livro_midia e psicologia
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e que possamos viver em um país se assenhore 
desses processos de comunicação de modo a utilizá­los e a torná­lo 
instrumentos de uma nação efetivamente voltada para os interesses de 
seus cidadãos.
Muito obrigado.
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Homenagens
Vamos passar agora a um momento de resgate histórico da construção 
de uma perspectiva de interesse popular para o tratamento dos meios 
de comunicação. Através da apresentação de um vídeo, queremos fazer 
uma homenagem a duas pessoas que, infelizmente, não estão mais entre 
nós, mas que, durante suas vidas, se dedicaram de maneira intensa e 
ampla à luta pela democratização das comunicações em nosso país. São 
eles Perseu Abramo e Daniel Herz.
Perseu Abramo
Autor de vários livros sobre este tema, dentre eles o livro Padrões 
de Manipulação na Grande Imprensa (que está sendo distribuído a 
todos vocês), no qual, com sua habilidade técnica e política, aponta as 
formas como percebe a manipulação na oferta de informação para a 
sociedade através da grande imprensa. Há dez anos não contamos com 
a colaboração do Perseu, mas continuamos com seus livros e reflexões.
Daniel Hertz
Pessoa importantíssima na década de 80 para, a criação do Fórum 
Nacional pela Democratização dos Meios de Comunicação (FNDC) e 
na convocação dos psicólogos para o envolvimento direto na luta de 
combate ao monopólio da informação e da comunicação no Brasil. 
Perdemos o Daniel no ano de 2006.
Dessa maneira, queremos deixar aqui a homenagem da Psicologia 
brasileira a esses dois trabalhadores que lutaram pela democratização 
da comunicação no Brasil.
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Mesa de Abertura 
Coordenação 
Marcos Ferreira
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Mesa de Abertura
José Arbex Jr
Quero começar contando um fato que me estarreceu e me fez pensar 
que a situação está bem pior do que imaginava. Fui, seis meses atrás, 
convidado para um almoço com a alta direção do jornal O Estado de 
São Paulo. Estavam lá jornalistas e editorialistas, dentre outros, porque, 
naquele almoço, a nova embaixadora da Palestina no Brasil estava se 
apresentando, e eles haviam convidado algumas pessoas da sociedade 
civil. Em dado momento, um dos editorialistas do Estadão disse: \u201cÉ óbvio 
que nesta mesa todos concordamos que existe uma tragédia em relação 
ao respeito aos direitos humanos no Oriente Médio. Creio que todos 
aqui pensam a mesma coisa\u201d. E eu disse a ele que talvez não. Ao que ele 
me inquiriu, e eu respondi: \u201cPor exemplo, em 1996, a então Secretária 
de Estado do Bill Clinton, Madeleine Albright, deu uma entrevista 
no programa Sixty Minutes, CBS News, um dos mais respeitáveis dos 
Estados Unidos, e, em dado momento, o entrevistador disse a ela que, 
desde 1990, quando houve o ataque a Bagdá, até hoje, o cerco imposto 
pelos Estados Unidos e aliados e o boicote de produtos ao Iraque causou 
a morte de pelo menos 500 mil mulheres e crianças. Atenção, quem 
fez essa afirmação foi um jornalista da CBS News. Não é ninguém da 
esquerda, ele não é de Cuba, nem da Venezuela. Não, ele é dos Estados 
Unidos. E perguntou: \u201cA senhora acha que valeu a pena?\u201d Ao que ela 
respondeu: \u201cLamento, mas foi necessário, porque estamos em guerra\u201d,
Contei isso no almoço, e disse que não vi editorial algum do Estadão 
chamando essa senhora de terrorista. E o rapaz do Estadão disse: \u201cMas 
ela não é terrorista\u201d. Está certo o que ela disse. O país está em guerra 
e deve tomar medidas de guerra. Fiquei olhando para o moço e insisti: 
\u201cEstá certo que 500 mil mulheres e crianças morram, como medida de 
guerra?\u201d Ele respondeu: \u201cClaro que está\u201d. Olhei para o jornalista que 
falou sobre a concordância em relação à tragédia quanto aos direitos 
humanos no Oriente Médio e disse: \u201cEstá vendo como não concordamos 
no que diz respeito à avaliação sobre direitos humanos? Para vocês, está 
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certo matar 500 mil pessoas, sendo que o Iraque nunca declarou guerra 
aos Estados Unidos\u201d.
Isso revela um problema muito grave. Eu não falava com o dono do 
jornal. Falava com um profissional jornalista. E aquilo que ele disse é 
um horror, mas todos naquela mesa acharam normal o que ele dizia 
e achavam que a sua posição era perfeitamente defensável. Tentando 
entender um pouco esse mecanismo mental, tenho que me reportar 
à primeira guerra do Golfo, em 1990, 1991, quando ocorreu a famosa 
guerra cirúrgica, a guerra que não mata \u2018ninguém. E hoje sabemos que 
pelo menos 150 mil pessoas morreram na guerra que não mata ninguém, 
ao longo de 40 dias. Somente nos primeiros sete dias, foi jogado sobre 
Bagdá, em tonelagem de explosivos, o equivalente a uma bomba de 
Hiroshima por dia, mas era uma guerra que não matava ninguém. E o 
mundo \u201ccomprou\u201d essa versão e aceitou o fato de não ter havido mortes 
na Guerra do Golfo. O Bush pai saiu da Guerra do Golfo como o herói 
que inventou a guerra sem mortes. E, se eu perguntar a vocês: \u201cÉ possível 
imaginar que uma cidade com 4.800 mil habitantes seja bombardeada 40 
dias e 40 noites, jogue explosivos equivalentes a uma Hiroshima por dia 
na primeira semana e se diga que ninguém morreu?\u201d Todos responderão 
que isso é impossível, mas todos acreditaram que não houve mortes. O 
ponto é perguntar como e por que acreditamos nisso? Como a mídia 
conseguiu vender à opinião pública uma versão absurda?
Entramos aqui em uma nova mitologia, construída ao longo dos anos 
90 que explica essa subjetividade que vem sendo criada, muito perigosa, 
que é o mito da guerra sem mortes, da guerra limpa, da guerra cirúrgica. 
Ao longo dos anos 90, foram realizados vários ataques limpos, com armas 
que não matam ninguém. Por exemplo, vocês devem ter lido que os 
Estados Unidos jogaram sobre Kosovo uma bomba de grafite que paralisa 
completamente as instalações elétricas. É uma bomba que, teoricamente, 
não mata ninguém. Apenas provoca um pânico generalizado, a ruptura 
da sociedade, uma hecatombe social sem limites, e deixa a sociedade 
completamente indefesa e aberta aos ataques de forças convencionais.
Atualmente, usam outra bomba que não mata ninguém: a bomba de 
decibéis. Ela solta um ruído superior a 170 decibéis, que, entre outras 
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coisas, estoura o tímpano das pessoas e produz cavidades nos corpos, 
sem falar no pânico. Desde a época de Hitler, sabemos que os engenheiros 
projetavam bombas que assobiavam no ar, porque o ruído que anuncia a 
chegada da morte produz um pânico tão grande que, muitas vezes, pode 
matar mais que a bomba propriamente dita.
Também há a bomba de luz, usada na Somália. Quando ela explode, 
sua iluminação é tão intensa que cega as pessoas em um raio de muitos 
quilômetros. É uma iluminação que possui a intensidade do Iaser.
Ainda há a bomba de lâminas de barbear, que emite milhares e 
milhares de estilhaços afiados que penetram no corpo das pessoas, e 
exigem que elas fiquem paralisadas, pois, a cada passo dado, a carne 
vai sendo dilacerada, em um processo intensamente doloroso. Todos 
ficam parados até as tropas convencionais \u2018chegarem e prenderem ou 
tomarem outras medidas.
E há as bombas de bombas, aquelas jogadas por Israel no sul do Líbano: 
as bombas de fragmentação. São depositadas no solo e, ao explodirem, 
soltam milhares de outras bombas menores para todos os lados, por fim, 
há os robôs, que estão indo para as frentes de batalha.
Como disse, o marco zero disso tudo foi a Guerra do Golfo, em 1990, 
quando, pela \u2018primeira vez, a humanidade soube da existência da guerra 
sem mortes. A pergunta é: \u201cQual é o processo mágico que faz com que os 
Estados Unidos, hoje, neste minuto, soltem esse tipo de bomba em uma 
localidade como Faluja, contra civis, mulheres e crianças, que morrem 
às dezenas de milhares, e nós acreditamos que não está acontecendo 
nada, fingimos acreditar que nada acontece e estamos contentes com 
nossa ignorância sobre o que acontece? Que processo mágico é esse 
que nos conduz à passividade, à indiferença, à cegueira diante