Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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torne 
um poder \u201cinsuportável\u201d, quer dizer, um poder contra o qual se faz uma revolução, é 
preciso que ela tenha produzido a massa da humanidade como absolutamente \u201csem 
propriedade\u201d e, ao mesmo tempo, em contradição com um mundo de riqueza e de 
cultura existente, condições que pressupõem um grande aumento da força produtiva, 
um alto grau de seu desenvolvimento \u2013 e, por outro lado, esse desenvolvimento das 
forças produtivas (no qual já está contida, ao mesmo tempo, a existência empírica 
humana, dada não no plano local, mas no plano histórico-mun dial) é um pressuposto 
prático, absolutamente necessário, pois sem ele apenas se generaliza a escassez e, por-
tanto, com a carestia, as lutas pelos gêneros necessários recomeçariam e toda a velha 
imundice acabaria por se restabelecer; além disso, apenas com esse desenvolvimento 
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A ideologia alemã
centralização em poucas mãos e, na Inglaterra, da centralização em poucas 
mãos ao parcelamento, como hoje é realmente o caso? Ou como se explica 
que o comércio, que não é mais do que a troca de produtos de indivíduos e 
países diferentes, domine o mundo inteiro por meio da relação de oferta e 
procura \u2013 uma relação que, como diz um economista inglês, paira sobre a 
terra igual ao destino dos antigos e distribui com mão invisível a felicidade 
e a desgraça entre os homens, funda e destrói impérios, faz povos nascerem 
e desaparecerem \u2013 enquanto com a superação da base, da propriedade pri-
vada, com a regulação comunista da produção e, ligada a ela, a supressão da 
relação alienada dos homens com seus próprios produtos, o poder da relação 
de oferta e procura reduz-se a nada e os homens retomam seu poder sobre a 
troca, a produção e o modo de seu relacionamento recíproco?a
A forma de intercâmbio, condicionada pelas forças de produção exis-
tentes em todos os estágios históricos precedentes e que, por seu turno, as 
condiciona, é a sociedade civil; esta, como se deduz do que foi dito acima, 
tem por pressuposto e fundamento a família simples e a família composta, 
a assim chamada tribo17, cujas determinações mais precisas foram expostas 
anteriormente. Aqui já se mostra que essa sociedade civil é o verdadeiro 
foco e cenário de toda a história, e quão absurda é a concepção histórica 
anterior que descuidava das relações reais, limitando-se às pomposas ações 
dos príncipes e dos Estados.
b\u2009Até o momento consideramos principalmente apenas um aspecto da 
atividade humana, o trabalho dos homens sobre a natureza. O outro aspecto, 
o trabalho dos homens sobre os homens [...]18
universal das forças produtivas é posto um intercâmbio universal dos homens e, com 
isso, é produzido simultaneamente em todos os povos o fenômeno da massa \u201csem 
propriedade\u201d (concorrência universal), tornando cada um deles dependente das revo-
luções do outro; e, finalmente, indivíduos empiricamente universais, histórico-mundiais, 
são postos no lugar dos indivíduos locais. Sem isso, 1) o comunismo poderia existir 
apenas como fenômeno local; 2) as próprias forças do intercâmbio não teriam podido se 
desenvolver como forças universais e, portanto, como forças insuportáveis; elas teriam 
permanecido como \u201ccircunstâncias\u201d doméstico-supersticiosas; e 3) toda ampliação do 
intercâmbio superaria o comunismo local. O comunismo, empiricamente, é apenas 
possível como ação \u201crepentina\u201d e simultânea dos povos dominantes, o que pressupõe 
o desenvolvimento universal da força produtiva e o intercâmbio mundial associado a 
esse desenvolvimento. (a. m.)
a Além disso, a massa dos simples trabalhadores \u2013 força de trabalho massiva, excluída 
do capital ou de qualquer outra satisfação limitada \u2013 pressupõe o mercado mundial 
e também a perda, não mais temporária e devida à concorrência, desse próprio tra-
balho enquanto uma fonte segura de vida. O proletariado [pressupõe, portanto, a 
história universal como existência empírica prática. (S.m.)] só pode, portanto, existir 
histórico-mundialmente, assim como o comunismo; sua ação só pode se dar como 
existência \u201chistórico-mundial\u201d; existência histórico-mundial dos indivíduos, ou 
seja, existência dos indivíduos diretamente vinculada à história mundial. (a. m.)
b Intercâmbio e força produtiva. (a. m.)
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Karl Marx e Friedrich Engels
Origem do Estado e relação do Estado com a sociedade civil
A história nada mais é do que o suceder-se de gerações distintas, em que 
cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças de produção a 
ela transmitidas pelas gerações anteriores; portanto, por um lado ela con-
tinua a atividade anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro, 
modifica com uma atividade completamente diferente as antigas condições, 
o que então pode ser especulativamente distorcido, ao converter-se a his-
tória posterior na finalidade da anterior, por exemplo, quando se atribui 
à descoberta da América a finalidade de facilitar a irrupção da Revolução 
Francesa19, com o que a história ganha finalidades à parte e torna-se uma 
\u201cpessoa ao lado de outras pessoas\u201d (tais como: \u201cAutoconsciência, Crítica, 
Único\u201d etc.), enquanto o que se designa com as palavras \u201cdestinação\u201d, 
\u201cfinalidade\u201d, \u201cnúcleo\u201d, \u201cideia\u201d da história anterior não é nada além de uma 
abstração da história posterior, uma abstração da influência ativa que a his-
tória anterior exerce sobre a posterior.
Ora, quanto mais no curso desse desenvolvimento se expandem os círculos 
singulares que atuam uns sobre os outros, quanto mais o isolamento primitivo 
das nacionalidades singulares é destruído pelo modo de produção desenvol-
vido, pelo intercâmbio e pela divisão do trabalho surgida de forma natural 
entre as diferentes nações, tanto mais a história torna-se história mundial, 
de modo que, por exemplo, se na Inglaterra é inventada uma máquina que 
na Índia e na China tira o pão a inúmeros trabalhadores e subverte toda a 
forma de existência desses impérios, tal invenção torna-se um fato histórico-
-mundial; ou pode-se demonstrar o significado histórico-mundial do açúcar 
e do café no século xix pelo fato de que a falta desse produto, resultado do 
bloqueio continental20 napoleônico, provocou a sublevação dos alemães contra 
Napoleão e foi, portanto, a base real [reale] das glorio sas guerras de libertação 
de 1813. Segue-se daí que essa transformação da história em história mundial 
não é um mero ato abstrato da \u201cautocons ciência\u201d, do espírito mundial ou de 
outro fantasma metafísico qualquer, mas sim uma ação plenamente material, 
empiricamente verificável, uma ação da qual cada indivíduo fornece a prova, 
na medida em que anda e para, come, bebe e se veste.
Na história que se deu até aqui é sem dúvida um fato empírico que 
os indivíduos singulares, com a expansão da atividade numa atividade 
histórico-mundial, tornaram-se cada vez mais submetidos a um poder que 
lhes é estranho (cuja opressão eles também representavam como um ardil 
do assim chamado espírito universal etc.), um poder que se torna cada vez 
maior e que se revela, em última instância, como mercado mundial. Mas é do 
mesmo modo empiricamente fundamentado que, com o desmoronamento 
do estado de coisas existente da sociedadea por obra da revolução comu-
a Sobre a produção da consciência. (a. m.)
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A ideologia alemã
nista (de que trataremos mais à frente) e com a superação da propriedade 
privada, superação esta que é idêntica àquela revolução, esse poder, que 
para os teóricos alemães é tão misterioso, é dissolvido e então a libertação 
de cada indivíduo singular é atingida na mesma medida em que a história 
transforma-se plenamente em história mundial. De acordo com o já exposto, 
é claro que a efetiva riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente 
da riqueza de suas relações reais. Somente assim os indivíduos singulares 
são libertados das diversas limitações nacionais e locais, são postos em con-
tato prático com a produção (incluindo a produção