livro_midia e psicologia
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grande canal de resistência ao poder da grande mídia. Isto 
é, a força dos meios de comunicação é tão grande que, para poder 
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diminuir o seu poder, é preciso que apareça outro meio de comunicação 
para fazer frente a eles.
O que para mim é muito claro é que precisamos encontrar uma outra 
forma de superar esse problema da relação com os meios de comunicação. 
Mas como é que vamos nos contrapor a esse poder da mídia? Os padres 
é que sempre acham que existe alguma coisa boa em tudo. Podemos 
aderir a essa Iógica e achar que é possível usar a mídia para produzir 
democracia e cidadania. Se concordarmos, mesmo provisoriamente, com 
o fato de que a mídia tem um caráter intrinsecamente alienante, como é 
que vamos usar a mídia para poder produzir cidadania? Fica impossível, 
não tem saída. Se, ao usar um meio de comunicação, estou usando um 
meio de alienação, não vou poder induzir o contrário da alienação com 
aquele meio. Aqui chegaríamos a dar razão para aqueles ouvintes que 
desde o começo desconfiaram que essa tese do caráter alienante dos 
meios iria nos levar para um beco sem saída.
Pois é nesse momento que vamos precisar resgatar a primeira tese 
que anunciei, aquela que afirmava a falta de poder da mídia. E preciso 
que nos demos conta de que há um elemento fundamental que anula 
o poder da mídia, que baixa a zero sua capacidade de influência sobre 
a visão de mundo de uma pessoa, pois a grande arma contra o poder 
de qualquer meio de comunicação é a boa e velha conversa, a conversa 
com um interlocutor que consideremos medianamente válido. O diálogo 
direto entre duas pessoas pode arrasar o trabalho da mídia. Uma pessoa 
que olha nos olhos da outra pode destruir o efeito de meses seguidos de 
informação veiculada por meio da imprensa.
Mas qual conversa? Qualquer conversa? Tenho vivido isso de modo 
muito forte. Dou uma entrevista para uma revista, e a pessoa destaca o 
poder da mídia. Pergunto estão a esse entrevistador: \u201cvocê não acha que 
as conversas diretas promovem a anulação desse poder?\u201de do meio da 
conversa para o fim, a própria entrevista se transforma em um exemplo 
dessa capacidade do contato entre seres humanos, porque a pessoa 
começa a duvidar do que pensava no começo da entrevista. E isso muitas 
vezes acontece de forma mediada por um telefone. Então, uma pessoa que 
nunca vi, com quem não tenho contato, não sei quem é, numa conversa, 
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começa a colocar em dúvida o que para ela era absolutamente seguro, 
o que ela estudou, o que ela leu nos livros, o que ela vê seguidamente 
na mídia, que é sempre essa reafirmação do enorme poder enorme na 
mídia. Senhores, o rei está nu. Não há nada, e estou afirmando assim 
para provocar o debate, não há nada na mídia que resista a um diálogo 
direto entre dois, três, quatro, dez seres humanos.
Talvez o grande poder da mídia seja sua capacidade de ocupar o tempo 
das pessoas. Gostei da idéia que foi apresentada antes aqui. O grande 
poder da mídia deve ser esse, porque, ao ocupar tanto as nossas vidas, ela 
reduz drasticamente a nossa possibilidade de contato direto com outros 
seres humanos. E, nesse caso, convém tomar como exemplo a própria 
mídia televisiva, porque ela tem um elemento especial: a televisão tem 
um caráter poderoso no sentido de dificultar o contato entre as pessoas. 
Pode ser verdade que, quando o rádio foi lançado como aparato para 
comercialização, as pessoas se sentavam e ficavam ouvindo, às vezes 
olhando para o rádio. Mas logo ele deixou de ser alvo de observação. 
Quando o rádio toca música, a pessoa não fica parada, necessariamente, 
ao lado para escutar. Já a televisão não permite esse compartilhamento 
da atenção. Quase não se leva a vida adiante vendo televisão. Quando 
se vê televisão, deve­se parar e olhar para ela. Não se conversa de forma 
continuada com ninguém. Pode­se fazer um comentário, mas não é uma 
troca continuada de informação, de reflexão, com alguém, porque deve­
se olhar para a televisão; ela ocupa o seu tempo e a sua atenção.
Claro, há muitos outros elementos pouco considerados nesse 
processo de debate, mas que podem ser muito importantes. O próprio 
caráter dos aparatos tecnológicos, a forma como se organizam tanto 
a disposição da casa quanto a habilitação das pessoas para o uso dos 
aparatos tecnológicos de comunicação precisam ser alvo de atenção. 
Se você tem um microondas dentro de casa, você ensina à pessoa que 
trabalha com você ou aos seus filhos a usar essa tecnologia. O aparato 
tecnológico a televisão, no máximo, ensinamos a apertar um botão e a 
sentar na frente do aparelho, e não ensinamos mais nada. Não dizemos: 
cuidado há um perigo aqui ou \u201cse você utilizar isto de forma errada 
isso pode causar dano\u201d. Não dizemos que pode existir perigo no uso da 
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televisão. Pelo contrário, a televisão é tida como auto­instrutiva. É um 
aparato tecnológico que é ligado ali na frente, e a criança vai ver como 
funciona aquilo.
Agora, pode ser que o principal que vai acontecer com essa criança é 
que ela vá passar um enorme tempo de sua vida sentada, sem conversar 
com você, com o pai ou a mãe, com os irmãos ou com os amigos, sem 
subir em árvore, sem carregar pedra, sem carregar madeira, sem jogar 
pedra no vizinho, quer dizer, sem fazer o que lhe dê uma impressão de 
realidade, de materialidade da vida. Bom, lugar de criança é em cima da 
árvore, não na frente da televisão.
Então, se é verdade que uma conversa pode anular o poder da mídia, 
vou fazer agora minha terceira afirmação, que é decorrência das duas 
primeiras: onde houver tecido social forte, o poder da mídia tenderá a 
uma redução dramática. Por que? Porque onde há tecido social forte, os 
temas que a mídia divulga serão processados nesse tecido social. Tecido 
social forte significa que há conversa, há interação com os vizinhos. Os 
vizinhos são preciosos. Por mais aborrecidos que eles sejam, por mais 
grosseiros, ele continuam sendo preciosos. Por pior que eles sejam, 
eles são bons, porque pode­se conversar com eles, ver como é que eles 
reagem, saber o que eles leram, como é que eles percebem os fatos. 
Então, pode­se trocar informações. Num tecido social forte, onde eu 
tenha relações de vizinhança, onde participo da associação do bairro, 
participo do meu sindicato, participo de um partido político, participo 
da minha categoria profissional, o que seja, todas essas relações vão se 
somando e permitindo que o tecido social tenha um poder fortíssimo 
para reduzir o poder da mídia.
Já não se trata de dizer que não haja poder na mídia na nossa 
sociedade hoje. Não é que não haja poder na mídia, é que o poder da 
mídia que existe hoje na nossa sociedade também precisa ser matizado. 
Não é verdade que ele seja indiscriminado, universal, absoluto, mas 
esse poder sofre redução não porque dizemos, simplesmente, que 
daqui para a frente seremos espertos. Ele sofre redução a medida que 
as pessoas, os grupos da sociedade estabelece relações fortes no seu 
interior, relações entre os seres humanos, entre as pessoas que estão 
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ali. E aí, nessa hora, inclusive, e vou concluir com essa idéia, o meio de 
comunicação pode voltar a ser meio. Podemos deixar de exigir dele tanto 
conhecimento, capacidade e autonomia e podemos dizer: \u201ccâmera, fica 
sendo só câmera; TV, fica sendo só TV; rádio, fica sendo só rádio\u201d. Ou 
ainda melhor: câmera, TV e rádio, eu vou submeter vocês aos interesses 
e controle sociais. Esse é o caso, \u2018por\u2019 exemplo, das rádios comunitárias, 
dos meios de comunicação que servem a grupos que estão em busca 
da melhoria da sua condição de vida. Então, esses grupo usam o meio 
num processo de construção, e o meio se transforma em uma extensão 
de um processo de construção, e não uma finalidade em si, \u201dcomo 
parece acontecer em muitas situações na nossa sociedade hoje\u201c, em 
que o meio acaba ganhando o reforço da sua capacidade de alienação,