411-Manual_de_Economia (2)
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vender tudo o que conseguir produzir
ao preço de mercado e a firma só vai produzir e vender mais se a receita líquida que ela obtiver for
positiva, dado o custo de oportunidade. O desdobramento lógico destas duas assertivas é que a
firma irá produzir até o ponto em que seu custo marginal ascendente igualar o preço de mercado.
O que é o mesmo que dizer que, em concorrência perfeita, a função custo marginal corresponde à
função oferta da firma. Ao longo desta curva estão determinadas as quantidades que as firmas
estão dispostas a produzir e vender aos diversos preços possíveis. A agregação das funções custo
marginal das firmas, corresponde à função oferta de mercado do produto. Tal como as funções
oferta individuais, a função oferta de mercado apresenta uma inclinação positiva, de forma que
variações positivas (ampliações) de demanda só se resolvem em novas situações de equilíbrio
através da elevação dos preços de mercado.
Malgrado este modelo de formação de preços ser específico de um padrão muito particular
de ordenamento competitivo, ele é, normalmente, tomado como um modelo de vigência universal.
Via de regra, acredita-se que uma elevação da demanda terá, necessária e primordialmente, impacto
sobre os preços e apenas secundariamente impacto sobre as quantidades produzidas. Na verdade,
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esta é a interpretação corrente entre aqueles economistas que acreditam que, mesmo nos mercados
urbanos (indústria e serviços), o padrão competitivo hegemônico seja a concorrência perfeita (ou
algo muito próximo dela). E duas das principais derivações desta interpretação são que: 1) elevações
generalizadas de demanda conduzem a elevações generalizadas nos preços (inflação); 2) o centro
de uma política anti-inflacionária eficiente é o controle (o que pode implicar, inclusive, em redução
forçada) da demanda agregada
Não nos interessa ingressar aqui no debate sobre os determinantes da inflação. Eles serão
objeto da seção dedicada à Macroeconomia deste livro. Por enquanto, o que nos interessa entender
são os fundamentos da leitura ortodoxa e, de forma particular, se ela é consistente ou não. E o
primeiro a considerar neste sentido é que, mesmo para um leigo, a admissão de que o sistema
competitivo padrão é a concorrência perfeita é uma hipótese, no mínimo, estranha. Não é
preciso ser um expert em Economia para saber que a maior parte dos estabelecimentos
urbanos \u2013 sejam eles industriais ou de serviços \u2013 se deparam com curvas de demanda que
não são perfeitamente elásticas, mas negativamente inclinadas. Ou, para ser mais claro: a
maior parte (senão a totalidade!) das firmas industriais e de serviços sofreria uma queda na quantidade
demandada se elevasse os preços de seus produtos, mas não deixariam de produzir e vender
alguma quantidade, pois não são meros \u201ctomadores\u201d de preços, mas \u201cdecisores\u201d de preços. E isto
porque os produtos que fornecem não são perfeitamente homogêneos, mas se diferenciam de
alguma forma; quanto mais não seja pela maior ou menor distância que o estabelecimento produtor
se encontra dos compradores. Mas, se é assim, como explicar a franca hegemonia da hipótese da
escola ortodoxa, que toma a concorrência perfeita como padrão competitivo virtualmente universal?
Esta não é uma questão trivial. Na verdade, esta hegemonia tem as mais diversas
determinações teóricas e ideológicas. Não obstante, há uma determinação primordial, que precisa
ser reconhecida no momento mesmo em que se inicia o tratamento das formas imperfeitas de
concorrência. É que, ao contrário da concorrência perfeita, cujo padrão de funcionamento e
equilibração encontra-se virtualmente consensuado, não existe qualquer consenso acerca do
padrão de funcionamento e equilibração nos mercados de concorrência imperfeita. Na
verdade, sequer existe um consenso acerca da unicidade ou da multiplicidade da \u201cconcorrência
imperfeita\u201d. O que se tem é um conjunto amplo e diversificado de modelagens sobre o funcionamento
de distintos padrões de mercados imperfeitos (oligopólio concentrado e/ou diferenciado, oligopólio
bilateral, concorrência monopolística, etc116.), modelagens estas que se diferenciam essencialmente
em função das hipóteses acerca dos padrões de formação de expectativas e comportamento dos
116 As características fundamentais destes distintos padrões de organização de mercado serão objeto de tratamento logo
adiante.
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tomadores de decisão nas empresas. E, na medida em que estas modelagens não apresentam o
mesmo grau de determinação e predictabilidade117 da modelagem da concorrência perfeita, sequer
há um consenso acerca do caráter rigorosamente alternativo ou essencialmente complementar das
mesmas.
Ora, este contraste entre a indeterminação relativa da teorização sobre a concorrência
imperfeita e a perfeita predictabilidade da concorrência perfeita não poderia deixar de induzir à utilização
da modelagem mais determinada por parte daqueles economistas que são solicitados a dar respostas
sobre o que, de fato, não conhecem adequadamente. O que é feito com desenvoltura e sem qualquer
travo de culpa por aqueles que acreditam que o mundo (ou, para ser mais exato, o capitalismo),
malgrado um ou outro \u201cdesajuste eventual\u201d, é essencialmente equilibrado e virtualmente perfeito.
Uma perspectiva que se encontra nos alicerces mais profundos e metafísicos da identidade
especificamente cartesiana entre racionalidade e realidade (em que a última é função da primeira, pois
só o que é racional é real). E, como tal, se encontra nos alicerces do Neoclassicismo em Economia e
em seu crônico privilegiamento da consistência formal e da predictabilidade em detrimento do realismo.
Não gratuitamente, a prevalência dos dois primeiros atributos sobre o segundo na determinação da
ciência será o agumento central de Milton Friedman em seu mais importante e influente trabalho de
crítica à concorrência imperfeita e de defesa à adoção da concorrência perfeita como padrão
competitivo referencial de toda a Teoria Econômica. Segundo Friedman:
\u201c.... the relevant question to ask about the \u2018assumptions\u2019 of a theory is not whether they are
descriptively \u2018realistic\u2019, for they never are, but whether they are sufficiently good approximations
for the purpose in hand. And this question can be answered only by seeing whether the theory
works, which means whether it yields sufficiently accurate predictions.
The theory of monopolistic and imperfect competition is one example of the neglect in economic
theory of these propositions. The development of this analysis was explicitly motivated, and its
wide acceptance and approval largely explained, by the belief that the assumptions of \u2018perfect
competition\u2019 or \u2018perfect monopoly\u2019 said to underlie neoclassical economic theory are a false
image of reality. And this belief was itself based almost entirely on the directly perceived
descriptive inaccuracy of the assumptions rather than on any recognized contradiction of
predictions derived from neoclassical economic theory\u201d (Friedman, 1953, p. 27).
O privilegiamento da predictabilidade em detrimento do realismo defendido por Friedman
e, por conseqüência, sua defesa da consistência do projeto neoclássico de construção de toda a
117 Por predictabilidade entendemos a capacidade de um modelo gerar resultados (soluções) formalmente rigorosos e necessários
e limitados em número (preferencialmente unívocos).
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Teoria Econômica sobre os alicerces da concorrência perfeita foi objeto das mais acirradas críticas e
ardorosos elogios e ainda alimenta polêmicas nos dias de hoje. Mas sua correção ou incorreção não
é o nosso objeto aqui. Já enfrentamos as questões metodológicas no capítulo primeiro deste livro e
não cabe retornar ao tema118. O que importa observar agora é tão somente que o último argumento
esgrimido por Friedman na citação acima é empírica e historicamente falso. Na verdade, a crítica à
pretensão neoclássica de que se possa tomar a concorrência perfeita como padrão