Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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[realen], mas sim como foi concebida 
e descrita pelos novos filósofos alemães, Hegel e Feuerbach em particular. 
e dessas descrições, por sua vez, selecionou-se apenas aquilo que podia ser 
adaptado ao objetivo proposto e que tradicionalmente estava reservado ao 
nosso santo. a história se torna, assim, uma mera história de ideias ilusó rias, 
uma história de espíritos e fantasmas, enquanto a história real, empírica, que 
constitui o fundamento dessa história de fantasmas, só é explorada a fim de 
produzir os corpos para esses fantasmas; dela são tomados de empréstimo 
os nomes necessários para vestir os fantasmas com a aparência da realidade 
[Realität]. ao fazer esse experimento, nosso santo frequentemente sai de seu 
papel e escreve indisfarçadas histórias de fantasmas. 
nele encontramos esse modo de fazer história em sua mais inocente, 
mais clássica simplicidade. as três simples categorias \u2013 realismo, idealismo 
e negatividade absoluta como unidade de ambas (aqui denominada \u201cegoís-
mo\u201d) \u2013, que já encontramos sob a forma de criança, adolescente e homem, 
servem de base a toda a história e são adornadas com várias etiquetas 
históricas; formam, com seu modesto cortejo de categorias auxiliares, o 
conteúdo de todas as supostas fases históricas por ele apresentadas. são 
Max novamente revela, aqui, sua imensa credulidade, ao levar mais longe 
do que qualquer um de seus predecessores a crença no conteúdo especula-
tivo da história elaborado pelos filósofos alemães. Trata-se, portanto, nessa 
solene e enfadonha construção da história, de encontrar uma série pomposa 
de nomes extravagantes para três categorias que de tão gastas não ousam 
mais aparecer em público com seus nomes verdadeiros. nosso sacra-
mentado autor poderia perfeitamente ter passado do \u201chomem\u201d (p. 20) 
imediatamente ao \u201ceu\u201d (p. 201) ou, melhor ainda, ao \u201cÚnico\u201d (p. 485); mas 
isso teria sido simples demais. além disso, a concorrência acirrada entre 
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os filósofos especulativos alemães obriga cada novo concorrente a fazer 
um estrondeante anúncio histórico para a sua mercadoria.
a \u201cforça do desenvolvimento verdadeiro\u201d, para empregar as palavras 
do Dottore Graziano, \u201cdesenvolve-se do modo mais forte\u201d nas seguintes 
\u201ctransformações\u201d:
Fundamento:
I. realismo.
II. Idealismo.
III. unidade negativa de ambos: \u201cSe\u201d (p. 485).
Primeira nomenclatura:
I. Criança, dependente das coisas (realismo).
II. Adolescente, dependente das ideias (idealismo).
III. Homem \u2013 (como unidade negativa)
 expresso positivamente: possuidor das 
 ideias e das coisas
 expresso negativamente: livre das ideias 
 e das coisas
segunda nomenclatura, histórica:
I. Negro (realismo, criança).
II. Mongol (idealismo, adolescente).
III. Caucasiano (unidade negativa de realismo e idealismo, homem).
terceira nomenclatura, a mais geral:
I. egoísta realista (egoísta no sentido habitual) \u2013 criança, negro.
II. egoísta idealista (abnegado) \u2013 adolescente, mongol.
III. egoísta verdadeiro (o Único) \u2013 homem, caucasiano.
Quarta denominação, histórica. repetição das fases precedentes no interior 
do caucasiano. 
I. Os Antigos. caucasianos negroides \u2013 homens infantis \u2013 pagãos \u2013 de-
pendentes das coisas \u2013 realistas \u2013 mundo.
 Transição (a criança, que descobriu o que havia por detrás das \u201ccoisas 
deste mundo\u201d): sofistas, céticos etc.
II. Os Modernos. caucasianos mongólicos \u2013 homens juvenis \u2013 cristãos \u2013 
dependentes de ideias \u2013 idealistas \u2013 espírito.
1. História pura dos espíritos. O cristianismo como espírito. \u201cO espí-
rito.\u201d 
2. História impura dos espíritos. O espírito em sua relação com os 
outros. \u201cOs possessos.\u201d 
a) Pura história impura dos espíritos.
a) a assombração, o fantasma, o espírito em estado negroide, 
como espírito coisificado e coisa espiritual \u2013 essência objetiva 
para o cristão, o espírito enquanto criança.
(egoísmo)}
Karl Marx e Friedrich Engels
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b) a obsessão, a ideia fixa, o espírito na condição mongol, como 
espiritual no espírito, determinação na consciência, essência 
pensada no cristão \u2013 espírito enquanto adolescente.
B) Impura história impura (histórica) dos espíritos.
a) catolicismo \u2013 Idade Média (negro, criança, realismo etc.).
b) Protestantismo \u2013 tempos modernos em tempos moder-
nos \u2013 (mongol, adolescente, idealismo etc.). no interior do 
protes tantismo podem-se fazer ainda outras subdivisões, 
por exemplo:
1) Filosofia inglesa \u2013 realismo, criança, negro.
2) Filosofia alemã \u2013 idealismo, adolescente, mongol.
3. A Hierarquia \u2013 unidade negativa dos dois termos anteriores do 
ponto de vista mongol-caucasiano. tal unidade aparece sobretudo 
quando a relação histórica se transforma numa relação atualmente 
existente ou quando os opostos são apresentados como existindo 
lado a lado. temos aqui, portanto, dois estágios que coexistem:
a) Os incultos131 \u2013 (maus, bourgeois [1], egoístas no sentido habitual) 
= negros, crianças, católicos, realistas etc.
B) Os cultos (os bons, citoyens [2], os abnegados, os párocos etc.) = 
mongóis, adolescentes, protestantes, idealistas.
esses dois estágios existem um ao lado do outro, donde decorre 
\u201cfacilmente\u201d que os cultos dominem os incultos \u2013 tal é a hierarquia. 
no subsequente curso do desenvolvimento histórico, então:
o não hegeliano surge dos \u201cincultos\u201d,
o hegeliano surge dos \u201ccultos\u201da,
donde se segue que os hegelianos dominam os não hegelianos. 
assim stirner converte a representação especulativa do domínio 
da ideia especulativa na história em representação do domínio dos 
próprios filósofos especulativos. Na hierarquia, a visão da história 
que ele sustentou até aqui \u2013 o domínio da ideia \u2013 converte-se numa 
relação real atualmente existente, o domínio mundial dos ideó-
logos. Isso mostra o quão profundamente stirner mergulhou na 
especulação. Esse domínio dos filósofos especulativos e ideólogos 
desenvolve-se \u2013 para que tudo tenha um bom final, \u201cpois era che-
gado o fim dos tempos\u201d \u2013 nas seguintes nomenclaturas conclusivas:
a) o liberalismo político, dependente das coisas, independente das 
pessoas \u2013 realismo, criança, negro, antiguidade, assombração, 
catolicismo, inculto, sem dono.
[1] burgueses [2] cidadãos
a \u201cO xamã e o filósofo especulativo representam o mais baixo e o mais alto degrau na 
ascensão ao homem interior, o mongol\u201d, p. 453. (n. a.)
A ideologia alemã
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b) o liberalismo social, independente das coisas, dependente 
do espírito, sem objeto \u2013 idealismo, adolescente, mongol, 
modernidade, obsessão, protestantismo, culto, sem posse.
c) o liberalismo humano, sem dono e sem propriedade, isto é, 
sem deus, pois deus é a um só tempo o supremo dono e a 
suprema posse, a hierarquia \u2013 unidade negativa dentro da 
esfera do liberalismo e, enquanto tal, domínio sobre o mundo 
das coisas e das ideias; ao mesmo tempo, o egoísta perfeito 
na superação do egoísmo \u2013 a hierarquia perfeita. ao mesmo 
tempo, ele forma a
transição (adolescente que deu a volta ao mundo dos pensamentos) 
para o 
IV. \u201cEu\u201d \u2013 isto é, o perfeito cristão, o homem perfeito, cau ca-
siano caucásico e egoísta verdadeiro, que \u2013 tal como o cristão, 
que se torna espírito pela suprassunção do antigo mundo do 
espírito \u2013 se torna corporal pela dissolução do reino dos espíri-
tos, adquirindo sine beneficio deliberandi et inventarii [1] a herança 
do idealismo, do adolescente, do mongol, dos modernos, dos 
cristãos, dos possessos, do obsessor, do protestante, do homem 
culto, do hegeliano e dos liberais humanos.
n.B. 1. categorias feuerbachianas, e outras categorias tais como razão, 
coração etc., podem também ser \u201cincluídas episodicamente\u201d, na ocasião 
adequada, a fim de intensificar o brilho dessa figura e de produzir novos 
efeitos. É evidente que também essas categorias são apenas novos disfarces 
do realismo e do idealismo sempre presentes ao longo da obra.
2. O muito devoto são Max, Jacques le bonhomme132,