411-Manual_de_Economia (2)
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o consumo. Uma parte do Produto se destina à ampliação do estoque de forças
produtivas. Esta parcela é chamada de Investimento. No exemplo anterior, os 50 novos arados,
que se agregam ao número de arados existentes anteriormente, correspondem ao investimento
líquido do período.
O problema é que é mais difícil diferenciar \u201creposição\u201d de \u201campliação\u201d da capacidade
produtiva do que pode parecer num primeiro momento. Ou, para ir no ponto: não há como definir
rigorosamente quanto tempo dura um arado. Sua duração varia muito com os padrões de
manutenção adotados e com a qualidade dos demais insumos (p. ex: animais de tração mais fortes
toleram arados mais pesados e resistentes; solos mais leves, com mais material orgânico e sem pedras,
desgastam menos os arados; etc.).
Esta dificuldade foi equacionada pelos economistas através da diferenciação do Produto
em duas categorias: Produto Bruto e Produto Líquido. O Produto Bruto é aquela parcela da Produção
que excede tão somente às necessidades de reprodução dos insumos físicos não-duráveis, utilizados
ao longo de um determinado período75. No nosso exemplo, este é o caso do esterco utilizado para
adubar a terra e das 15.000 cabeças de gado que entram na produção de \u201ccarnes, couros, ossos e
outros derivados de bovino\u201d. Estes insumos são plenamente consumidos num único período, não
restando nada dos mesmos em sua forma original ao final do processo. Diferentemente, os 1000
arados duram, e mesmo que os novos 100 produzidos correspondam exatamente à quantidade
necessária e suficiente para a reposição da capacidade produtiva do sistema, ao final do
período temos 1100 arados (dos quais os 100 mais antigos e desgastados são sucata). Neste caso,
dizemos que os 100 arados produzidos recentemente fazem parte do Produto Bruto. Mas não fazem
parte do Produto Líquido, que é aquela parcela do Produto Bruto que excede às necessidades de
reposição global (inclusive do estoque de máquinas) do sistema econômico.
Como a determinação do Produto Líquido pressupõe a mensuração do percentual de desgaste
dos instrumentos produtivos, ela é bem mais complexa do que a determinação do Produto Bruto. Por
75 O período de referência da Contabilidade Nacional ou Social é, usualmente, de um ano. Mas pode-se calcular o Produto para
qualquer período que se queira. Muitos sistemas de estatística fornecem informações sobre o Produto trimestral ou mensal de
uma determinada Economia. Este é um ponto importante, e voltaremos a tratar do mesmo em outros momentos. Mas já vale
a pena frisar, aqui, que as categorias de Produção, Produto Bruto, Produto Líquido e Renda, são categorias de \u201cfluxo\u201d, e variam
diretamente com o período de tempo tomado em consideração. Assim, o Produto Nacional em um dia útil deve ser
aproximadamente 1/5 do Produto Nacional de 5 dias úteis. Diferentemente, há um conjunto de categorias econômicas que
representam \u201cestoques\u201d \u2013 como, por exemplo, a quantidade de moeda em circulação, ou as terras agricultáveis de um país, ou
a população economicamente ativa, ou o conjunto das instalações fabris \u2013 que não apresentam uma relação direta e simples
com o tempo, podendo se manter estáveis, crescer ou diminuir ao longo do tempo.
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isto que, usualmente, adota-se o Produto Bruto - seja na forma de PIB (Produto Interno Bruto), seja
na forma de PNB (Produto Nacional Bruto) \u2013 como a medida de Produto Econômico76.
Por fim, cabe discutir uma última ambigüidade da idéia de Produto, manifesta no Quadro 1
acima na transformação de Pedras em Igrejas. A questão é: se o Produto Bruto é a parcela da
produção que resta após a reposição dos insumos absorvidos no processo produtivo, como definir
qual a percentagem das Igrejas que faz parte do mesmo? Se fôssemos seguir o padrão definido pela
agricultura \u2013 exemplificado acima pela subtração das sementes à Produção total de trigo para definir
o Produto-Trigo \u2013 teríamos de subtrair as pedras incorporadas nas Igrejas para definir o Produto-
Igreja. Mas a analogia é bastante imperfeita. Afinal, as pedras que se transformaram em igrejas não
podem recompor a pedreira destruída. Na verdade \u2013 e este é o problema mais difícil de resolver -
não podemos recompor o estoque de pedras que foi retirado da natureza! Além disso, à diferença do
caso semente-trigo, o produto (Igrejas) e o insumo (pedras) não são homogêneos. De forma que não
se pode simplesmente dizer: extraia-se da produção final o quantum utilizado como insumo na
produção, que o saldo líquido corresponderá ao produto. Não há qualquer saldo líquido nesta
operação. Pelo contrário: com toda a certeza, o volume de pedras nas Igrejas é inferior ao volume
extraído das pedreiras.
Uma alternativa de resolução do problema seria contabilizar pedras e Igrejas pelo seu valor
venal. Vale dizer: uniformizamos o que é heterogêneo tomando o valor de mercado dos bens como
unidade de medida universal. Mas, caberia perguntar então: 1) qual é o valor venal de uma Igreja?; 2)
qual o valor venal de uma pedreira e das pedras extraídas da mesma?; e 3) mesmo que Igrejas e
pedras tenham valor venal, até que ponto eles expressam de forma adequada o \u201cvalor real\u201d destes
bens?
A última destas três questões é uma das mais complexas e controversas em Economia.
Sem dúvida, não há, nem uma resposta consensuada, nem uma resposta satisfatória para a
mesma no interior desta ciência. Mas para as duas primeiras, há já uma resposta consensuada,
ainda que insuficiente. O que ela afirma é que os bens e serviços produzidos para a venda
(mesmo quando irreprodutíveis, como pedras ou petróleo) devem ser avaliados e contabilizados
pelo seu preço de mercado, e os bens e serviços que não são produzidos para a venda (como
é o caso dos bens e serviços fornecidos gratuitamente pelo governo: educação pública,
segurança, etc.) devem ser avaliados e contabilizados pelos seus custos de produção. Neste
caso, a contribuição da pedreira para o Produto social é a receita total gerada pela venda das
76 A diferença entre Produto Interno e Produto Nacional é definida pela parcela da produção interna que tem de ser enviada ao
exterior para pagar os rendimentos (dividendos, juros, lucros, royalties, aluguéis e salários) de proprietários estrangeiros que
atuam na economia nacional, líquida da parcela recebida por nacionais por suas propriedades no estrangeiro.. No caso do
Brasil, o Produto Nacional é cronicamente inferior ao Produto Interno (em torno de 94% deste último), pois os juros, lucros
e royalties pagos superam de forma significativa (em torno de seis vezes) os rendimentos recebidos do exterior.
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pedras menos os gastos com os insumos necessários à extração das mesmas (é o Valor
Agregado nas pedreiras). E a contribuição das Igrejas para o Produto social é o valor total
despendido na sua construção menos os gastos com os insumos físicos (no nosso exemplo,
as pedras) incorporados à mesma. Supondo que, para além dos insumos-pedras, os
dispêndios com a produção das Igrejas tenha se resumido ao pagamento de pedreiros,
artesãos, arquitetos, e pintores, o total despendido com estes trabalhadores corresponderá
ao valor do Produto- Igreja.
A insuficiência desta dúplice resposta é mais ou menos evidente. De acordo com o
conceito anunciado acima, só é Produto a parcela da Produção que excede os insumos
desgastados ao longo do processo produtivo. Mas, neste caso, estamos contabilizando como
\u201cProduto\u201d todo aquele valor das pedras que superam os gastos com os insumos necessários
à extração das mesmas, ignorando o fato de que a própria pedra é um insumo. Uma
contradição. Mas uma contradição insolúvel até que se encontre uma resposta para o
problema nada trivial de definir o valor de bens que, sob a atual tecnologia, são
irreprodutíveis77.
Da mesma forma, contabilizar o valor de uma Igreja \u2013 ou de bens públicos como
segurança e educação - pelos seus custos de produção não é uma solução satisfatória. Esta
técnica de contabilização simplesmente ignora a qualidade