Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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no qual seus últimos trabalhos são descritos como o mero 
corolário de todo o seu \u201ctrabalho já realizado\u201d. Mas também faltou ao Santo 
Padre a paz necessária para lê-lo cristalinamente, pois ele teme nos adver-
sários o fato de estes contestarem a sua canonização, \u201cde quererem privá-lo 
de sua santidade a fim de se santificarem a si mesmos\u201d98.
Notemos ainda, de passagem, o fato de que, de acordo com a presente afir-
mação de São Bruno, sua Literatur-Zeitung não visava de modo algum fundar 
a \u201csociedade social\u201d ou \u201crepresentar, por assim dizer, a última lágrima de 
melancolia\u201d da ideologia alemã, tampouco visava direcionar o espírito para 
a mais aguda oposição à massa e desenvolver a Crítica crítica em toda a sua 
pureza, mas sim \u2013 \u201cexpor a mediocridade e a fraseologia oca do liberalismo 
e do radicalismo do ano de 1842 e de seus ecos\u201d99, ou seja, combater os \u201cecos\u201d 
de algo já desaparecido. Tant de bruit pour une omelette![1] aliás, é exatamente 
aqui que a concepção de história própria à teoria alemã mostra-se novamente 
em sua \u201cmais pura\u201d nitidez. O ano de 1842 é tido como o período mais bri-
lhante do liberalismo na Alemanha porque a filosofia participava, naquela 
época, da vida política. Para o crítico, o liberalismo desaparece com o fim dos 
Deutsche Jahrbücher e da Rheinische Zeitung100, órgãos da teoria liberal e radi-
cal. Após seu desaparecimento, ele deixa atrás de si apenas \u201cecos\u201d, ao passo 
que é apenas agora, quando a burguesia alemã sente uma necessidade real, 
produzida pelas relações econômicas, de obter o poder político e se esforça 
para consegui-lo, que o liberalismo tem na Alemanha uma existência prática 
e, consequentemente, alguma possibilidade de sucesso101.
A profunda aflição causada a São Bruno por A sagrada família não lhe per-
mitiu criticar essa obra \u201ca partir de si mesma, por si mesma e em si mesma\u201d102. 
Para conseguir dominar seu sofrimento, ele teve, primeiramente, de obter a 
obra em sua forma \u201cfluida\u201d. Ele encontrou essa forma fluida numa resenha 
confusa e repleta de incompreensões publicada no Westphälische Dampfboot, 
número de maio, p. 206-14103. Todas suas citações são extraídas das passagens 
citadas nesse Westphälische Dampfboot, sem o qual nada do que está citado é 
o que de fato está citado.
[1] \u201cTanto barulho por uma omelete!\u201d (frase atribuída ao poeta francês Desbarreaux) 
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A ideologia alemã
Até a linguagem do santo crítico é determinada pela linguagem do crí-
tico da Vestfália. Em primeiro lugar, todas as sentenças do prefácio citadas 
pelo autor da Vestfália (Dampfboot, p. 206) são transpostas para a Wigand\u2019s 
Vierteljahrsschrift (p. 140, 141). Tal transposição forma a parte principal da 
crítica baueriana, de acordo com o antigo princípio já recomendado por 
hegel: 
\u201cConfiar no saudável senso comum e, de resto, para prosseguir em confor-
midade com os tempos e com a filosofia, ler as resenhas de escritos filosóficos, 
talvez até mesmo seus prefácios e parágrafos introdutórios, pois estes últimos 
fornecem os princípios gerais de onde tudo provém, e os primeiros, junta-
mente com a informação histórica, dão-nos uma apreciação que, por se tratar 
de uma apreciação, chega até mesmo a ultrapassar o objeto aprecia do. Esse 
caminho comum pode ser percorrido de roupão; mas é em vestes sacerdo-
tais que o sentimento elevado do eterno, do sagrado, do infinito percorre 
seu caminho\u201d
caminho este que, como vimos, São Bruno também sabe \u201cpercorrer\u201d enquanto 
\u201cmassacra\u201d seus adversários (Hegel, Fenome nologia, p. 54).
Depois de algumas citações do prefácio, o crítico vestfaliano segue em 
frente:
\u201cAssim, o próprio prefácio nos conduz ao campo de batalha do livro\u201d etc. (p. 206)
o santo crítico, tendo transferido essas citações para o Wigand\u2019s Viertel-
jahrs s chrift, faz uma distinção mais sutil, e diz: \u201cTal é o terreno e o inimigo que 
engels e marx criaram para a batalha\u201d104.
Da discussão do enunciado crítico \u201co trabalhador não cria nada\u201d, o crítico 
vestfaliano extrai apenas a conclusão resumida105.
o santo crítico realmente crê que isto é tudo o que foi dito sobre o enun-
ciado, copia na p. 141 a citação vestfaliana e se regozija com a descoberta de 
que apenas \u201calegações\u201d tenham sido contrapostas à Crítica.
Da elucidação das expectorações críticas sobre o amor, o crítico vestfaliano 
primeiramente compila, e em parte (p. 209), o corpus delicti[1] e, então, extrai 
da refutação algumas frases fora de contexto das quais ele desejaria se servir 
como autoridade para a aprovação de seu sentimentalismo viscoso.
o santo crítico o copia palavra por palavra, sentença por sentença, na 
mesma ordem das citações de seu predecessor.
O crítico vestfaliano exclama, por sobre o cadáver do senhor Julius Faucher: 
\u201cTal é o destino do belo sobre a terra!\u201d106.
o santo crítico não consegue completar o seu \u201cárduo trabalho\u201d sem se 
apropriar dessa exclamação (p. 142) de modo despropositado.
Na p. 212, o crítico vestfaliano faz um pretenso resumo dos argumentos 
dirigidos contra o próprio São Bruno n\u2019A sagrada família.
[1] corpo de delito
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Karl Marx e Friedrich Engels
o santo crítico copia tranquila e literalmente toda essa tralha com todas 
as exclamações vestfalianas. Nem sequer sonha que, em todo esse escrito 
polêmico, em nenhum lugar é dito que ele \u201ctransforma o problema da eman-
cipação política no problema da emancipação humana\u201d, \u201cquer massacrar 
os judeus\u201d, \u201ctransforma os judeus em teólogos\u201d, \u201ctransforma Hegel no 
senhor Hinrichs\u201d107 etc. Em sua credulidade, o santo crítico repete a decla-
ração do vestfaliano de que n\u2019A sagrada família Marx tentaria fornecer uma 
espécie de pequeno tratado escolástico \u201ccomo réplica à estúpida autoapo-
teose de Bauer\u201d. Ora, a expressão \u201cestúpida autoapoteose\u201d, referida por 
Bruno como uma citação, não se encontra em nenhum lugar da Sagrada 
fa mília, mas pode ser encontrada no crítico vestfaliano108. Tampouco o pe-
queno tratado é oferecido como uma réplica à \u201cautoapologia\u201d da Crítica 
(A sagrada família, p. 150-63), mas apenas na seção seguinte (p. 165), por 
ocasião da questão histórico-mundial: \u201cpor que o senhor Bauer teve de 
fazer política?\u201d.
Finalmente, São Bruno apresenta Marx (p. 143) como um \u201cdivertido 
comediante\u201d, depois de seu modelo vestfaliano já ter reduzido \u201co drama 
histórico-mundial da Crítica crítica\u201d à \u201cmais divertida das comédias\u201d (p. 213).
Vemos, assim, como os oponentes da Crítica \u201cdevem e podem\u201d \u201csaber 
como o crítico trabalhou e ainda trabalha!\u201d.
4. Necrológio de \u201cM. Heß\u201d
\u201cAquilo que Engels e Marx ainda não puderam realizar, M. Heß o rea liza.\u201d109
Tal é a grande, divina transição que, graças aos relativos \u201cpoder\u201d e \u201cnão 
poder\u201d dos evangelistas110, agarrou os dedos de nosso santo homem tão 
firmemente que agora ela tem de encontrar seu lugar, adequado ou não, em 
cada artigo do Padre da Igreja.
\u201cAquilo que Engels e Marx ainda não puderam realizar, M. Heß o reali-
za.\u201d E o que é esse \u201caquilo\u201d que Engels e Marx ainda não puderam realizar? 
Ora, nada mais nada menos do que \u2013 criticar Stirner. E por que Engels e 
marx \u201cainda não puderam\u201d criticar Stirner? Pela razão suficiente de que \u2013 o 
livro de Stirner ainda não havia sido publicado111 quando eles escreveram 
A sagrada família.
Essa mágica especulativa, que consiste em construir tudo de antemão e 
de colocar as coisas mais diversas numa aparente relação causal, realmente 
passou da cabeça de nosso santo para seus dedos. Ela atinge, com ele, a 
mais total ausência de conteúdo e degenera num jeito burlesco de proferir 
tautologias com ares de importância. Por exemplo, agora já no Allg[emeinen] 
Literat[ur]-Z[ei]t[un]g (I, 5):
\u201cA diferença entre meu trabalho e as folhas que, por exemplo, um Philippson 
ocupa com seus escritos\u201d (ou seja, as folhas em branco em que, \u201cpor exemplo, 
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A ideologia alemã
a o que certamente representa uma concessão superficial às fraseologias