VIZEU, Alfredo - Decidindo o que é notícia - Os bastidores do telejornalismo
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VIZEU, Alfredo - Decidindo o que é notícia - Os bastidores do telejornalismo


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receitas. As
dimensões da audiência televisiva a convertem na in-
dústria rainha, além de estabelecer a notoriedade de
outras atividades culturais (comentários de livros, vi-
deoclipes) e de muitos produtos comerciais (Zallo,
1993, p.79).
O autor lembra que o próprio rádio foi obrigado a adaptar seus
programas e horários, buscando dessa maneira compensar a dife-
rença em temas nos quais a TV não pode exercer uma atração
sobre as audiências. Ele defende que a escassez de canais \u2013 po-
pulares e nacionais \u2013 está sendo substituída por uma opulência da
televisão que muitos autores, com razão, qualificam de redundân-
cia comunicativa.
No seu livro Economía de la Comunicación y la Cultura,
Zallo (1988) afirma que a indústria televisiva apresenta todos os
traços de uma fábrica taylorista: a planificação empresarial da
produção, o pagamento global de salários tanto do trabalho téc-
nico como do criativo, a coletivização do trabalho baseada em
especializações funcionais e de tarefas, entre outros.
Ele explica que há dois modelos básicos e contrapostos de or-
ganização do trabalho televisivo. O primeiro é a constituição de
equipes com a integração dos trabalhos criativos (roteiro, direção
e realização), técnico-criativos (câmeras e decoradores) e técni-
cos. Sob a responsabilidade da equipe recairiam todas as fases de
produção televisiva (Zallo, 1988, p.141-143).
Esse modelo apresenta uma estreita relação entre as distintas
fases: a produção de protótipos frente à serialização, a insistência
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na produção própria frente à produção de fora, o predomínio da
produção criativa sobre a gestão a partir de critérios econômicos.
No segundo modelo, temos a predominância dos critérios de
planificação e gestão sobre os de criação. Ele supõe uma fragmen-
tação das distintas fases de produção de programas, estabelece um
controle do aparelho sobre cada uma das fases, seja mediante cri-
térios políticos, de custos ou de audiência esperados, os critérios
de audiência se sobrepõem aos demais, sem qualquer outra consi-
deração.
Há uma transformação da função de realização num status téc-
nico, separando a obra da criação. A fábrica se superpõe ao pro-
duto, o ente à criatividade, a produção contínua à unidade. Zallo
(1988) diz que este segundo modelo triunfa sobre o primeiro. Ele
observa que as emissoras usam o critério da audiência para aceitar
ou rechaçar programas e para determinar as receitas publicitárias.
Com relação à mercadoria televisiva como programação di-
fundida, o autor destaca algumas de suas características. Em pri-
meiro lugar, o produto televisivo é uma unidade de produção e
distribuição (exibição), o que explica porque um mesmo produto
pode ser captado por múltiplos receptores.
Um segundo aspecto é que a descontinuidade de produção é
reparada pela exibição em continuidade, tanto cotidiana como en-
tre espaços separados entre si no tempo (informativos, séries). Se
combina, assim, um processo produtivo standard por gêneros, te-
máticas ou conteúdo específicos e uma diversidade, uma diferen-
ciação de conteúdos programados.
Previamente se dá uma homogeneização internacional dos meios
de produção, o que favorece ao surgimento de tendência a uma
igualdade das condições de valorização e produção em escala in-
ternacional.
O produto televisivo é uma mercadoria complexa em três va-
riantes: por seu conteúdo (diversidade de conteúdos genéricos, de
conteúdos temáticos ou pelos sistemas de emissão), pelas indús-
trias que o compõem (cinema, edição, informação, música) e pe-
las relações entre programação e publicidade.
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Essa última se comporta, desde o ponto de vista industrial,
como parte da exibição e da programação, como modo de valori-
zação da programação e como dispositivo de criação de demanda
e de aceleração geral do ciclo de produção no capitalismo tardio.
Uma quarta característica a ser considerada é que a progra-
mação televisiva, como a programação do rádio, perece imedia-
tamente. A diferença é que a radiodifusão amplia a margem de
existência da produção televisiva tanto em nível nacional como
internacional. Ainda que residual e decrescente, subsiste um va-
lor apto a sucessivas reestréias para novas faixas de audiência.
No aspecto mercantil, a televisão é fundamentalmente um meio
de entretenimento e informação e só secundariamente um meio
cultural e educativo, inclusive na Europa.
A difusão televisiva, com exceção dos sistemas de cabo e saté-
lite, não é internacional. É a existência de um importante mercado
internacional que converte os programas em produtos internacio-
nais pelo volume de contratação, pelo seu peso nas programações
e pela sua incidência no modo de fazer televisão.
Todos os operadores de televisão procuram complementar suas
receitas publicitárias com vendas ao exterior, o que exige acomodar-
se, adaptar-se aos padrões técnicos e culturais internacionais.
A televisão, na qualidade de um megameio, tem um baixo
custo por destinatário alcançado, o que a faz extremamente com-
petitiva no campo publicitário. Contudo, para colocar uma emis-
sora de televisão em funcionamento são precisos grandes inves-
timentos. Além disso, seu custo de manutenção também é alto.
Hoje só quem tem essa capacidade são os grandes capitais ou o
Estado.
Por fim, o gigantismo televisivo não favorece a aleatoriedade
da realidade mercantil, porém a concorrência entre operadores e
a multiplicação de canais reintroduzem a incerteza.
O processo de valorização no campo da televisão comercial
apresenta uma série de características que favorecem os movi-
mentos atuais de capitais em direção à televisão. Isso tem deter-
minado uma série de mudanças no próprio sistema: descentrali-
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zação, internacionalização, multiplicação de canais, privatização
da exploração de redes, rentabilização de cada emissão e atuação
multimídia.
Algumas dessas características são apontadas por Zallo (1988,
p.145-147). As televisões de todos os países apresentam uma es-
trutura monopolística ou oligopolística. Apesar do surgimento de
novas televisões privadas ou a introdução de critérios comerciais
nas televisões públicas (Europa), é mais provável que do mono-
pólio se passe à situação de oligopólio \u2013 visto o precedente dos
Estados Unidos \u2013, o que tem sua importância desde o ponto de
vista do valor.
Pela via do mercado de materiais, redes, programas, publici-
dade estão se criando condições médias de produção em escala
internacional que limitam o poder dos oligopólios nacionais em
benefício dos oligopólios internacionais de programas. O mer-
cado de equipamentos e de construção de redes já é dominado
pelos gigantes internacionais da eletrônica e da comunicação.
O mercado internacional de programas é tão competitivo em
qualidade e preços que resulta mais exeqüível recorrer a ele do
que produzir nacionalmente. Zallo (1988) alerta também que o
mercado publicitário tende também a configurar-se no âmbito in-
ternacional.
O autor afirma que a televisão tem a dupla peculiaridade de
ser uma indústria em si mesma (produtora e exibidora ao mesmo
tempo) e ser um meio subcontratante de outras indústrias. Para
ele, a televisão se diferencia das outras indústrias por uma tripla
vantagem na hora de valorização dos capitais: a possibilidade de
planificar o processo produtivo, a possibilidade de planificar os
programas e \u2013 contando com um canal exibidor \u2013 a planificação
da programação a ser emitida para um maior número de pessoas.
A planificação possibilita a redução dos custos unitários, au-
menta a produtividade e mantém mercados cativos. Uma progra-
mação com problemas do ponto de vista econômico é suscetível
de rápidas correções, uma vez que há modelos de programação de
rentabilidade assegurada.
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O operador televisivo, em função do seu trabalho de progra-
mador/planificador,