Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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ser a proposição de Stirner uma 
repetição do \u201cadolescente\u201d, \u201cpode-se declarar\u201d que ele, \u201cna verdade, desde 
sempre não se propôs senão a tarefa\u201d de identificar o espírito do ascetismo 
cristão com o espírito em geral, bem como identificar a frívola realeza do 
espírito, por exemplo, do século xVIII com a ausência de espírito própria do 
mundo cristão.
Portanto, a necessidade de que o espírito se encontre no além, isto é, de 
que ele seja Deus, não se explica, como Stirner o afirma, \u201cporque Eu e espírito 
são dois nomes diferentes para coisas diferentes, porque eu não sou espírito 
e o espírito não sou eu\u201d (p. 42), mas se explica por aquele \u201centusiasmo do 
espírito\u201d que é atribuído a szeliga sem nenhum fundamento e que faz dele 
um cético, isto é, faz dele alguém que quer tornar-se deus (espírito puro) 
e, por não ser capaz disso, coloca deus para fora de si mesmo. a questão, 
porém, é que o espírito devia primeiramente criar a si mesmo a partir do nada 
para, então, criar espíritos a partir de si mesmo. em vez disso, szeliga agora 
produz deus (o único espírito que aparece aqui) \u2013 não porque ele, szeliga, 
seja o espírito, mas porque ele, szeliga, é o espírito imperfeito, o espírito não 
espiritual e, portanto, ao mesmo tempo, o não espírito. Mas são Max não diz 
uma palavra sequer sobre como surge a representação cristã do espírito como 
deus; apesar de que, agora, isso não representa mais nenhuma proeza tão 
grande assim; ele pressupõe a sua existência a fim de explicá-la.
a história da criação do espírito, \u201cna verdade, desde sempre não se propôs 
senão a tarefa\u201d de colocar o estômago de stirner entre as estrelas.
colocá-lo para fora de nós mesmos; ele não era nós, e por isso não podíamos 
concebê-lo como existente a não ser fora de nós mesmos, para além de nós, 
no além.\u201d (p. 43)
\u201cPrecisamente porque não somos o espí-
rito que habita em nós, por essa mesma 
razão tínhamos de
\u201cPrecisamente porque não somos o estô-
mago que habita em nós, por essa mesma 
razão tínhamos de 
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[1] como profundo conhecedor do assunto, magistralmente
a questão era que o espírito devia primeiramente criar a si mesmo para, 
então, criar algo diferente de si mesmo a partir de si mesmo; a questão era: 
o que é este algo diferente? essa pergunta, em vez de ser respondida, era 
distorcida, após as \u201cvárias transformações\u201d acima mencionadas, nas seguintes 
novas questões:
\u201cO espírito é algo diferente do eu. Mas o que é este algo diferente?\u201d (p. 45)
agora, portanto, pergunta-se: O que é o espírito que não seja o eu? ao 
passo que a pergunta original era: o que é o espírito, graças à sua criação a 
partir do nada, que não seja ele mesmo? com isso, são Max salta à próxima 
\u201ctransformação\u201d.
B) Os possessos (História impura dos espíritos)
sem se dar conta disso, são Max limitou-se, até aqui, a nos instruir na arte de 
ver espíritos, tomando o mundo antigo e o mundo moderno somente como o 
\u201ccorpo aparente de um espírito\u201d, como uma aparição fantasmagórica na qual 
ele só vislumbra lutas entre espíritos. agora, ele nos fornece, conscientemente 
e ex professo [1], um manual de instruções para se ver fantasmas.
Manual de instruções para ver espíritos. Primeiramente, deve-se ser trans-
formado no mais tolo dos pobres-diabos, isto é, deve-se imaginar a si mes-
mo como szeliga, e então dizer a si mesmo, assim como são Max diz a este 
szeliga: \u201cOlha para o mundo ao teu redor e diz para ti mesmo se um espírito 
não te observa de todos os lugares!\u201d. Basta que alguém chegue a imaginar 
isso, e então os espíritos \u201cfacilmente\u201d surgirão por si mesmos; na \u201cflor\u201d, vê-
-se apenas o \u201ccriador\u201d, nas montanhas, \u201cum espírito de elevação\u201d, na água, 
\u201cum espírito da saudade\u201d ou a saudade do espírito, e ouvem-se \u201cmilhões 
de espíritos a falar por meio dos homens\u201d. se alguém atingiu esse estágio, 
este alguém pode exclamar, juntamente com stirner: \u201cSim, os fantasmas 
assombram pelo mundo inteiro\u201d, com o que \u201cnão é difícil avançar até o 
ponto\u201d (p. 93) em que se faz a seguinte exclamação: \u201capenas no mundo? 
não, o próprio mundo é, ele mesmo, um fantasma\u201d (deves dizer sim, sim, 
não, não; qualquer outra coisa será indesejável148, isto é, uma transição 
lógica), \u201cé o errante corpo aparente de um espírito, uma assombração\u201d. em 
seguida, \u201colha\u201d firmemente para \u201cperto de ti ou à distância e verás que te 
encontras circundado por um mundo fantasmagórico [...] tu vês espíritos\u201d. 
se és uma pessoa comum, podes te considerar satisfeito com isso; mas, se 
pretendes te comparar com szeliga, então podes olhar também para dentro 
de ti mesmo e \u201cnão te surpreendas\u201d se, nestas circunstâncias e das alturas 
da szeligaidade [Szeligaität], descobrires que também \u201co teu espírito é um 
fantasma que assombra o teu corpo\u201d, que tu mesmo és um fantasma que 
Karl Marx e Friedrich Engels
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\u201cespera pela salvação, ou seja, és um espírito\u201d. com isso, chegaste tão longe 
a ponto de poderes ver \u201cespíritos\u201d e \u201cfantasmas\u201d em \u201ctodos\u201d os homens, e 
assim a arte de ver espíritos \u201catinge seu objetivo último\u201d (p. 46-7).
a base desse manual, apenas expressa de uma forma mais correta, 
encontra-se em Hegel, entre outras obras, na História da filosofia, III, p. 124-5.
são Max acredita tanto em seu próprio manual que ele mesmo acaba por 
se converter em Szeliga e afirma:
\u201cdesde que o Verbo se fez carne149, o mundo está espiritualizado, enfeitiçado, 
uma assombração.\u201d (p. 47)
\u201cstirner\u201d \u201cvê espíritos\u201d.
são Max pretende nos dar uma fenomenologia do espírito cristão e, de 
acordo com seu costume, agarra-se a um único aspecto apenas. Para os cris-
tãos, o mundo é não apenas espiritualizado, mas também é desespiritualizado, 
tal como Hegel, por exemplo, admite bastante corretamente na passagem 
mencionada, colocando os dois aspectos em relação um com o outro, o que 
são Max também deveria ter feito se quisesse proceder historicamente. 
como contrapostos à desespiritualização do mundo na consciência cristã, 
os antigos, \u201cque viam deuses por toda parte\u201d, podem com igual razão ser 
concebidos como os espiritualizadores do mundo \u2013 uma concepção que nosso 
santo dialético rejeita com a fleumática advertência: \u201cOs deuses, meu caro 
homem moderno, não são espíritos\u201d (p. 47). O devoto Max reconhece apenas 
o espírito santo como espírito.
Mas, mesmo que ele nos tivesse dado essa fenomenologia (que, depois de 
Hegel, aliás, é supérflua), ele ainda não nos teria dado nada. A perspectiva 
a partir da qual as pessoas se contentam com tais histórias de espíritos é, ela 
mesma, uma perspectiva religiosa, porque as pessoas situadas nessa pers-
pectiva se tranquilizam com a religião, consideram-na como causa sui [1] (pois 
\u201ca autoconsciência\u201d e \u201co homem\u201d são ainda religiosos), em vez de esclarecê-
-las a partir das condições empíricas e indicar como determinadas condições 
indus triais e de intercâmbio estão necessariamente ligadas a uma determinada 
forma de sociedade, portanto a uma determinada forma de estado e, por 
conse guinte, a uma determinada forma de consciência religio sa. se stirner 
tivesse olhado para a história real da Idade Média, ele poderia ter encontrado 
a razão pela qual a representação cristã do mundo na Idade Média assumiu 
precisamente aquela forma, e como pôde acontecer que ela tenha passado a 
uma forma diferente; ele poderia ter descoberto que \u201co cristianismo\u201d não tem 
absolutamente história alguma e que todas as diferentes formas nas quais foi 
concebido em diferentes épocas não eram \u201cautodeterminações\u201d e \u201cdesenvol-
vimentos ulteriores\u201d \u201cdo espírito religioso\u201d, mas sim efeitos de causas intei-
ramente empíricas, livres de qualquer influência do espírito religioso. 
[1] causa de si mesma
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Como Stirner \u201cnão vai sem dificuldades\u201d (p. 45), pode-se, antes de 
seguirmos em frente com as visões de espíritos, dizer desde já que as vá-
rias \u201ctransformações\u201d dos homens de stirner