Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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crias a Ti mesmo, pois tu não 
pensas antes de pensares um pensamento\u201d \u2013 quer dizer \u2013 \u201cantes de teres esse 
pensamento. não é unicamente o teu canto que faz de ti um cantor e as tuas 
palavras que fazem de ti um homem falante? do mesmo modo, é apenas a 
criação do espiritual que faz de ti espírito.\u201d
nosso santo escamoteador supõe que o espírito, ao produzir o espiritual, 
o faz para chegar à conclusão de que ele produz a si mesmo como espírito 
Karl Marx e Friedrich Engels
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e, por outro lado, ele o supõe como espírito para poder conduzi-lo às suas 
criações espirituais (que, \u201cde acordo com o mito, reproduzem-se por si mes-
mas\u201d e se tornam espíritos). até aqui, tem-se a velha conhecida fraseologia 
ortodoxo-hegeliana. a exposição verdadeiramente \u201cúnica\u201d daquilo que são 
Max quer dizer só começa com o exemplo que ele nos apresenta. com efeito, 
se Jacques le bonhomme não pode ir além disso, se nem mesmo o \u201cse\u201d ou o 
\u201cIsto\u201d são capazes de fazer flutuar este barco encalhado, \u201cStirner\u201d pede so-
corro ao seu terceiro servo, o \u201ctu\u201d, aquele que nunca o deixa na lama e com 
o qual ele pode contar nos casos de extrema necessidade. este \u201ctu\u201d é um 
indivíduo que já havíamos encontrado anteriormente, um servo piedoso e 
crédulo144 que testemunhamos a enfrentar chuvas e trovoadas, um trabalha-
dor nas vinhas de seu senhor, um homem que não se deixa amedrontar por 
nada \u2013 ele é, numa palavra: Szeligaa. Quando \u201cstirner\u201d encontra as maio res 
dificuldades em sua exposição, ele grita: Szeliga, socorro! e o fiel Eckart145 
szeliga imediatamente encaixa os ombros sob as rodas e ergue o carro para 
fora do atoleiro. teremos ainda muito que dizer sobre a relação entre são 
Max e szeliga.
trata-se do espírito que cria a si mesmo a partir do nada, portanto, trata-se 
do nada que, do nada, faz de si mesmo espírito. É assim que são Max deriva 
de szeliga a criação do espírito de szeliga. e a quem, senão a szeliga, poderia 
stirner ordenar que tomasse o lugar do nada, da maneira acima indicada? 
a quem, senão a szeliga, já imensamente satisfeito por lhe terem permitido 
desempenhar um papel ativo, poder-se-ia impor uma tal escamoteação? O 
que são Max deveria provar é não que um determinado \u201ctu\u201d, isto é, o szeliga, 
torna-se pensante, falante, cantante, quando começa a pensar, falar e cantar, 
mas sim deveria provar que: o pensador cria a si mesmo a partir do nada desde 
o momento em que começa a pensar; o cantor cria a si mesmo a partir do nada 
desde o momento em que começa a cantar etc. \u2013 aliás, poderíamos até mesmo 
dizer que não são o pensador e o cantor, mas sim o pensamento e o canto, 
enquanto sujeitos, que criam a si mesmos a partir do nada, desde o momento 
em que começam a pensar e a cantar. em vez disso, diz-se que \u201cstirner coloca 
somente a mera e simples reflexão\u201d e a afirmação \u201cextre mamente popular\u201d 
(cf. Wigand, p. 156) de que szeliga desenvolve uma de suas qualidades desde 
o momento em que a desenvolve. não há, decerto, nada \u201ca admirar\u201d no fato 
de que São Max não chega sequer a \u201ccolocar\u201d \u201csimples reflexões como essas\u201d, 
mas sim as expressa de modo falso a fim de poder provar uma sentença muito 
mais falsa com a ajuda da lógica mais falsa do mundo.
Longe de ser verdade que \u201ca partir do nada\u201d eu faço a mim mesmo, por 
exemplo, como \u201cfalante\u201d, diríamos que o nada que aqui serve de base é um 
a cf. A sagrada família ou crítica da Crítica crítica, onde já foram celebrados os primeiros 
feitos heroicos deste homem de deus. [A sagrada família. são Paulo, Boitempo, 2003, p. 
69-83.] (n. a.)
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algo bastante diversificado, o indivíduo real, seus órgãos da fala, um estágio 
determinado do desenvolvimento físico, a língua e os dialetos existentes, 
ouvidos capazes de ouvir e um meio ambiente humano que produz sons 
audíveis etc. etc. Portanto, na formação de uma qualidade, algo é criado de 
algo por meio de algo, e nunca tal como na lógica hegeliana, em que algo é 
criado do nada por meio de nada e para nada146.
Agora que São Max tem em suas mãos o seu fiel Szeliga, a viagem pros-
segue de vento em popa. Veremos como, por meio de seu \u201ctu\u201d, ele volta a 
transformar o espírito em adolescente, do mesmo modo como anteriormente 
transformara o adolescente em espírito; aqui reencontraremos, quase que 
textualmente, toda a história do adolescente, apenas camuflada com algumas 
alterações \u2013 do mesmo modo que o \u201cimensamente grande reino dos espíritos\u201d 
da p. 37 não era senão o \u201creino do espírito\u201d que o espírito do adolescente 
tinha \u201ca intenção\u201d (p. 17) de fundar e desenvolver.
\u201cAssim como tu te distingues do homem pensante, cantante, falante, assim 
também não é menos verdade que te distingues do espírito e tens a clara 
sensação de que és também alguma coisa diferente do espírito. entretanto, 
assim como pode facilmente ocorrer que, no entusiasmo do pensar, faltem 
ao eu pensante a audição e a visão, assim também tomou conta de ti o en-
tusiasmo do espírito, e agora tu anseias com todas as forças por te tornares 
plenamente espírito e por te absorveres no espírito. O espírito é teu ideal, 
o inatingido, o que está além: espírito significa Teu \u2013 Deus, \u2018Deus é espíri-
to\u2019\u201d147 [...] sentes ciúme de ti mesmo, tu que não consegues te ver livre de 
um resíduo do não espiritual. em vez de dizer: eu sou mais do que espírito, 
dizes pesarosamente: eu sou menos do que espírito, e espírito que só posso 
conceber, espírito puro, ou o espírito que não é nada senão espírito, mas eu 
não sou esse espírito, e porque Eu não o sou, significa que outro o é, que ele existe 
como um outro, a quem chamo de \u2018deus\u2019.\u201d
depois de termos nos ocupado, previamente e por um longo tempo, com 
o truque de criar algo a partir do nada, agora chegamos, repentinamente e 
muito \u201cnaturalmente\u201d, a um indivíduo que é também algo diferente de um 
espírito, portanto é algo, e quer se tornar espírito e, mais ainda, espírito puro, 
ou seja, nada. com esse problema muito mais fácil (extrair o nada a partir de 
algo), temos novamente, desde já, a história inteira do adolescente, a quem 
\u201cé necessário procurar o espírito perfeito\u201d, e precisamos, agora, apenas re-
petir as velhas fraseologias das páginas 17-8 para que toda dificuldade seja 
superada. Particularmente quando se tem um criado tão obediente e crédulo 
quanto szeliga, a quem \u201cstirner\u201d pode impor a ideia de que assim como a ele, 
stirner, \u201cpode facilmente\u201d (!) \u201cocorrer que, no entusiasmo do pensar, faltem\u201d 
\u201ca audição e a visão\u201d, assim também ele, szeliga, foi tomado pelo \u201centusiasmo 
do espírito\u201d, e ele, szeliga, \u201canseia agora com todas as forças por se tornar 
espírito\u201d, em vez de adquirir espírito, quer dizer, ele agora tem de desem-
penhar o papel do adolescente da p. 18. szeliga crê nisso e obedece com 
temor e tremor; ele obedece quando são Max troveja: O espírito é teu ideal \u2013 
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teu deus. tu me fazes isto, tu me fazes aquilo, agora \u201ctu sentes ciúme\u201d, 
agora \u201ctu dizes\u201d, agora \u201ctu podes conceber\u201d etc. Quando \u201cstirner\u201d impõe 
a ele a ideia de que \u201co espírito puro é um outro, pois ele\u201d (szeliga) \u201cnão o 
é\u201d, então é verdade que apenas szeliga está em condições de nele acreditar 
e de entoar repetidamente todo esse absurdo palavra por palavra. aliás, o 
método de que Jacques le bonhomme se serve para sistematizar esse absurdo 
já foi minuciosamente analisado quando tratamos do adolescente. Porque 
tu tens a clara sensação de que és também algo diferente de um matemático, 
anseias então por te tornares plenamente um matemático, por te absorveres 
na matemática, o matemático é Teu ideal, o matemático significa Teu \u2013 Deus... 
tu dizes pesarosamente: eu sou menos do que matemático, e posso apenas 
conceber o matemático, e porque Eu não o sou, significa que outro o é, que 
ele existe como um outro, a quem chamo de \u201cdeus\u201d. alguém no lugar de 
szeliga diria: arago.
\u201cAgora, finalmente, depois que\u201d provamos