1,1 1,0 1,0
Fonte: Handbook of Statistics/Unctad.
Elaboração do autor.
Notas: 1 Classificação do World Development Report/Unctad.
2 Esta categoria inclui também outros insumos energéticos. Todavia, denomina-se ao longo deste texto apenas como 
\u201ccommodities e petróleo\u201d.
No que tange às importações chinesas provenientes da Ásia desenvolvida, estas 
se concentraram quase que exclusivamente nos segmentos de média e alta intensi-
dade tecnológica,