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DisciplinaGeopolítica do Espaço Mundial5 materiais78 seguidores
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de 2000 em relação aos anos 1990, uma vez que no plano geopolítico o governo 
George W. Bush ampliou o unilateralismo dos Estados Unidos, trazendo a guerra 
para o centro da discussão internacional \u2013 guerra no Afeganistão e no Iraque e 
a luta contra o terrorismo internacional \u2013, ao mesmo tempo que adotou uma 
política monetária e fiscal expansionista que foi um dos elementos responsáveis 
pelo forte ciclo de crescimento da economia mundial entre 2003 e 2007 (taxa de 
4,7% na média anual).
A nova conjuntura do sistema político e econômico global, em curso desde 
o início do século, não foi apenas uma decorrência da ação unilateral do Estado 
americano; pelo contrário, o que se verificou, ao longo da década de 2000, foi o 
retorno e a emergência de atores representativos nos espaços de disputa global, 
tais como a Rússia, a Índia e a China. O aumento recente de poder deste último 
país está vinculado ao seu forte dinamismo econômico que se articulou com o 
crescimento recente da Ásia, da África, da América Latina e da Europa. A despeito 
do aumento do poder relativo de alguns Estados, os Estados Unidos mantêm uma 
elevada concentração do poder \u2013 econômico e político \u2013, pois possui a moeda de 
curso internacional \u2013 dólar \u2013, a maior economia mundial (24,4% do produto 
interno bruto \u2013 PIB global em dólares correntes em 2009) e uma força militar 
sem precedentes históricos (42% das despesas militares do mundo são realizadas 
pelos americanos).
* Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) 
do Ipea.
20 A China na Nova Configuração Global: impactos políticos e econômicos
Nesse sentido, o sistema internacional permanece unipolar; porém essa unipola-
ridade parece estar caminhando para uma redução do poder relativo dos Estados 
Unidos frente ao aumento de poder de outros Estados, em especial a China, que 
tem tido crescimento acelerado do seu poder político e econômico. Nesse cam-
po, inclusive a China passou o Japão tornando-se a segunda maior economia do 
mundo. A visita de Hu Jintao, presidente chinês, aos Estados Unidos, em janeiro 
de 2011, consolida a importância da China e dos Estados Unidos \u2013 que juntos 
detiveram 33% do PIB mundial, em 2009 \u2013 e evidencia que estes são dois países 
indispensáveis para a resolução dos principais problemas enfrentados atualmente 
pela economia mundial.
A ascensão em curso da China, associada ao elevado poder dos Estados Uni-
dos, difere da organização do sistema bipolar do período da Guerra Fria (Estados 
Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas \u2013 URSS),1 pois a competi-
ção pela acumulação de poder mundial entre Estados Unidos e China vem acom-
panhada de tensões geopolíticas, sobretudo após a crise internacional de 2008,2 
e de complementaridades econômicas profundas no plano comercial, produtivo 
e financeiro, configurando uma relação siamesa entre estes dois países \u2013 não é 
para menos que o presidente Barack Obama \u201cbatizou o relacionamento China/
EUA como concorrência amistosa\u201d (ROSSI, 2011, p. A10, grifo nosso) \u2013, tendo 
os Estados Unidos claramente maior poder nesse processo, ainda que em termos 
relativos, menor do que o que tinha antes da crise.
Essa relação sino-americana recente teve origem, em 1972, com a aproxima-
ção dos Estados Unidos, sob o governo Richard Nixon, com a China comunista, 
e foi uma decorrência da estratégia americana de isolamento da URSS. O status 
chinês de aliado americano no sistema mundial perdurou até o fim do bloco co-
munista; a partir de então a China passou rapidamente à condição de concorrente.
Além do fim da URSS, o episódio da Tiananmen, em junho de 1989 \u2013 forte 
repressão do governo chinês às manifestações contra o regime comunista \u2013 e as ten-
sões no estreito de Taiwan acirraram as relações entre a China e os Estados Unidos. 
Este último inclusive adotou fortes sanções econômicas contra a China em 1989 
que perduraram por toda a década de 1990. Após o apoio chinês na empreitada 
americana de combate ao terrorismo internacional, sobretudo no Afeganistão e 
1. No sistema bipolar, os Estados Unidos e a URSS \u2013 os dois principais atores \u2013 travavam uma forte competição pela 
acumulação de poder \u2013 político \u2013 mundial, que não necessariamente se configurava no plano econômico devido 
à pouca \u2013 ou quase nenhuma \u2013 integração entre os dois blocos \u2013 capitalista e comunista. No bloco capitalista, 
configurou-se uma cooperação antagônica entre Estados Unidos, Japão e Alemanha que representou uma articulação 
entre Estados capitalistas concorrentes no plano econômico, alçando o crescimento a uma questão de manutenção 
da ordem capitalista. A crise dos anos 1970 desestruturou aquele arranjo cooperativo, pois a elevação dos custos 
produtivos \u2013 salariais, de matérias-primas e os choques do petróleo \u2013 provocou o acirramento da concorrência entre 
as empresas americanas, alemãs e japonesas.
2. Na primeira semana de dezembro de 2010, a China estava simbolicamente cercada por tropas americanas, sul-
-coreanas e japonesas devido ao exercício militar conjunto no mar do Japão (DIEGUEZ, 2011).
21O Eixo Sino-Americano e as Transformações do Sistema Mundial\u2026
Iraque, as relações entre estes dois países melhoraram de forma gradual entre 2001 
e 2008. Mais recentemente, pós-crise de 2008, as tensões comerciais entre estes 
dois países elevaram-se em virtude dos déficits americanos com a China, em um 
contexto de baixo crescimento da economia americana. Para os americanos, a ma-
nutenção da desvalorização artificial da moeda chinesa tem gerado perda significa-
tiva de postos de trabalho no país.
Mesmo nesse novo contexto geopolítico de ampliação do poder americano 
durante os anos 1990, a China já havia alcançado condições econômicas estrutu-
rais para manter o seu crescimento econômico extraordinário. Crescimento este 
que criou uma complementaridade econômica \u2013 comercial, produtiva e finan-
ceira \u2013 cada vez maior com os Estados Unidos. Na verdade, o ciclo de expansão 
mundial do início do século XXI foi uma decorrência de novos fluxos comerciais, 
produtivos e financeiros que conectaram, por um lado, os Estados Unidos e, por 
outro, as economias do Sudoeste Asiático, especialmente a China.
Nem mesmo a crise internacional de 2008 interrompeu esse processo, que 
parece inclusive ter reforçado a importância do eixo sino-americano. A configura-
ção desse novo eixo que articula a globalização financeira americana, por um lado, 
e o milagre econômico chinês, por outro, tem provocado mudanças significativas 
na divisão internacional do trabalho e, consequentemente, gerado alterações nas 
posições relativas de determinados Estados na hierarquia do sistema mundial. 
Sistema este que é caracterizado por países que buscam acumular poder político e 
riqueza na arena global, bem como pela elevada concentração do poder \u2013 econô-
mico e político \u2013 em poucos Estados, pois, nas palavras de Nobert Elias, \u201cquem 
não sobe cai\u201d. 
 Diante disso, este artigo busca mostrar as relações de competitividade e com-
plementaridade econômica \u2013 comercial, produtiva e financeira \u2013 entre a China e os 
Estados Unidos, bem como os impactos da configuração do eixo sino-americano 
para a dinâmica macroeconômica mundial, tentando apontar que as mudanças do 
sistema econômico e político mundial observadas na década de 2000 são uma de-
corrência, em boa medida, da configuração desse novo eixo geoeconômico.
Além desta introdução, descreve-se, na seção 2 deste capítulo, de forma 
sintética, o nascimento da relação siamesa entre os Estados Unidos e a China. 
Na seção 3, busca-se apresentar e analisar as relações comerciais, produtivas e fi-
nanceiras entre China e Estados Unidos na década de 2000, ensejando mostrar a 
configuração da relação siamesa entre esses países, tendo os Estados Unidos maior 
poder nessa relação. Na seção 4, busca-se analisar o papel desempenhado pelo