Núcleo Moral da Contituição
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concreto sem lançar-se ao campo do subjetivismo ilimitado. 
Dada normatividade constitucional a Constituição passa a pertencer ao mundo do 
dever ser, objetiva transformar a realidade social com a materialização fática de seu conteúdo, 
transformando o mundo do ser, fazendo-o aproximar-se dos desígnios traçados pelo poder 
constituinte. Assim, se o Estado Liberal objetivava abstenção, o Social a intervenção, o 
Democrático tem como objetivo a transformação social empreendida a partir de normas 
jurídicas constitucionais, dando efetividade à Dignidade Humana, cujo significado será visto 
no próximo item. 
 
 3.2 Dignidade Humana e o Estado Democrático de Direito 
Diante da virada copernicana estabelecida pelo constitucionalismo do pós-
segunda guerra, a reaproximação do Direito com a Moral foi resposta às atrocidades 
vivenciadas no nazismo, fascismo e ditaduras várias, inclusive no Brasil, neste movimento a 
 
29Ibid., p.32\u221533 
30 Ibd., p.33 
31 NASCIMENTO, Rogério José Bento do. A Ideia do Justo como Chave para Compreensão do Constitucionalismo 
Contemporâneo. In Renata Braga Klevenhusen (coord). Temas sobre Direitos Humanos Em Homenagem do Professor 
Vicente de Paulo Barreto. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 157 
32 DWORKIN, Ronald. Levando os Direitos a Sério. trad. Nelsom Boeira. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 
 
 
Revista Jurídica Eletrônica Direito, Sociedade e Desenvolvimento \u2013 maio-outubro/2013 
Coordenação : Professor Pós-Doutor Antônio Pereira Gaio Júnior 
Edição: Guilherme Fernandes da Cunha Corrêa Bandeira e Livia Guida Antonío 
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Revista Jurídica Eletrônica 
Volume 1 - Nº 1 - Ano 2013 
 
 
 
Instituto de Três Rios 
 
Dignidade Humana é alçada a núcleo moral das atuais Constituições, tem-se nela o principal 
valor a ser respeitado e promovido pelo Estado Democrático de Direito. 
 A contribuição kantiana para reflexão sobre o estado democrático de direito 
caracteriza-se pela ênfase na necessária complementariedade entre a moral e 
o direito, como condição de institucionalização dessa forma de regime 
político. A relação entre essas duas ordens normativas assume função 
destacada no quadro do estado contemporâneo porque em função delas é 
que se pode estabelecer o argumento legitimador do sistema democrático. A 
leitura das constituições do estado democrático de direito torna-se, assim, 
necessariamente diferenciada em virtude da fonte moral de onde nasce o 
sistema político-institucional e jurídico. A Constituição por ter uma fonte 
moral, pois é fruto da manifestação da vontade de agentes morais 
autônomos estabelece limites ao arbítrio e à desigualdade social.\u201d33 
A partir de tal marco histórico a Dignidade Humana é inserida nas declarações de 
Direitos e nas Constituições, mais recentemente após a queda do comunismo na década de 90 
foi consagrada em Constituições do Leste Europeu, como a da Croácia de 1990, Bulgária, 
Romênia e Letônia de 1991, Rússia de 1993, entre outras. Na Brasileira está consagrada como 
um dos princípios fundamentais, já no art. 1º inc. III. 
Mas qual o significado de Dignidade Humana, qual o conteúdo deste agora 
princípio, norma constitucional? A resposta está na contribuição kantiana, pois como aduz 
Barreto \u201ca discussão que se processa na contemporaneidade em torno do assunto tem como 
interlocutor o filósofo iluminista\u201d 34. A proposta e a influência de Kant no Direito 
contemporâneo é paradigmática se confrontada com de outros filósofos, conforme Sandel
35
 é 
umas das mais poderosas e influentes já feitas por um filósofo. Neste sentido a definição não é 
jurídica, mas sim de cunho filosófico, moral, o que denota a reaproximação do Direito com a 
Moral. 
A Dignidade Humana é entendida de acordo com o imperativo categórico de Kant 
pelo qual o ser humano é um fim em si mesmo e não um meio para qualquer finalidade. Na 
mesma linha, o ser humano é insubstituível, diferente das coisas e dos seres irracionais, por 
isto estes possuem valor e aqueles possuem dignidade, elemento que impede sua reificação. 
Nas palavras de Kant 
\u201cO homem, e, duma maneira geral, todo o ser racional, existe como um fim em si 
mesmo, não simplesmente como meio para uso arbitrário desta ou daquela vontade. 
Pelo contrário, em todas as suas ações, tanto nas que se dirigem a ele mesmo como 
nas que se dirigem a outros seres racionais, ele tem sempre de ser considerado 
simultaneamente como um fim (...) Os seres cuja existência depende, não em 
verdade da nossa vontade, mas da natureza, têm contudo, se são seres irracionais, 
apenas um valor relativo como meios e por isso se chamam coisas, ao passo que os 
seres racionais se chamam pessoas, porque a sua natureza os distingue já como fins 
em si mesmos, quer dizer, como algo que não pode ser empregado como simples 
meio e que, por conseguinte, limita nessa medida todo o arbítrio. (...). no reino dos 
 
33 BARRETO, Vicente de Paulo. Fetiche dos direitos humanos e outros temas. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2010. p. 31 
34Ibid.,p. 69 
35 SANDEL, Michel J. Justiça O que é fazer a Coisa certa. Trad. Heloísa Matias e Maria Alice Máximo. 8 ed. Rio de 
Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. 
 
 
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Volume 1 - Nº 1 - Ano 2013 
 
 
 
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fins tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode 
pôr-se em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está 
acima de todo preço, e portanto não permite equivalente, então tem ela dignidade 
(...) Nunca ela poderia ser posta em cálculo ou confronto com qualquer coisa que 
tivesse um preço, sem de qualquer modo ferir a sua santidade.\u201d 36 
A Construção de Kant sobre Dignidade Humana exige compreender o seu 
entendimento sobre autonomia, ação moral e imperativo categórico e sua diferença para o 
imperativo hipotético, visto que só é possível agir com autonomia se ação estiver assente com 
o imperativo categórico e não com o hipotético. 
Agir com autonomia para Kant é agir com liberdade, mas esta não significa agir 
livremente para fazer o que quer obter satisfação de desejos, pois se assim fosse feito a atitude 
não seria livre, mas um meio para satisfazer algo não racionalmente exigido, mas 
instintivamente desejado. Por isto só existe autonomia se ação é realizada de acordo com uma 
lei que alguém se impõe a si mesmo, isto porque, \u201cquando nós, como animais, buscamos o 
prazer ou evitamos a dor, na verdade não estamos agindo livremente. Estamos agindo como 
escravos dos nossos apetites e desejos\u201d 37. 
Neste sentido as escolhas, como o que comer e beber, não são exercício de 
liberdade, mas sim obediência a um desejo, quando será escolhido o meio para atingir o fim, 
que é a satisfação. As coisas ficam sujeitas às leis da física e os animais são refém de seus 
instintos e por isto, ambos, não podem fazer escolhas, não agem com liberdade e não possuem 
autonomia. 
Eis, portanto, a relação entre liberdade como autonomia e a concepção de Kant sobre moral. 
Agir Livremente não é escolher as melhores formas para atingir determinado fim; é 
escolher o fim em si- uma escolha que os seres humanos podem fazer e bolas de bilhar (e a 
maioria dos animais) não podem.
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Não por outro motivo só há que se falar em responsabilidade moral pelas 
ações praticadas com autonomia, com liberdade em realizar atos por serem eles um fim em si,