BacteriologiaFiocruz
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empírica, como terapia definitiva e como terapia preventiva ou profilática.
Na terapia empírica ou inicial, o antibiótico deverá cobrir todos os microrga-
nismos prováveis (Gram-positivos e Gram-negativos), visto que o patógeno, ou
patógenos, que estão causando a infecção, não foram identificados. Esse tipo de
terapia poderá ser realizada com mais de um antimicrobiano (terapia combinada) ou
com apenas um (monoterapia), e é usada frequentemente com agentes de amplo
espectro. No entanto, com o microrganismo já identificado, a terapia antimicrobiana
definitiva deverá ser iniciada com um esquema de espectro estreito e baixa toxicidade,
baseado no resultado do antibiograma.
Quando o uso de um antimicrobiano está indicado na terapia profilática,
como no caso de cirurgias ou extrações dentárias, devemos não só escolher aquele
agente que seja ativo contra o microrganismo ou microrganismos, infectantes mais
prováveis, mas o que possua o menor potencial de causar toxidade ou reações
alérgicas no paciente que será exposto ao risco de infecção.
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10.2. Antimicrobianos usados na terapia das infecções
10.2.1. Sulfas e sulfonas
A combinação do trimetoprim com o sulfametoxazol (antimicrobiano
pertencente a classe das sulfas), torna-o clinicamente eficaz, pois, quando dois
fármacos atuam sobre diferentes etapas da reação enzimática obrigatória nas
bactérias, o resultado de sua combinação é sinérgico. Na maioria dos países, a
combinação é conhecida como cotrimoxazol, mas o trimetoprim está disponível
no mercado isoladamente (Figuras 12 e 13).
 A associação dos fármacos permite uma melhor ação no microrganismo
do que quando administrados separados. A este fato chamamos de otimização
da ação do antimicrobiano.
A ação destes antimicrobianos ocorre por inibição de duas etapas da via
enzimática, para síntese do ácido tetraidrofólico: A inibição da incorporação
do ácido p-aminobenzoico (PABA) no ácido fólico, pela sulfonamida, en-
quanto o trimetoprim impede a redução do diidrofolato em tetraidrofolato
(folato – essencial para reações de transferência de carbono).
A toxidade seletiva destes antimicrobianos se dá através de:
• Células de mamíferos que utilizam folatos pré-formados da dieta e não
sintetizam o composto.
• Trimetoprim, que é um inibidor seletivo da diidrofolato redutase en-
contrada somente em organismos inferiores, logo, para este fármaco
inibir a enzima redutase humana, é necessária uma quantidade 100 mil
vezes maior da que é usada em bactérias.
Outras sulfas também são comercializadas, como, por exemplo:
sulfadiazina, sulfacetina, sulfamoxol, sulfametoxipiridazina, sulfaleno, sulfatalidina,
nitrosulfatiazol, etc.
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Na classe da sulfonas, temos como representante principal a dapsona
(Figura 14). Esta família de fármacos possui o mesmo modo de ação das sulfas
(inibição da incorporação do ácido p-aminobenzóico (PABA) no ácido fólico).
As sulfas são ativas contra algumas espécies da família Enterobacteriaceae,
Chlamydia, Pneumocystis e Nocardia. Enquanto a dapsona age com ação
bacteriostática em Mycobacterium leprae.
10.2.2. Quinolonas
O ácido nalidíxico (Figura 15) é o membro mais antigo dessa classe de
antimicrobianos sintéticos, sendo muito usado no tratamento de infecções do
trato urinário. Este fármaco não possui grande importância, devido à sua limita-
ção terapêutica e o desenvolvimento de resistência bacteriana. Por esse moti-
vo, foi necessário adicionar, na molécula deste antimicrobiano, a 4-quinilona
fluorada, dando origem a fluoquinolona. Representada pela ciprofloxacina,
ofloxacina, norfloxacina, gatifloxacina, levofloxacina, moxifloxacina e
lomefloxacina. Este fato representou um grande avanço terapêutico, visto que
as fluoquinolonas possuem uma ampla atividade antimicrobiana e grande eficá-
Figura 12. Sulfametoxazol (sulfa)
Figura 14. Dapsona (Sulfona)
Figura 13. Trimetoprim
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cia após administração via oral no tratamento de diferentes infecções, causadas
por microrganismos Gram-negativos (Figura 16).
A ação destes antimicrobianos se dá na DNA-girase (enzima responsá-
vel pela forma espiral do DNA) e na topoisomerase IV (enzima que separa
moléculas-filhas de DNA interligadas (encadeadas), que são o produto da
replicação do DNA) bacteriana.
As quinilonas possuem uma excelente toxidade seletiva, pois só inibem
a topoisomerase II das células eucarióticas em concentrações bastante elevadas
(100 a 1.000 mg/mL).
10.2.3. Antissépticos
Em uma infecção do trato urinário, inibem o crescimento de muitas
espécies bacterianas, porém não podem ser utilizados no tratamento de infec-
ções sistêmicas, pois não se obtém concentração eficaz no plasma com a
administração de doses seguras. Por se concentrarem nos túbulos renais, esses
fármacos podem ser utilizados por via oral no tratamento de infecções urinárias.
A nitrofurantoína (Figura 17), representante desta classe, é um nitrofurano
sintético utilizado na prevenção e no tratamento de infecções urinárias. Inibe
tanto bactérias Gram-positivas, quanto Gram-negativas, devendo ser utilizado
em microrganismos comprovadamente sensíveis a este fármaco.
Figura 15. Ácido nalidixico (Quinolona) Figura 16. Norfloxacina
(Fluoroquinolona)
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O mecanismo de ação da nitrofurantoína se inicia quando as bactérias
reduzem (metabolizam) o antimicrobiano, produzindo um produto que inibe
várias enzimas, principalmente a acetil coenzima A (ciclo de Krebs), lesando o
DNA bacteriano. Esta atividade é maior quando a urina está com pH (poten-
cial de hidrogênio) ácido.
A nitrofurantoína pode ter ação bacteriostática ou bactericida de-
pendendo da concentração utilizada (bactericida ³ 100mg/mL;
bacteriostática £ 32mg/mL).
As células de mamíferos não reduzem tão rapidamente a nitrofurantoína
quanto às células bacterianas, logo, acredita-se que esta seja a atividade
antimicrobiana seletiva deste fármaco.
Figura 17. Nitrofurantoína
10.2.4. Betalactâmicos
São antimicrobianos que possuem em sua molécula um anel b-lactâmico
(Figura 18A), importantíssimo para sua atividade bactericida (ação que
leva o microrganismo à morte).
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• Penicilinas
Fazem parte de um dos grupos mais importantes entre os antimicrobianos
(Figura 18B), possuem grande eficácia e estão entre os fármacos menos tóxi-
cos, sendo amplamente usado em diferentes doenças infecciosas.
• Cefalosporinas
São antimicrobianos b-lactâmicos correlacionados diretamente com
as penicilinas, tanto do ponto de vista estrutural como funcional, e possu-
em análogos estruturais, conhecidos por cefamicinas (cefoxitina). A produ-
ção das cefalosporinas é semissintética (adição química de cadeias laterais -
Figura 18C).
As cefalosporinas são classificadas em: primeira, segunda, terceira,
quarta e quinta geração. Essa classificação foi criada levando-se em consi-
deração os padrões de sensibilidade bacteriana e a resistência à b-lactamases
(enzimas que conferem resistência às cefalosporinas de amplo espectro,
penicilinas, monobactans e aztreonam). Estas enzimas foram denominadas
ESBL – b-Lactamases de Espectro Ampliado – devido ao fato da maioria
dessas enzimas serem codificadas por genes localizados em plasmídios, que
geralmente carregam genes de resistências a outros antimicrobianos.
Os mecanismos de ação das penicilinas e cefalosporinas são:
• Inibição da transpeptidase (impedem que a última molécula de glicina
se ligue ao quarto resíduo do pentapeptídeo, assim prejudicando a
formação de peptidoglicana que compõe a parede celular).
• Evitam a formação do glicopeptídeo da parede celular, através de sua
fixação nas proteínas de ligação da penicilina (PBP). Logo, não há
elongação posterior da cadeia glicopeptídica.