VIZEU, Alfredo - Decidindo o que é notícia - Os bastidores do telejornalismo
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VIZEU, Alfredo - Decidindo o que é notícia - Os bastidores do telejornalismo


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Decidindo o que é notícia. Os
bastidores do telejornalismo
Alfredo Vizeu
Universidade Federal de Pernanmbuco
2 Alfredo Vizeu
AGRADECIMENTOS
Uma pesquisa nunca é um trabalho solitário. Constitui-se de
vários corações e mentes, que de uma forma ou de outra contri-
buem na sua construção.
A Jô, Pedro e João, pelo simples fato de existirem;
Aos meus pais Alfredo (em memória) e Miguelina, pelo dom
da vida;
À minha orientadora e amiga Luiza Maria Cezar Carravetta,
pela postura crítica ao longo do trabalho;
À Fapergs e à Capes, pela bolsa de estudos, fundamental para
a realizaçao deste projeto.
Índice
1 INTRODUÇÃO: A FORÇA DO TELEJORNALISMO 5
2 INDÚSTRIAS CULTURAIS: TELEVISÃO 15
2.1 Um breve histórico . . . . . . . . . . . . . . . . 15
2.2 As indústrias culturais e a marca do autor . . . . 23
2.3 A hegemonia da televisão . . . . . . . . . . . . . 32
3 INDÚSTRIAS CULTURAIS E JORNALISMO 39
3.1 A lógica do capital e o jornalismo . . . . . . . . 39
3.2 O mundo dos jornalistas . . . . . . . . . . . . . 52
3.3 A notícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
3.4 O newsmaking . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76
4 AS ROTINAS DE TRABALHO DOS EDITORES DE
TEXTO: CONSTRUINDO A NOTÍCIA 87
4.1 Um olhar sobre o telejornal . . . . . . . . . . . . 87
4.2 Preparando o telejornal . . . . . . . . . . . . . . 96
4.3 Em compasso de espera . . . . . . . . . . . . . . 105
4.4 A linha da morte: o fechamento . . . . . . . . . 113
5 (EM)CONCLUSÃO 121
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 133
7 ANEXOS 149
7.1 Glossário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
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4 Alfredo Vizeu
7.2 ABREVIATURAS DO ESPELHO . . . . . . . . 152
7.3 ESPELHOS DOS TELEJORNAIS . . . . . . . . 152
Capítulo 1
INTRODUÇÃO: A FORÇA
DO TELEJORNALISMO
Duas imagens transmitidas pelo Jornal Nacional, da Rede Globo,
no final de março, começo de abril deste ano, emocionaram e re-
voltaram o país. Nas duas, um fato em comum: a violência poli-
cial. A primeira, que foi ao ar no dia 31 de março, mostra policiais
militares agredindo pessoas e matando um homem numa favela
em Diadema, na Grande São Paulo. A outra, apresentada uma
semana depois, também mostra policiais militares espancando e
extorquindo moradores numa favela da Cidade de Deus, no Rio
de Janeiro.
A partir da exibição das reportagens aconteceu uma série de
protestos e anúncios de medidas por parte dos governos dos Esta-
dos e Federal para combater a violência policial. A pergunta que
fica é: esse procedimento dos militares é uma novidade? Não. No
dia-adia das grandes cidades brasileiras a violência daqueles que
têm por obrigação garantir a segurança da população não é algo
novo. Então, o que mudou? É que o que se comentava no trabalho,
nas ruas e nos bares foi estampado, no horário nobre, no principal
jornal da televisão brasileira.
À parte a barbárie do ato, que deve ser repudiado, interessa-
nos aqui chamar atenção para um fato que passou praticamente
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6 Alfredo Vizeu
despercebido na época: a força da televisão e, em particular, do
telejornalismo. Uma enquete realizada pelo jornal O Estado de
São Paulo revela que o paulistano não desgruda o olho da TV
(Leal, 1996, p.4). Mais surpreendentes são os dados de uma pes-
quisa realizada pelo Jornal do Brasil. A principal opção do mo-
rador do Rio de Janeiro na hora de relaxar não é a praia, mas a
televisão (Branco, 1996).
Para a maioria das pessoas, os telejornais são a primeira in-
formação que elas recebem do mundo que as cerca: como está a
política econômica do governo, o desempenho do Congresso Na-
cional, a vida dos artistas, o cotidiano do homem comum, entre
outras coisas. Calcula-se que apenas os telejornais da noite (TV
Record, TV Bandeirantes, TV Globo, SBT e CNT) atinjam a audi-
ência acumulada de 50 milhões de pessoas (NA GUERRA, 1995).
Uma enquete realizada pela revista Imprensa, na Grande São
Paulo, em maio do ano passado, mostra que 89,4% dos entrevista-
dos assistem telejornais. Os noticiários da Globo detêm a maioria
da audiência com 84,2%, depois temos o SBT com 50,2% e a
Bandeirantes com 16% (Bresser, 1996, p.25-28).
Como podemos ver, os telejornais têm um espaço significa-
tivo na vida das pessoas. Os noticiários televisivos ocupam um
papel relevante na imagem que elas constróem da realidade. Acre-
ditamos que buscar entender como eles são construídos, contribui
para o aperfeiçoamento democrático da sociedade.
Este livro teve como objetivo estudar os caminhos do processo
de definição do que é notícia. Para tanto, investigou-se: Como as
rotinas de produção influenciam os editores de texto (jornalis-
tas) no momento de decidir se uma notícia deve ou não entrar
em um telejornal e, conseqüentemente, definir o que as pessoas
vão assistir? O objeto de nossa pesquisa é a redação do telejor-
nal RJTV1, jornal local da Rede Globo de Televisão, no Rio de
Janeiro.
A escolha de um telejornal local está relacionado com uma
dimensão mais ampla que é a (re)valorização do regional num
mundo globalizado. Em sua estada no Brasil, o megaempresário
Decidindo o que é notícia 7
da comunicação Rupert Murdoch, ao ser perguntado por um re-
pórter sobre qual a recomendação que daria para um jornal ter
sucesso, foi taxativo na resposta: o que segura o jornal são as no-
tícias locais. É isso que toca a vida das pessoas (Rodrigues, 1995,
p.5).
Uma revitalização do local é o que aponta Nestor Canclini em
Consumidores e Cidadãos (Canclini, 1995, p.146):
Simultaneamente à desterritorialização das artes,
há fortes movimentos de reterritorialização, represen-
tados por movimentos sociais que afirmam o local e
também por processos de comunicação de massa: rá-
dios e televisões regionais, criação de micromercados
de música e bens folclóricos, a \u2018desmassificação\u2019 e a
mestiçagem dos consumos engendrando diferenças e
formas locais de enraizamento.
Mattelart também defende uma reterritorialização que se dá
na interação do internacional, local, regional e nacional. Essas es-
calas de realidade devem existir numa correlação de forças que
privilegie as negociações e as mediações. Ele lembra que essa re-
lação não tem sido a norma na história das teorias sobre comuni-
cação internacional (Mattelart, 1994, p.289).
Outro motivo da escolha do jornal local da Rede Globo do Rio
é que toda a produção da emissora é a configuração básica para
as demais associadas e filiadas em todo o país. A implantação das
redes regionais de televisão faz parte de uma estrutura mercadoló-
gica da Globo de ampliação de mercado (Ortiz, 1995). Os contra-
tos de relação entre a Rede Globo e as emissoras locais prevêem
desde a cobertura geográfica até a programação a ser produzida
(Cruz, 1996, p.171-172).
É dentro desse contexto que se dá o trabalho dos editores.
Como lembra bem Robert Darnton, em o Beijo de Lamourette
(1995, p.9697):
Sociólogos, cientistas políticos e especialistas em
comunicação têm produzido uma vasta literatura so-
8 Alfredo Vizeu
bre os efeitos dos interesses econômicos e tendências
políticas no jornalismo. No entanto, parece-me que
eles não têm conseguido entender a maneira como
trabalham os repórteres. O contexto do trabalho mo-
dela o conteúdo da notícia, e as matérias também ad-
quirem forma sob influência de técnicas herdadas de
contar histórias (o grifo é nosso.
A afirmação de Darnton também vale para editores de texto.
Entendemos que as rotinas produtivas contribuem para os jorna-
listas irem moldando no espelho do jornal e nas ilhas de edição
os contornos do que é notícia. Apesar da função estratégica que a
edição ocupa no telejornal e da importância do tema, a pesquisa
sobre o assunto, sem desconhecer a contribuição de alguns auto-
res, ainda é pequena diante da importância que a questão está a
exigir.
É na edição do telejornal que o mundo é recontextualizado.
Mais adiante, ao tratarmos do newsmaking (a produção