411-Manual_de_Economia (2)
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do que está sendo ofertado: um
sistema educacional público dispendioso (em termos de gastos com funcionalismo) mas
ineficiente será avaliado como gerador de um produto social maior do que um sistema público
mais eficiente e menos dispendioso. Uma Igreja cuja construção tenha sido altamente
dispendiosa gerará, formalmente, uma adição ao produto (e ao estoque de Riqueza da
Economia) maior do que uma outra que tenha contado com a colaboração voluntária de
seus fiéis na construção, ainda que o valor estético-arquitetônico (e a fruição destes benefícios
por visitantes e transeuntes), bem como os serviços de conforto espiritual e integração social
da segunda sejam muito maiores que os da primeira.
Infelizmente, o instrumental desenvolvido pelos economistas para avaliar a Produção,
o Produto e a Riqueza Social ainda não dá conta de enfrentar este conjunto de contradições
77 É importante frisar que os bens ditos \u201cirreprodutíveis\u201d só o são dentro dos limites da tecnologia atual que, por sua
vez, é função da disponibilidade relativa dos próprios bens. Como veremos no próximo capítulo, quanto mais escasso
um bem, maior tende a ser o seu preço e maior a pressão para o desenvolvimento de alternativas tecnológicas ao seu uso.
Estas alternativas podem ser, tanto a utilização de bens substitutos, quanto a da produção do bem escasso através de
sistemas industriais (produção \u201cartificial\u201d). Afinal, como dissemos acima, a Economia não nega a lei de Lavoisier
segundo a qual, na natureza, nada se cria, nem se destrói, apenas se transforma. Nem poderia. A peculiaridade dos
processos humano-econômicos de produção se encontra na possibilidade de alterar qualitativamente e conscientemente
os padrões de utilização dos limitados recursos naturais disponíveis.
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e ambigüidades. Por isto mesmo, é preciso saber ler e interpretar as medidas fornecidas
pela Contabilidade Social se se quer ter uma referência sólida para a avaliação do
desempenho econômico real de uma dada Economia Nacional. De outro lado, as
ambigüidades supra-referidas não podem servir de base para a negação pura e simples da
Contabilidade Social em geral, e da categoria Produto em particular, como instrumento de
avaliação de desenvolvimento e Bem-Estar. E isto, de forma particular, porque a categoria
Produto é indissociável dos rendimentos auferidos pelo conjunto dos moradores de um
território. Este relação é o objeto da próxima seção.
3.3 PRODUTO E RENDA
Imaginemos uma Economia Mercantil Simples78. Nela, produzem-se os mais diversos
bens e serviços: trigo, milho, porcos, laranjas, mesas, cadeiras, carroças, comércio a varejo,
educação, etc. Não obstante, podemos agregar estes diversos bens e serviços em setores
(agricultura temporária, pecuária, indústria do mobiliário, etc). Para simplificar, vamos dividir
a produção em apenas três setores: a Agricultura, a Indústria, e os Serviços.
Ora, cada produtor independente \u2013 e, por conseguinte, cada um dos setores da
economia \u2013 necessita adquirir insumos uns dos outros para produzir. O produtor de laranjas,
por exemplo, necessita comprar adubo (que em nossa primitiva economia hipotética
corresponde ao esterco produzido na pecuária), sacos (por hipótese, produzidas por
artesãos urbanos) e contratar serviços de transporte (por hipótese, de agentes urbanos)
para gerar e comercializar sua produção. Da mesma forma, o produtor de sacos necessita
comprar juta dos produtores agrícolas, óleo e graxa (para a manutenção dos teares e
máquinas) dos produtores urbanos e contrata serviços de reparação para o maquinário. Por
fim, o fornecedor de serviços de transporte compra feno dos agricultores para alimentar os
animais de carga, ferraduras e cordame dos artesãos e utiliza serviços de manutenção para
as carroças. E assim como estes, todos os produtores compram uns dos outros; de sorte
que todos os setores da nossa economia hipotética fornecem insumos para os demais setores
e para si mesmos. O Quadro 2, abaixo, sintetiza o conjunto das transações de uma tal
economia hipotética.
78 A Economia Mercantil Simples é uma economia mercantil de pequenos produtores independentes (os trabalhadores são os
proprietários dos meios de produção). Sua estrutura fundamental, historicidade e relevância teórica foi objeto de tratamento
na terceira seção do capítulo segundo.
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Quadro 2: Matriz de Recursos e Usos de uma Economia Mercantil Simples
O Quadro 2, acima, nada mais é do que uma versão simplificada do sistema de relações de
compras, vendas e apropriações de rendimentos que fundamenta o que os economistas chamam de
\u201canálise de insumo-produto\u201d79. O primeiro a observar é que o valor das últimas células das colunas e
das linhas corresponde à soma das células anteriores (excetuada a linha/coluna do \u201cconsumo
intermediário\u201d, ela mesma, a soma parcial das células anteriores). Em segundo lugar, vale observar
que os valores são os mesmos nas células equivalentes: a última célula da linha \u201cAgricultura\u201d tem o
mesmo valor da última célula da coluna \u201cAgricultura\u201d, e assim por diante. Para que se entenda porque,
é preciso entender o significado do sistema.
Se começamos pela primeira coluna, o que ela nos diz é o quanto, em valores
monetários, a Agricultura demanda dos demais setores sob a forma de \u201cinsumos\u201d e quanto este
setor agrega de valor. No nosso exemplo, o setor agrícola \u201cinsome\u201d da própria Agricultura 80
unidades monetárias (u.m.), da Indústria, 100 u.m. e dos Serviços, 80 u.m. O total dos insumos
perfaz 260 u.m. (cujo valor é apresentado na linha intitulada \u201cConsumo Intermediário\u201d). Mas o
Valor da Produção da Agricultura é maior do que o valor insumido. Este valor aparece na última
célula da referida coluna, e é igual a 400 u.m. A diferença entre o Valor da Produção (a
Receita Total) da Agricultura e o valor insumido (o Consumo Intermediário) é a Renda dos
Agricultores, que corresponde ao Valor Agregado na Produção agrícola, vale dizer ao
Produto da Agricultura. A mesma leitura deve ser feita para as colunas da Indústria e dos
Serviços.
79 Este instrumento analítico foi consolidado em meados do século XX por Wassili Leontief, um dos primeiros pesquisadores
a ser laureado com o prêmio Nobel de Economia. Mas suas raízes se confundem com as raízes da Economia, desde o Tableau
Economique de Quesnay, passando pelas equações departamentais de Marx e pelo sistema de Equilíbrio Geral de Walras.
X DEMANDA
Agricultura Indústria Serviços Cons Interm Dem Famílias Demanda Total
O Agricultura 80 120 50 250 150 400
F Indústria 100 150 120 370 180 550
E Serviços 80 70 130 280 220 500
R Cons Interm 260 340 300 - - 900
T Renda Famílias 140 210 200 - 100 650
A Valor da Produção 400 550 500 900 650 1550
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De outro lado, se lemos o Quadro 2 a partir das linhas, o que nos é informado é o destino
da produção de cada setor. Comecemos, mais uma vez pela Agricultura. Este setor fornece 80 u.m.
de insumos para si mesmo, 120 u.m. de insumos para a Indústria e 50 u.m. de insumos para os
serviços. No total, a Agricultura fornece 250 u.m. de bens que serão utilizados no processamento de
outros bens. Mas, como já vimos, o Valor da Produção agrícola (ou seja, a Receita Total do conjunto
dos estabelecimentos agrícolas) é de 400 u.m. O que é o mesmo que dizer que, para além do Consumo
Intermediário, a Agricultura recebeu uma demanda extra de 150 u.m. Este é o valor demandado pelas
famílias, na forma de bens de consumo final; vale dizer, na forma de bens que servirão para a alimentação
dos trabalhadores rurais e urbanos.
Vale observar que a simetria da linha Valor da Produção e da coluna Demanda Total não
se repete para as demais. Como já vimos, o Valor da Produção de qualquer setor é a sua receita total,
e, portanto, equivale necessariamente ao valor da demanda que incidiu sobre ele80. Mas o Consumo
Intermediário que incide sobre a Agricultura não tem porque ser igual ao Consumo Intermediário