livro_midia e psicologia
396 pág.

livro_midia e psicologia


DisciplinaPsicologia da Comunicação481 materiais2.141 seguidores
Pré-visualização50 páginas
do reality show porque 
esse é um termo que contém certa ambigüidade, pois é, ao mesmo 
tempo, um show, um espetáculo, mas é um espetáculo que pretende 
fazer ver ou instaurar o real, uma realidade. Então, é um show de 
realidade. Nisso já há uma ambigüidade, uma tensão interessante a 
ser trabalhada, na medida em que a cultura estabelece, com muita 
clareza, contrariando toda uma tradição moderna (para dizer o 
mínimo, para recuar o mínimo) o que é da ordem de uma realidade, 
de uma representação mais fiel, mais documental de uma realidade, 
e o que seria da ordem do espetáculo, da ficção. O reality show faz 
esses dois domínios, esses dois formatos, conviverem, é apenas uma 
linguagem narrativa, um modelo estético, mas também um modo 
de a subjetividade se produzir, ser requisitada no âmbito dessas 
linguagens, dessas narrativas e dessa estética.
Uma primeira característica desse formato ambíguo é a idéia 
de que o signo de realidade, o que estará produzindo o efeito de 
real nos reality shows, é a exposição dessa suposta intimidade, é a 
possibilidade de uma observação total de uma intimidade. Então, 
a intimidade é promovida, anunciada como signo de realidade e 
de autenticidade daquela experiência, daquele universo, e essa 
intimidade, curiosamente, é tão mais autêntica quanto mais puder 
112
ser flagrada, observada, vista, colocada \u201cnua\u201d diante das câmeras. Há 
dispositivos, então, de vigilância, como os usados pelo Big Brother, por 
exemplo, que têm um dispositivo panóptico que supõe uma visão total 
dos seus personagens, das pessoas que estão participando do jogo. A 
idéia ali é de que a situação é real porque, primeiro, as pessoas estão 
efetivamente participando daquela experiência. Há experiência, e, 
ainda que as pessoas estejam encenando, atuando, jogando, são elas 
que ali estão. Obviamente, há uma mistura imensa entre personagem 
e pessoa, com um embaralhamento, mas são as próprias pessoas que 
vivem aquela experiência, e essa experiência visa a desencadear a 
exposição de uma intimidade que pode ser flagrada por qualquer um. 
Então, isso funciona como signo de realidade. 
Passando para a segunda característica que quero ressaltar, o 
problema é que essa intimidade flagrada (como diz o Pedro Bial, vamos 
exercer nosso direito de espiar a intimidade) é uma intimidade encenada, 
e ela parece não ser estranha a um determinado olhar que trabalhava 
com categorias, em que se fazia uma distinção entre o que é da ordem 
da encenação, da ficção, do artifício, da aparência, e o que poderia ser 
da ordem de uma verdade, de uma essência de um ser que não convive 
com esse universo outro do artifício da aparência. Mas, no universo 
do reality show, esses aspectos convivem tranqüilamente. Então, esse 
modelo coloca em jogo não uma matriz representacional, ou seja, a 
realidade ali dada, ali produzida, não uma realidade representada no 
sentido de que não é um o fiel de uma realidade que pré­existe. A idéia de 
representação tem a ver com a suposição de que você tem um real dado 
e ele é reapresentado em outro universo, em outro formato. Então, é uma 
imagem como representação, e existe aí um modelo representacional, 
mas há a suposição de que o referente exista. Ali não há referente. É uma 
realidade que está sendo engendrada, fabricada, produzida e decretada 
pelo próprio dispositivo do jogo. Não há um fato anterior àquela realidade. 
Então, ela não segue um modelo representacional, e as pessoas não 
estão ali expressando o que são fora dali, quem elas verdadeiramente 
são. Elas estão atuando, encenando uma determinada personalidade, 
uma determinada autenticidade, um determinado caráter, que só faz 
113
sentido naquele universo, tanto que percebemos que não há referência 
alguma ao que se passa fora da casa. Não há exterioridade referida no 
discurso dos reality shows, como também percebemos que quase não há 
exterioridade referida nos weblogs, fotogs e outros blogs, mesmo quando 
falam de fatos que ocorreram. Então, não é nem modelo de representação 
e nem modelo da ficção, que trabalha com critérios de identificação 
ligados à verossimilhança; também não é uma ficção, porque pretende 
ser um show de realidade. Então, encena­se ali um modelo, constrói­se 
um tipo de linguagem que trabalha com o embaralhamento entre o real 
e o ficcional e com a idéia de auto­encenação. As pessoas são indivíduos 
que encenam a si próprios, e isso supõe uma mudança muito grande 
no estatuto dessa realidade e também no estatuto do espetáculo; no 
estatuto da realidade porque, como eu disse, essa auto­encenação e 
essa realidade só valem naquele universo. É real não porque aquilo é 
verdadeiro, porque aquilo representa algo fora dali, mas é real porque é 
ali fabricado, e sua validade é.dada naquele espaço.
Pensando nos modelos de identificação ou no lugar de expectador 
que está envolvido, percebemos que existe uma mudança muito 
significativa, pois, se compararmos o reality show com a mídia de 
massa, percebemos o modelo da chamada televisão de variedades, 
que era aquela que apresentava um novo mundo, um universo variado 
de entretenimento e convidava à evasão, à migração para um outro 
mundo. O que acontece no formato do reality show é que o expectador 
é convidado a agir, a intervir, a participar, e, preferencialmente, a migrar 
para o outro lado da tela, tornando­se ele mesmo ator de sua própria 
vida, de seu próprio cotidiano. Os personagens dos reality shows 
encarnam essa reversibilidade entre ser ator e expectador, no sentido 
de que qualquer um, independentemente de suas habilidades, de suas 
capacidades, de seus méritos, de seus talentos, podem estar numa 
posição ou noutra. É claro que existe uma seleção, principalmente 
no caso do Big Brother, que é absolutamente pensada, articulada, 
com personagens escolhidos criteriosamente, mas, ao mesmo tempo, 
existe um discurso, uma retórica que instaura uma espécie de novo 
imaginário igualitário no sentido de que todos podem ser visíveis 
114
e todos podem estar naquele universo. Pensamos também nos ta/k 
shows, programas de auditório e outros, em que inúmeras pessoas, 
independentemente de suas características mais ou menos especiais, 
vão ali relatar dados de seu cotidiano, dados de sua vida íntima. 
Então, a idéia é que a televisão investe cada vez mais no indivíduo 
comum, no homem ordinário, nas vidas quaisquer que não têm 
nada de especial e são convidadas a migrar para a tela. E o reality 
show encarna esse formato. É claro que, como eu já disse, isso não é 
completamente verdadeiro do ponto de vista de sua efetividade, mas 
existe esse discurso.
Deriva daí um deslocamento: a idéia de que há noções (que 
antes estavam nos fundamentos, digamos assim, da subjetividade, 
de uma dada realidade, de uma determinada experiência), como 
verdade, intimidade, real, que irão migrar desse território, daquilo 
que não se revela, daquilo que não se mostra, que estão no fundo 
ou no fundamento das coisas e do que há, e que passam a habitar 
a superfície das imagens e dos efeitos. Então, hoje, o que se percebe 
muito mais nesses domínios é um efeito de realidade, um efeito de 
real, um efeito de verdade, um efeito de intimidade, notando que 
essas categorias que antes estavam atreladas à interioridade, ao 
segredo, àquilo que não se mostrava e não se revelava facilmente, 
migram para a superfície da imagem e passam a ser experimentadas 
e produzidas como efeito. Coloco, de antemão, que não quero 
afirmar uma posição, não quero estabelecer uma hierarquia ou dizer 
que a intimidade, quando recôndita, era mais nobre, interessante, 
digna e verdadeira do que a intimidade como efeito. É claro que, se 
aprofundarmos uma reflexão, inclusive sobre cultura, perceberemos 
que a intimidade é sempre efeito de algo, de uma série de práticas, 
de dimensões, mas experimentada por algo ligado ao segredo. Agora, 
temos uma intimidade