Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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b e nacional. (v. m.)
c Por isso, antes da crítica especial aos representantes individuais desse movimento, fare-
mos algumas considerações, de caráter geral, que esclarecerão melhor os pressupostos 
ideológicos comuns a todos eles. Essas considerações serão suficientes para carac terizar 
o ponto de vista de nossa crítica, na medida em que isso se mostra necessário para a 
compreensão e a fundamentação das críticas individuais que seguem. Contrapomos 
essas considerações especialmente a Feuerbach, pois ele é o único que fez ao menos 
algum progresso e cujos escritos podem ser examinados de bonne foi[1]. (S. m.)
d Conhecemos uma única ciência, a ciência da história. A história pode ser examinada 
de dois lados, dividida em história da natureza e história dos homens. Os dois lados 
não podem, no entanto, ser separados; enquanto existirem homens, história da natu-
[1] de boa-fé
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A ideologia alemã
por eles já encontradas como as produzidas por sua própria ação. Esses 
 pressupostos são, portanto, constatáveis por via puramente empírica. 
O primeiro pressuposto de toda a história humana é, naturalmente, a 
existência de indivíduos humanos vivos.a O primeiro fato a constatar é, pois, 
a organização corporal desses indivíduos e, por meio dela, sua relação dada 
com o restante da natureza. Naturalmente não podemos abordar, aqui, nem 
a constituição física dos homens nem as condições naturais, geológicas, oro-
hidrográficas, climáticas e outras condições já encontradas pelos homens.b 
Toda historiografia deve partir desses fundamentos naturais e de sua modi-
ficação pela ação dos homens no decorrer da história. 
Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião 
ou pelo que se queira. Mas eles mesmos começam a se distinguir dos animais 
tão logo começam a produzir seus meios de vida, passo que é condicionado 
por sua organização corporal. Ao produzir seus meios de vida, os homens 
produzem, indiretamente, sua própria vida material.
O modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida depende, 
antes de tudo, da própria constituição dos meios de vida já encontrados e 
que eles têm de reproduzir. Esse modo de produção não deve ser conside-
rado meramente sob o aspecto de ser a reprodução da existência física dos 
indivíduos. Ele é, muito mais, uma forma determinada de sua atividade, 
uma forma determinada de exteriorizar sua vida, um determinado modo de 
vida desses indivíduos. Tal como os indivíduos exteriorizam sua vida, assim 
são eles. O que eles sãoc coincide, pois, com sua produção, tanto com o que 
produzem como também com o modo como produzem. O que os indivíduos 
são, portanto, depende das condições materiais de sua produção. 
Essa produção aparece, primeiramente, com o aumento da população. ela 
própria pressupõe, por sua vez, um intercâmbio [Verkehr] entre os indivíduos. 
A forma desse intercâmbio é, novamente, condicionada pela produção. 
reza e história dos homens se condicionarão reciprocamente. A história da natureza, 
a assim chamada ciência natural, não nos diz respeito aqui; mas, quanto à história 
dos homens, será preciso examiná-la, pois quase toda a ideologia se reduz ou a uma 
concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela. A ideologia, ela 
mesma, é apenas um dos lados dessa história. (S. m.)
a O primeiro ato histórico desses indivíduos, pelo qual eles se diferenciam dos animais, 
é não o fato de pensar, mas sim o de começar a produzir seus meios de vida. (S. m.)
b Essas condições implicam não apenas a organização originária, natural, dos homens, 
em particular as diferenças entre as raças, mas também todo o seu ulterior desenvol-
vimento ou não desenvolvimento até os dias de hoje. (S. m.)
c mostra-se, portanto, no seu modo de produção [Produktionsweise], tanto no que eles 
produzem, quanto no [modo como eles produzem]. (v. m.) 
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KaRl maRx \u2013 FRiedRiCh engelS
i . FeueRBaCh
FRagmenTo 1
(De junho a meados de julho de 1846)
As relações entre diferentes nações dependem do ponto até onde cada uma 
delas tenha desenvolvido suas forças produtivas, a divisão do trabalho e 
o intercâmbio interno. Esse princípio é, em geral, reconhecido. Mas não 
apenas a relação de uma nação com outras, como também toda a estrutura 
interna dessa mesma nação dependem do nível de desenvolvimento de 
sua produção e de seu intercâmbio interno e externo. A que ponto as forças 
produtivas de uma nação estão desenvolvidas é mostrado de modo mais 
claro pelo grau de desenvolvimento da divisão do trabalho. Cada nova 
força produtiva, na medida em que não é a mera extensão quantitativa 
de forças produtivas já conhecidas (por exemplo, o arroteamento de ter-
ras), tem como consequência um novo desenvolvimento da divisão do 
trabalho. 
A divisão do trabalho no interior de uma nação leva, inicialmente, à 
sepa ra ção entre o trabalho industrial e comercial, de um lado, e o trabalho 
agríco la, de outro, e, com isso, à separação da cidade e do campo e à oposição 
entre os interesses de ambos. Seu desenvolvimento posterior leva à separação 
entre trabalho comercial e [trabalho] industrial. Ao mesmo tempo, por meio 
da divi são do trabalho no interior desses diferentes ramos, desenvolvem-se 
diferentes subdivisões entre os indivíduos que cooperam em determinados 
trabalhos. A posição dessas diferentes subdivisões umas em relação às ou-
tras é condicio nada pelo modo como são exercidos os trabalhos agrícola, 
industrial e comercial (patriarcalismo, escravidão, estamentos, classes). As 
mesmas condições mostram-se no desenvolvimento do intercâmbio entre 
as diferentes nações. 
As diferentes fases de desenvolvimento da divisão do trabalho significam 
outras tantas formas diferentes da propriedade; quer dizer, cada nova fase 
da di visão do trabalho determina também as relações dos indivíduos uns 
com os outros no que diz respeito ao material, ao instrumento e ao produto 
do trabalho. 
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Karl Marx e Friedrich Engels
A primeira forma da propriedade é a propriedade tribal [Stammeigentum]. 
Ela corresponde à fase não desenvolvida da produção, em que um povo se 
alimenta da caça e da pesca, da criação de gado ou, no máximo, da agricul-
tura. Neste último caso, a propriedade tribal pressupõe uma grande quan-
tidade de terras incultas. Nessa fase, a divisão do trabalho é, ainda, bem 
pouco desenvolvida e se limita a uma maior extensão da divisão natural do 
trabalho que já existia na família: os chefes patriarcais da tribo, abaixo deles 
os membros da tribo e, por fim, os escravos. A escravidão latente na família 
se desenvolve apenas aos poucos, com o aumento da população e das ne-
cessidades, e com a expansão do intercâmbio externo, tanto da guerra como 
da troca. 
A segunda forma é a propriedade estatal ou comunal da Antiguidade, 
que resulta da unificação de mais de uma tribo numa cidade por meio de 
contrato ou conquista, e na qual a escravidão continua a existir. Ao lado 
da propriedade comunal, já se desenvolve a propriedade privada móvel e, 
mais tarde, a propriedade privada imóvel, mas como uma forma anômala 
e subordinada à propriedade comunal. Apenas em sua comunidade pos-
suem os cidadãos o poder sobre seus escravos trabalhadores e, por esse 
motivo, permanecem ligados à forma da propriedade comunal. Esta última 
é a propriedade privada comunitária dos cidadãos ativos, que, em face dos 
escravos, são obrigados a permanecer nessa forma de associação surgida na-
turalmente. Por isso, a estrutura da sociedade que tem por base esse tipo de 
propriedade entra em decadência e, com ela, decai também, no mesmo grau, 
o poder do povo, sobretudo na medida em que desenvolve a propriedade 
privada imóvel. A divisão do trabalho já está mais desenvolvida. Já podemos 
encontrar a oposição entre cidade e campo e, mais tarde, a oposição entre 
Estados que representam o interesse da cidade e aqueles que representam