livro_midia e psicologia
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livro_midia e psicologia


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E por onde é que nós circulamos? 
Obviamente, circulamos pelo velho e conhecido espaço físico, que tem 
todas as limitações que conhecemos: fronteiras, obstáculos geográficos, 
distâncias. Quando viajamos, temos de pegar avião, ônibus, carro, etc. A 
movimentação física é um tema complexo nos dias de hoje, dado que 
a mobilidade das populações mundiais não para de crescer, gerando 
diversos tipos de problema. 
Além disso, também viajamos pelo espaço inédito inaugurado pelas 
novas mídias de telecomunicação digital. Esse é o espaço virtual, que só 
passou a ser conhecido por nós, leigos, a partir da difusão da internete, 
iniciada em 1995. É interessante que alguns artistas estejam tentando 
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dar visibilidade a esse espaço virtual \u2013 infelizmente, não posso falar 
sobre isso, mas adoraria. 
E o terceiro espaço pelo qual circulamos é um espaço de cuja 
existência nem nos damos conta. É um espaço híbrido. É um misto de 
espaço físico e virtual. Circular pela cidade falando ao celular é usar o 
espaço híbrido. 
Quais são os tipos de mobilidade que temos?
Em primeiro lugar, temos a mobilidade física (e aqui estamos falando 
de longas distâncias), que os sofisticados meios de transporte tornam 
possível. No Brasil, no momento, estamos enfrentando um problema 
seriíssimo, gerado justamente por essa mobilidade física de tudo e de 
todos: a crise aérea. Os preços caíram muito, as pessoas podem viajar, há 
maior poder aquisitivo. A maior prosperidade, aliada à sofisticação e à 
rapidez dos meios de transporte, acaba gerando esse efeito perverso.
Outro tipo de mobilidade de que dispomos é a mobilidade virtual. 
Essa ultrapassa, demasiadamente, a nossa mobilidade física, dado que, 
no mundo virtual, não enfrentamos obstáculos ou temos de superar 
barreiras, contanto que a nossa conexão (via internete ou celular) esteja 
funcionando. Se ela está funcionando, a mobilidade é infinita. 
A esse respeito, quero apresentar duas declarações que me foram feitas 
por alunas, com as quais fiquei muito impressionada. Um dia, eu estava 
dando aula na graduação e uma de minhas alunas, que tinha tido um 
grave problema de saúde, fez a seguinte e surpreendente afirmação: \u201cO 
computador me deu mobilidade\u201d. Nessa mesma turma, havia outra jovem 
que me fez outra afirmação igualmente inusitada: \u201cA única coisa que eu 
tenho de fixa na minha vida é o meu celular\u201d. É quase possível montar 
um curso sobre essas duas frases. E isso porque o computador que deu 
mobilidade à primeira aluna era um computador de mesa, fixo. Já o celular, 
que era a única coisa fixa na vida da segunda, todos sabemos, é móvel!
Vou tentar explicar melhor. Vocês sabem o que é um satélite de 
telecomunicação geoestacionário? Desculpem, mas vou desiludir vocês. 
Quando descobri, fiquei muito desiludida. Um dia, eu estava em Itaipava, 
olhando o céu lindo, cheio de estrelas, com uma amiga que é da área de 
telecomunicações. De repente, ela disse: \u201cOlha lá um satélite\u201d. Eu pensava 
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que fosse uma estrela cadente, mas não, era um satélite. Aí ela disse: 
\u201cMas esse aí nós vemos porque não é geoestacionário. Há muitos outros 
que são geoestacionários\u201d. Então, perguntei a ela o que eram satélites 
geoestacionários, e ela me explicou que são satélites cujas órbitas 
acompanham a órbita da Terra. Então, do ponto de vista da Terra, eles 
estão sempre parados. Não percebemos seu movimento, porque eles se 
movimentam enquanto a Terra se movimenta. Agora, se vocês pensarem 
sobre os celulares, perceberão que eles têm um movimento análogo em 
relação a nós. Eles deveriam ser chamados de homoestacionários, porque 
estão sempre conosco. 
Quantos de vocês têm celulares aqui? Ou melhor, vou fazer a pergunta 
de outra forma. Quem não está com o celular aqui? Três pessoas. Quem 
está com o celular aqui, obviamente, está com ele na bolsa, ou no bolso, 
ou na mão, ou na mochila, mas certamente está com o celular por 
perto, e ele permanece por perto durante as 24 horas do dia. Nós não o 
deixamos muito longe. Não são outras pessoas que atendem o celular, 
somos sempre nós, pois o celular é um objeto pessoal. 
Por isso achei muito interessante a afirmação da minha aluna de que 
o celular era a única coisa fixa que tinha. Ela tinha razão: o celular se 
tornou um objeto fixo. Ele é uma referência fixa e, para muitos jovens, 
tornou­se uma referência fixa da própria identidade, porque o número 
é uma identidade. É complicado, então, quando se muda de operadora, 
porque é preciso avisar a todos os amigos que sua identidade mudou, 
já que o número mudou. Essa é uma das razões pelas quais as pessoas 
procuram não mudar de operadora. Mudam somente quando podem 
transferir seus dados, o que ainda é recente no Brasil.
A essa altura, vocês devem estar se perguntando onde eu quero 
chegar com tudo isso. Eu quero simplesmente dizer a vocês que essas 
formas de mobilidade têm impactos dentro de nós. Elas acabam gerando 
outra forma de mobilidade, uma forma que poderia ser chamada de 
\u201cmobilidade de ser\u201d. 
Para explicar, deixem­me voltar um pouquinho no tempo. Nos 
primeiríssimos tempos das tecnologias digitais interativas \u2013 e aqui 
estou falando mais especificamente da internete \u2013, criou­se o hábito 
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de entrar na internete com vários nicks e a cada nick correspondia 
uma persona, um personagem. Então, muitas pessoas criavam vários 
personagens. Poderiam, por exemplo, ter cinco personagens associados 
a cinco nicks diferentes. E cada nick, cada personagem desses, tinha 
características completamente diferentes: gêneros diferentes, profissões 
diferentes e assim por diante. Essas pessoas podiam entrar num canal 
de IRC e abrir cinco janelas, que correspondiam a cinco identidades 
diferentes, e passar de uma para outra conforme lhes aprouvesse. Isso 
era o que se fazia no início. Naquela época, se dizia também que nós 
vivemos num eterno presente, o que dava margem a especulações 
patologizantes, pois alguns afirmavam que \u201ca organização subjetiva 
atual é esquizofrênica, visto que vivemos sempre no presente\u201d. Do meu 
ponto de vista, isso é uma bobagem enorme, é patologizar o que é novo 
e não necessariamente patológico. 
A mensagem que estou querendo passar nesta apresentação é a de 
que a mobilidade à qual venho me referindo (em suas diversas formas) é 
incorporada ao nosso próprio modo de existir, no qual as poucas coisas 
estáveis são o movimento e a mudança. Hoje em dia, temos pouquíssimas 
coisas estáveis, mas, certamente, o movimento e a mudança são estáveis. 
Paradoxal, não? Como também é paradoxal ter como único objeto fixo 
da vida um celular que é móvel.
Um bom exemplo dessa mobilidade, ou melhor, voltando ao título que 
dei à minha palestra, fluidez, são os mutantes nicks do MSN. Eu já falei 
um pouquinho a respeito da importância dos nicks nos primórdios da 
internete, porque eram aquilo que dava estabilidade a um personagem, 
a uma identidade. Você entrava num canal de chat, num canal de IRC, 
e as pessoas o reconheciam pelo nick. Você não tinha uma aparência 
física, nem nada no gênero. Você era um nick; então o nick era um dado 
estável. Recentemente, no MSN, isso mudou. Eu me surpreendi quando, 
há pouco tempo, vi as transcrições (nós estávamos fazendo uma pesquisa 
e as alunas fizeram entrevistas on-line) de umas entrevistas. De repente, 
me dei conta de que o nick hoje pode ser uma frase inteira. Vocês sabem 
que no MSN, quando a pessoa dá um enter, aparece o nick antes da fala 
da pessoa. Então era aquele nick quilométrico, e, de repente, a fala se 
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reduzia a uma carinha sorridente. Pensei: o que está acontecendo? Aí fui 
tentar entender. E vocês sabem o que está acontecendo, provavelmente. 
Naquela caixinha em que vocês podem colocar o nick, as pessoas 
começaram a colocar frases. Existe, inclusive, uma comunidade no orkut 
sobre os nicks do MSN. Acho que se chama Os melhores e os piores