livro_midia e psicologia
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mantêm a visão 
de que é necessário tomar o poder do Estado e nele incluir os marginais, 
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domesticando­os, adaptando­os a essa cultura que aí está há séculos 
(não vou repetir, mais uma vez, o verso de Jorge de Sena), em lugar de 
criar condições para que cada sujeitado possa se tornar sujeito filosófico 
por meio do desenvolvimento autônomo do seu relacionamento com o 
real. Simplificando: que cada um possa desenvolver sua própria cultura. 
Ratificam o conceito de coletividade como meio salvador, salvacionista.
Faço uma ressalva: há segmentos libertários, principalmente 
anarquistas, que têm buscado construir comunidades solidárias e criar 
e difundir obras que contribuam para alterar radicalmente o quadro 
em que vivemos, formado por sociedades e Estados cada vez mais 
controladores e policiais, que aceitam e utilizam, em seu benefício, nossa 
marcha irreversível para distintas transculturalidades.
As influências de culturas diversas são essenciais aos avanços de um povo, 
de uma comunidade. Mas influências não devem ser confundidas com a 
substituição de identidades. A história humana, e não apenas ela, tem mostrado 
isso ricamente. Somos capazes de digerir e recriar o que incorporamos num 
processo transcultural livre e insubmisso, mas, para isso, é fundamental que a 
diversidade tenha espaço e tempo para manifestar­se livremente.
Na estratégia dominante, os meios de comunicação são essenciais 
para garantir a hegemonia eurocêntrica (na versão anglo­saxã dos 
EUA), embora aparentem manifestar e expressar o multiculturalismo das 
populações incluídas. O enraizamento da dominação econômica não é 
possível sem a abdução de identidades e a dominação cultural, verdade 
conhecida e empregada há milênios. Nunca, no entanto, meios técnicos e 
tecnológicos, frutos do desenvolvimento científico, foram tão propícios a 
essa estratégia com tal economia de recursos e garantia de controle sobre 
sua aplicação. Busca­se, em todos os campos, substituir a troca presencial 
de saberes e emoções \u2013 transmissora e produtora de cultura e educação 
autônomas \u2013 por simulacros limitados pelas próprias características dos 
veículos e a linguagem dos meios. A relação interpessoal e local, essencial 
ao ato cultural autônomo, vê­se restrita a pequenos grupos, sem espaço 
nos eventos de mercado, medida do estético e da sabedoria para esse 
\u201cadmirável mundo novo\u201d, em que vale tudo e nem tudo vale.¹
1. Cf. Feyerabend. Contra o método: esboço de uma teoria anárquica da teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977, p. 9 (\u201cO único principio que não inibe 
o progresso é: tudo vale.\u201d) e páginas 27, 34, 44, 290, 302 e 335.
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Mídia e produções de subjetividades: 
questões da cultura
Fernanda Bruno
Não sou uma especialista em mídia. Minha formação é híbrida, mas 
passa, de fato, pela interseção entre a mídia e a Psicologia. Então, para 
mim, é sempre agradável e prazeroso ver esses dois campos interagirem.
 Já se falou aqui de cultura e Ocidente, de cultura e loucura. Focarei 
minha fala mais na cultura e na mídia para, então, refletirmos sobre 
a subjetividade contemporânea Também centralizarei a cultura 
contemporânea e os formatos midiáticos mais atuais, tanto o que se 
denomina cultura de massa, cuja rainha está na televisão, quanto o 
âmbito das práticas que se dão no campo da internet, como weblogs, 
fotologs, webcams, entre outros.
Decidi centralizar essa exposição mais na questão dos reality 
Shows devido ao seu caráter absolutamente sintomático em relação 
à cultura contemporânea e ao estado de coisas que dizem respeito 
tanto à mídia quanto à subjetividade, e também para mostrar que, 
de alguma maneira, o formato reality show aparece, e seu sentido 
no cenário midiático deriva muito de certo diálogo, de certa tensão 
com as novas mídias que estão surgindo e com as novas práticas que 
surgirão no campo da internet.
Quero, ainda, fazer outra observação de contexto: trabalharemos 
aqui com objetos infames, nada nobres, com práticas que vemos tanto 
no âmbito da internet quanto do reality show, que apresentam vidas, 
relatos, imagens e narrativas que são, por vezes, constrangedoras 
para a nossa inteligência, para o que supomos seja mais elevado do 
ponto de vista cultural, mas, ao mesmo tempo, acredito que esses 
fenômenos midiáticos contêm uma ambigüidade que vale a pena 
ser explorada. Tentarei manter a ambigüidade desses objetos em 
minha fala.
Essa fala inicial foi apenas para situar o foco de minha exposição; 
quero começar dizendo a vocês que o primeiro ponto a ressaltar tem a 
ver com determinado momento da relação entre mídia e subjetividade 
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como é vivida hoje, que acho ser um momento particular de presença 
de subjetividade na mídia. Esse momento particular encontra um de 
seus indícios mais expressivos na crescente exposição de uma chamada 
intimidade, de uma chamada vida privada ou privacidade no âmbito 
dos meios de comunicação. E, no interior dessas práticas, encontramos 
certa proliferação de narrativas autobiográficas, tanto na mídia de massa 
(televisão) quanto no mercado editorial, no cinema documentário, 
na internet, através de blogs confessionais, de fotologs, que colocam 
imagens e cenas da vida cotidiana e da vida \u201cprivada\u201d. Essa presença de 
testemunhos, confissões, representações de cunho íntimo e pessoal na 
cena midiática, essa \u2018profusão de vidas quaisquer, vidas banais que não 
têm nada de extraordinário, que não teriam nada de muito relevante 
a contar e que expõem seus pequenos dramas pessoais, suas querelas 
conjugais, suas mazelas psíquicas nesse universo, é algo que, no mínimo, 
nos inquieta, porque todo esse registro, principalmente para quem vem 
da Psicologia, que sabe bem que todo esse repertório da intimidade estava 
desde a sua fundação, digamos assim, seu coroamento na modernidade, 
restrito à esfera privada, à do segredo, a esfera da casa, dos consultórios 
clínicos e psicanalíticos e agora migra para esse espaço midiático de uma 
forma particular, porque as pessoas o fazem buscando uma autenticidade, 
um reconhecimento, uma validade, uma dignidade, e supostamente esses 
ambientes seriam privilegiados para garantir isso tudo.
Então, uma primeira característica a ressaltar nesse fenômeno 
surpreendente, pois não foi previsto, foi algo que fez com que 
repentinamente nos deparássemos com diários íntimos na internet, 
com pessoas colocando câmeras em seu quarto, deixando­as 
ligadas 24 h por dia a fim de mostrar todo o seu cotidiano. Em um 
segundo momento, esse fenômeno acabou sendo apropriado por 
uma linguagem televisiva, e surgiram e se proliferaram cada vez 
mais esses novos formatos que têm como destaque o reality show. 
Essas práticas, de alguma maneira, funcionam como uma espécie 
de tecnologias do eu, que expressam não só certos modelos de 
gestão da subjetividade mas também procedimentos (estou citando 
Foucault) prescritos aos indivíduos para fixar sua identidade, mantê­
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la ou transformá­la em função de certo número de fins, e isso graças 
às relações de domínio de si sobre si ou de conhecimento de si 
por si. É claro que, nessa última parte, Foucault pensa na cultura 
grega, a seguir, no desdobramento feito pelo cristianismo no âmbito 
da relação consigo mesmo, e na modernidade, nas práticas que as 
ciências humanas, dentre elas a Psicologia, instauram como técnicas 
de si, técnicas de conhecimento e de transformação de si. É claro que, 
atualmente, essa relação consigo mesmo que estou explorando nesse 
âmbito midiático, especificamente, passa menos por uma relação de 
conhecimento, menos por uma relação de domínio e mais por uma 
relação de exposição, de exteriorização, de tomar­se visível ao outro. 
É um trabalho sobre si mesmo que investe prioritariamente nesse 
movimento de se, fazer visível ao outro, de ganhar visibilidade. 
Na verdade, quero abordar a questão