Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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a base para uma longa diatribe contra demócrito.
essa diatribe caracteriza-se por estar em contradição direta com 
seus fundamentos, isto é, com a confusa e mal traduzida passagem aci-
ma mencionada, e por converter a \u201ctranquilidade da alma\u201d (a tradução 
de stirner para \u3b5\u3c5\u3b4\u3c5µ\u3b9\u3b1 [2], em baixo-alemão Wellmuth) em \u201crecusa do 
mundo\u201d. stirner pensa que demócrito foi um estoico e, decerto, um estoico 
tal como o imaginam o Único e sua consciência vulgar de colegial; ele pen-
[1] de vida íntegra e isenta de crimes139 [2] serenidade, alegria
Karl Marx e Friedrich Engels
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sa que \u201ctoda a atividade de demócrito consiste no esforço em se separar 
do mundo\u201d, \u201cportanto, na recusa do mundo\u201d, e que pode agora refutar os 
estoicos na pessoa de demócrito. Que a vida movimentada e as peregrina-
ções de Demócrito pelo mundo contradigam flagrantemente essa opinião 
de São Max; que a verdadeira fonte que dá acesso à filosofia de Demócrito 
seja aristóteles e não uma meia dúzia de anedotas contadas por diógenes 
Laércio; que é tão falsa a afirmação de que Demócrito rejeitava o mundo 
quanto é verdade que ele foi, ao contrário, um pesquisador empírico da 
natureza e a primeira mente enciclopédica entre os gregos; que a sua quase 
desconhecida ética limite-se a algumas glosas, que se supõe terem sido escritas 
quando ele se encontrava idoso e cansado de suas viagens; que sua ciência 
da natureza é chamada de filosofia apenas per abusum, pois segundo ele o 
átomo, diferentemente de epicuro, não passa de uma hipótese física, um 
recurso necessário para a explicação de fatos, tal como ocorre, no âmbito 
da Química moderna, com as condições de combinações dos elementos 
(dalton, entre outros) \u2013 nada disso tem importância quando se trata de Jacques 
le bonhomme. demócrito tem de ser entendido sob a forma \u201cúnica\u201d; demócrito 
fala de euthymia, logo fala da tranquilidade da alma, logo fala do recolhimento 
em si mesmo, logo fala da recusa do mundo. demócrito é um estoico e 
só difere do faquir indiano que murmura \u201cBrahm\u201d (o certo seria \u201cOm\u201d) 
na medida em que o comparativo difere do superlativo, isto é, \u201capenas se-
gundo o grau\u201d.
dos epicuristas, nosso amigo sabe tanto como dos estoicos, ou seja, sabe 
apenas aquele mínimo exigido de um colegial. ele contrasta a hedoné [1] epi-
curista com a ataraxia dos estoicos e céticos, sem saber que esta ataraxia é 
igualmente encontrada em epicuro e que, além disso, está situada acima da 
hedoné, o que põe por terra toda essa oposição. ele nos conta que os epicuris-
tas \u201climitavam-se a professar uma atitude diante do mundo diversa\u201d da atitude 
dos estoicos; ele deveria nos mostrar um filósofo (não estoico) dos \u201ctempos 
antigos e modernos\u201d que não \u201cse limite\u201d a fazer isso. Por fim, São Max nos 
enriquece com uma nova máxima dos epicuristas: \u201cO mundo deve ser enga-
nado, pois ele é meu inimigo\u201d; até aqui, só se sabia que os epicuristas diziam: 
É necessário desiludir o mundo, sobretudo libertá-lo do medo dos deuses, 
pois o mundo é meu amigo.
Para dar a nosso santo alguma indicação da base real [realen] sobre a qual 
repousa a filosofia de Epicuro, basta mencionar que é neste filósofo que se 
encontra, pela primeira vez, a noção de que o estado repousa num contrato 
recíproco entre os homens, num contrat social (\u3c3\u3c5\u3bd\u3b4\u3b7\u3c7\u3b7[2]).
as considerações de são Max sobre os céticos seguem nesta mesma 
linha, o que fica evidente quando afirma ser a filosofia dos céticos mais ra-
[1] prazer [2] contrato
A ideologia alemã
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dical do que a de epicuro. Os céticos reduziam à aparência a relação teórica 
dos homens às coisas e, na prática, deixavam tudo como anteriormente, 
na medida em que se guiavam por essa aparência da mesma forma que 
outros se guiavam pela realidade; davam somente um outro nome à coisa. 
Já epicuro, ao contrário, era o verdadeiro iluminista radical da antiguida-
de, aquele que atacou abertamente a religião antiga e que deu origem ao 
ateísmo dos romanos, tanto quanto esse ateísmo existiu. Por essa razão, 
Lucrécio também o elogia como o primeiro herói a derrubar os deuses e a 
espezinhar a religião; por essa razão, em meio a todos os Padres da Igreja, 
de Plutarco até Lutero, epicuro teve sempre a reputação de ser o porco, o 
filósofo ateísta par excellence [1], motivo pelo qual clemente de alexandria 
diz que, quando Paulo brada contra a filosofia, ele tem em mente apenas a 
filosofia epicurista (Stromatum, lib. 1, [cap. xI], p. 295 da edição de colônia, 
1958140). Vemos, assim, como esse ateísta declarado se mostra \u201castucioso, 
pérfido\u201d e \u201cesperto\u201d no seu modo de se relacionar com o mundo e em atacar 
diretamente a religião de seu tempo, enquanto os estoicos adaptavam a velha 
religião à maneira especulativa e os céticos lançavam mão do seu conceito de 
\u201caparência\u201d como pretexto para que todo juízo emitido fosse acompanhado 
de uma reservatio mentalis[2].
Assim, de acordo com Stirner, os estoicos finalmente chegam ao \u201cdespre-
zo\u201d do mundo (p. 30), o de epicuro atinge \u201ca mesma sabedoria prática dos 
estoicos\u201d (p. 32) e os céticos vão até o ponto de \u201cdeixar o mundo ficar como 
está e não se preocupar com ele\u201d. Portanto, de acordo com stirner, todos 
os três conduzem a uma atitude de indiferença em relação ao mundo, ao 
\u201cdesprezo pelo mundo\u201d (p. 485). Muito antes dele, Hegel já expressara essa 
ideia da seguinte forma: o estoicismo, o ceticismo e o epicurismo \u201cvisavam a 
tornar o espírito indiferente a tudo o que a realidade tem a oferecer\u201d (Filosofia 
da história, p. 327).
\u201cÉ claro que os antigos tinham ideias\u201d, afirma São Max, resumindo sua 
crítica ao antigo mundo das ideias, \u201ccontudo eles não conheciam a ideia\u201d 
(p. 30). com relação a isso, \u201cdeve-se recordar o que fora dito acima sobre 
nossas ideias infantis\u201d (ibid.). A história da filosofia antiga tem de se adequar 
ao modelo de stirner. Para que os gregos não saiam de seu papel de crian-
ças, não se permite que aristóteles tenha vivido e que nele se encontrem as 
noções de intelecto em si e para si (\u3b7 \u3bd\u3bf\u3b7\u3c3\u3b9\u3b6 \u3b7 \u3c7\u3b1\u3b4 \u3b1\u3c5\u3c4\u3b7\u3bd), de razão que se 
pensa a si mesma (\u391\u3c5\u3c4\u3bf\u3bd \u3b4\u3b5 \u3bd\u3bf\u3b5\u3b9 \u3bf \u3bd\u3bf\u3c5\u3b6) e de intelecto que pensa a si mesmo 
(\u3b7, \u3bd\u3bf\u3b7\u3c3\u3b9\u3b6 \u3c4\u3b7\u3b6 \u3bd\u3bf\u3b7\u3c3\u3b5\u3c9\u3b6); em suma, sua Metafísica e o terceiro livro de sua 
Psicologia141 não têm direito a ter existido.
do mesmo modo como são Max recorda, aqui, \u201co que fora dito acima 
sobre nossos anos de infância\u201d, ele poderia ter dito, mais atrás, quando tratou 
[1] por excelência [2] reserva mental
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de \u201cnossos anos de infância\u201d: veremos mais à frente o que será dito sobre os 
antigos e os negros e o que não será dito sobre aristóteles.
Para apreciar o verdadeiro significado dos últimos filósofos antigos 
quando da dissolução da antiguidade, Jacques le bonhomme teria apenas que 
observar as condições reais de vida de seus adeptos sob o domínio mundial 
de roma. em autores como Luciano, entre outros, ele poderia encontrar uma 
descrição minuciosa de como o povo os olhava como bufões públicos, e como 
os capitalistas romanos, procônsules etc. os contratavam como bobos da corte 
encarregados de seu entretenimento, de forma que, depois de disputarem 
aos escravos alguns ossos e migalhas de pão espalhados sobre a mesa e de 
receberem um vinho azedo que lhes era reservado, eles se punham a divertir 
o grande senhor e seus convivas com frases engraçadas sobre ataraxia, afasia, 
hedoné etca.
aliás, se nosso bravo homem pretendia reduzir a história da antiguidade 
à história da filosofia antiga, então é evidente que ele tinha de dissolver os 
estoicos, os epicuristas e os céticos nos neoplatônicos, cuja filosofia não é 
senão uma fantástica combinação das doutrinas estoica, epicurista e cética 
com o conteúdo da filosofia de Platão e Aristóteles. Em vez disso, ele dissolve 
estas doutrinas diretamente no cristianismob.
Não foi Stirner quem deixou a filosofia grega \u201catrás de si\u201d, mas foi a 
filosofia grega quem