livro_midia e psicologia
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DisciplinaPsicologia da Comunicação478 materiais2.136 seguidores
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ações, ou seja, 
sujeitos no sentido filosófico. Mas eles continuam no seio da família lingüística, 
bem próximos da raiz, passando de sob para sobre.
Cultura vem do verbo colere: habitar, cultivar. Coerente com o 
pensamento que venho desenvolvendo, reconheço que esse sujeito, 
mesmo que submisso, cultiva um relacionamento com a realidade 
que o forma e transforma, e que a comunicação é parte essencial 
nesse processo.
A questão não é o evento cultural; esse ponto específico no 
espaço ­tempo, em geral subalterno, conjuntural, descartável; menos 
ainda a manifestação ou o produto artísticos. Aliás, já quase não 
se fala em obras, retirando­se a grandeza estética e travestindo de 
mercadoria o resultado do fazer artístico ou intelectual. Reduz­se 
a Arte ao essencialmente perecível, ao consumível, como conceito, 
supondo ou querendo fazer supor que esses fragmentos do nada 
não se entranham em nossos mosaicos corpos/mentes e destroem 
nossas identidades. Finge­se que não atuam para manter o sujeito 
assujeitado, abduzindo­o de seu rumo à condição de indivíduo que 
conhece e é capaz de agir.
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Jorge de Sena foi um grande poeta português, professor, que fugiu, 
exilou­se de duas ditaduras, a salazarista, quando veio para o Brasil, no 
final de 1959, e depois da ditadura brasileira, quando, em 1969, foi para 
os Estados Unidos. E lá hoje existe um dos mais importantes centros de 
estudos de idiomas e literatura do mundo, que tem especial dedicação à 
literatura e à 1íngua portuguesa, o Instituto Jorge de Sena, que foi por 
ele fundado na Universidade de Santa Bárbara. Poeta libertário, ele tem 
um poema provavelmente escrito ainda no Brasil, porque, no começo, 
fala em ma possível ida aos Estados Unidos. O poema se chama Em 
Creta com o Minotauro, e diz assim:
Nascido em Portugal, de pais portugueses, 
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte­americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem, 
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações 
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo 
quando não acredito em outro, e só outro quereria que 
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
 espero envelhecer
tomando café em Creta com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha
II
O Minotauro compreender­me­á
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
 Filho de Parsifae, foi irmão de um verso de Racine,
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que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da \u201clangue\u201d.
Irmão também de Ariadne, embrulharam­no num novelo de 
que se lixou.
Teseu, o herói e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta, 
riu­lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender­me­á tomará café comigo, 
enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.
III
É aí que eu quero reencontrar­me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras 
informações. 
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.
IV
Com pátrias nos compram e nos vendem à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver
vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
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 aromático e bemforte, não da Arábia ou do Brasil,
 da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
 contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer­lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
 de quem herdou, se do pai, se da mãe, 
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e. quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos. imensamente 
patrióticos.
V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida, 
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei ­ de tomar em paz o meu café.
E foi exatamente a cultura grega, cujos heróis o poeta tão bem 
descreveu, que nominou os bárbaros e, em conseqüência, a barbárie. A 
expressão bárbaro (selvagem, rude), aplicava­se ao OUTRO, ao que não 
falava grego, ao que não tinha seus hábitos e costumes. Culturas mais 
antigas, refinadas e complexas, como as do Egito, da Mesopotâmia, 
da Creta minóica, que se espalhavam pelas costas do Mediterrâneo e 
pelo crescente fértil fossem camíticas, semíticas ou indo­européias, 
eram denominadas bárbaras aqueles bandos tardios de corsários indo­
europeus que tudo arrasaram e destruíram, até que, depois de séculos 
de saques e ocupação, construíram um extenso império, unificados pelo 
conquistador macedônio, Alexandre, essencialmente um bárbaro, mas 
que tivera como preceptor Aristóteles, referência principal \u201cde toda essa 
merda douta que nos cobre há séculos\u201d, no dizer de Jorge de Sena.
A parceria entre do pai de Alexandre, Filipe II, com Aristóteles 
resultou na \u201cglobalização\u201d e \u201cinclusão\u201d das elites macedônias no 
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\u201cPrimeiro Mundo\u201d de então. A conseqüência imediata foi a extensão 
desses \u201cbenefícios\u201d a uma ampla região, com a submissão de numerosas 
culturas, imemoriais, e a implantação do modelo helênico, ao preço da 
destruição dos registros de sua história e da ereção de monumentos e 
padrões de comportamento alheios.
O bárbaro Alexandre foi o instrumento da expansão da cultura grega em 
direção à África e à Ásia. Os romanos, em parte descendentes de exilados 
troianos, capitaneados por Enéas, ampliaram sua influência a quase toda 
a Europa e ao norte da África, já transformada em greco­romana. De lá, 
celtas, visigodos, mouros, semitas, bascos e germânicos, entre outros, a 
trouxeram para as Américas, ainda mais rarefeita e empobrecida.
Os antigos bárbaros, já tornados \u201ccivilizadores\u201d, criaram novos bárbaros 
ao se defrontarem com os outros. Essa história todos nós conhecemos. É 
a nossa. Só que costumamos olhá­la e propagá­la do ponto de vista do 
\u201ccivilizador\u201d, o bárbaro europeu incluído na cultura greco­romana, que 
se torna cada vez mais anglo­saxã, disfarçada de \u201cglobal\u201d, \u201cmundial\u201d, 
\u201catual\u201d, \u201ccontemporânea\u201d.
Só que, agora, os bárbaros somos nós, sobretudo os descendentes 
dos \u201ccivilizadores\u201d europeus, dos habitantes originais do Continente e 
dos escravos arrancados da África. Somos nós que estamos recebendo 
espelhinhos eletrônicos trazidos pelos novos \u201ccivilizadores\u201d e tentando 
neles ver o nosso próprio reflexo. Mas, como nosso eu lá não está, 
tratamos de convencer­nos de que é a nossa imagem que vemos \u2013 com 
a ajuda prestimosa dos mais doutos e dos que têm o controle dos meios 
de comunicação, sejam ou não seus donos.
Quem realiza e programa as obras artísticas e comunicacionais que 
circulam majoritariamente em nossos países cresceu e se formou em uma 
cultura etnocêntrica. E as políticas culturais e educacionais desenvolvidas 
pelo atual governo, que teria vindo para mudar, continuam a mirar­se, 
declaradamente, no espelho europeu e na visão de uma Europa, ou de 
um Brasil, centralizado, hegemônico, homogêneo, de Primeiro Mundo.
As alternativas das esquerdas, governistas ou não, sofrem, em geral, 
do mesmo mal: são ALTERNATIVAS DE PODER e assumem como positivo 
um discurso acrítico em relação à INCLUSÃO, quer dizer,