Karl Marx, A Ideologia Alemã.
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Karl Marx, A Ideologia Alemã.


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de desenvolvimento da Crítica, e nos oferece como 
retruque a uma tal \u2018frívola autoapoteose\u2019 o seguinte pequeno tratado escolástico: 
\u2018Por que a concepção da Virgem Maria etc. etc.\u2019\u201d (Wigand\u2019s Vierteljahrsschrift, 
p. 142-3). N\u2019A sagrada família (p. 150-63)6\u2009 o leitor pode encontrar uma seção 
inteira dedicada à autoapologia de Bruno Bauer, em que não se encontra infe-
lizmente nenhum vestígio do referido pequeno tratado escolástico, não sendo 
este, portanto, de modo algum oferecido como réplica à autoapologia de Bruno 
Bauer, bem ao contrário do que imagina o resenhista da Vestfália e daquilo 
que o serviçal Bruno Bauer parcialmente copia, até mesmo entre aspas, como se 
fossem citações d\u2019A sagrada família. O breve tratado se encontra noutra seção 
e noutro contexto (Ver A sagrada família, p. 164 e 1657\u2009). Qual a importância 
disso é algo que o próprio leitor poderá atestar e, então, poderá admirar, uma 
vez mais, a \u201cpura\u201d perspicácia do \u201claborioso\u201d crítico.
Por fim, exclama o \u201claborioso\u201d crítico: \u201cFoi com isso (quer dizer, com as 
citações que Bruno Bauer toma de empréstimo do Westphälische Dampfboot e 
imputa sorrateiramente aos autores d\u2019A sagrada família) que Bruno Bauer na-
turalmente teve de lutar com braveza, elevando a Crítica à razão. Marx nos 
dá, na verdade, uma peça em que ele mesmo entra em cena, ao final, como o 
mais divertido dos comediantes\u201d (Wigand\u2019s Vierteljahrsschrift, p. 143). Para 
entender este \u201cna verdade\u201d, deve-se saber que o resenhista da Vestfália, para 
quem Bruno Bauer trabalha como copista, ditou para seu crítico e laborioso 
escriba as seguintes palavras, ao pé da letra: \u201cO drama histórico-mundial 
(quer dizer, a luta da crítica baueriana contra a massa) dilui-se, sem muito 
esforço, na mais divertida comédia\u201d (Westphälische Dampfboot, p. 213). Neste 
momento, o desditoso copista é assaltado pela ideia de que trans crever seus 
próprios juízos é algo que está acima de suas forças. \u201cEm verdade!\u201d \u2013 escreve, 
interrompendo o ditado do resenhista da Vestfália \u2013 \u201cEm verdade (...) Marx 
(...) o divertido comediante!\u201d, e enxuga, então, o suor frio de sua testa.
Ao buscar refúgio na mais desajeitada escamoteação, no mais deprimente 
truque de prestidigitação, Bruno Bauer acaba por confirmar, em última ins-
tância, a sentença de morte que Engels e Marx lançaram sobre ele n\u2019A sagra da 
família.
Página 15 do manuscrito \u201cFeuerbach e História\u201d, de Marx e 
Engels. À direita, desenho de Engels.
29
KaRl maRx \u2013 FRiedRiCh engelS
FeueRBaCh e hiSTóRia
RaSCunhoS e anoTaçõeS
(Do fim de novembro de 1845 a meados de abril de 1846)
[Rascunho das páginas 1 a 29, faltando o intervalo entre as pá-
ginas 3 e 7. Originalmente concebido como parte de um artigo 
intitulado: \u201cCrítica da \u2018Caracterização de Ludwig Feuerbach\u2019, 
de Bruno Bauer\u201d.]8\u2009
a\u2009Não nos daremos, naturalmente, ao trabalho de esclarecer a nossos sábios 
filósofos que eles não fizeram a \u201clibertação\u201d do \u201chomem\u201db avançar um úni-
co passo ao terem reduzido a filosofia, a teologia, a substância e todo esse 
lixo à \u201cautoconsciência\u201d, e ao terem libertado o \u201chomem\u201dc\u2009 da dominação 
dessas fraseologias, dominação que nunca o manteve escravizado. Nem 
lhes explicaremos que só é possível conquistar a libertação real [wirkliche 
Befreiung] no mundo real e pelo emprego de meios reais9; que a escravidão 
não pode ser superada10 sem a máquina a vapor e a Mule-Jenny11, nem a 
servidão sem a melhora da agricultura, e que, em geral, não é possível li-
bertar os homens enquanto estes forem incapazes de obter alimentação e 
bebida, habitação e vestimenta, em qualidade e quantidade adequadas. A 
\u201clibertação\u201d é um ato histórico e não um ato de pensamento, e é ocasionada 
por condições históricas, pelas con[dições] da indústria, do co[mércio], [da 
agricul]tura, do inter[câmbio] [...] e então, posteriormente, conforme suas 
diferentes fases de desenvolvimento, o absurdo da substância, do sujeito, 
da autoconsciência e da crítica pura, assim como o absurdo religioso e teo-
lógico, são novamente eliminados quando se encontram suficientemente 
desenvolvidos.d É claro que na Alemanha, um país onde ocorre apenas 
um desenvolvimento histórico trivial, esses desenvolvimentos intelectuais, 
a Feuerbach. (a. m.)
b Libertação filosófica e libertação real. O homem. O Único. o Indivíduo. (a. m.)
c Condições geológicas, hidrográficas etc. O corpo humano. A necessidade e o tra-
balho. (a. m.)
d Fraseologia e movimento real. (a. m.)
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Karl Marx e Friedrich Engels
essas trivialidades glorificadas e ineficazes, servem naturalmente como um 
substituto para a falta de desenvolvimento histórico; enraízam-se e têm de 
ser combatidos.a Mas essa luta tem importância meramente localb.12
[...] na realidade, e para o materialista prático, isto é, para o comunista, 
trata-se de revolucionar o mundo, de enfrentar e de transformar pratica-
mente o estado de coisas por ele encontrado.c Se, em certos momentos, 
encontram-se em Feuerbach pontos de vista desse tipo, eles não vão além 
de intuições isoladas e têm sobre sua intuição geral muito pouca influência 
para que se possa considerá-los como algo mais do que embriões capazes 
de desenvolvimento. A \u201cconcepção\u201dd feuerbachiana do mundo sensívele 
limita-se, por um lado, à mera contemplação deste último e, por outro lado, 
à mera sensação; ele diz \u201co homem\u201d em vez de os \u201chomens históricos reais\u201d. 
\u201cO homem\u201d é, na realidade, \u201co alemão\u201d. No primeiro caso, na contemplação 
do mundo sensível, ele se choca necessariamente com coisas que contradi-
zem sua consciência e seu sentimento, que perturbam a harmonia, por ele 
pressuposta, de todas as partes do mundo sensível e sobretudo do homem 
com a natureza.f Para remover essas coisas, ele tem, portanto, que buscar 
refúgio numa dupla contemplação: uma contemplação profana, que capta 
somente o que é \u201cpalpável\u201d, e uma contemplação mais elevada, filosófica, que 
capta a \u201cverdadeira essência\u201d das coisas. Ele não vê como o mundo sensível 
que o rodeia não é uma coisa dada imediatamente por toda a eternidade e 
sempre igual a si mesma, mas o produto da indústria e do estado de coisas 
da sociedade, e isso precisamente no sentido de que é um produto histórico, 
o resultado da atividade de toda uma série de geraçõesg, que, cada uma 
delas sobre os ombros da precedente, desenvolveram sua indústria e seu 
comércio e modificaram sua ordem social de acordo com as necessidades 
alteradas. Mesmo os objetos da mais simples \u201ccerteza sensível\u201d são dados 
a Feuerbach apenas por meio do desenvolvimento social, da indústria e 
a A importância da fraseologia para a Alemanha. (a. m.)
b é luta que não tem significado histórico geral, mas apenas local, uma luta que não traz 
resultados novos para a massa de homens mais do que a luta da civilização contra a 
barbárie. (v. m.)
 A linguagem é a linguagem da re[alidade]. (a. m.)
c Feuerbach. (a. m.)
d \u201cconcepção\u201d teórica. (v. m.)
e O sensível. (v. m.)
f n. B. O erro de Feuerbach não está em subordinar o que é imediatamente palpável, a 
aparência sensível, à realidade sensível constatada por um exame mais rigoroso dos 
fatos sensíveis; está, ao contrário, em que ele, em última instância, não consegue lidar 
com o mundo sensível sem considerá-lo com os \u201colhos\u201d, isto é, através dos \u201cóculos\u201d 
do filósofo. (a. m.)
g que ela é, em cada época histórica, o resultado da atividade de toda uma série de 
gerações. (v. m.)
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A ideologia alemã
do intercâmbio comercial. Como se sabe, a cerejeira, como quase todas as 
árvores frutíferas, foi transplantada para nossa região pelo comércio, há 
apenas alguns séculos e, portanto, foi dada à \u201ccerteza sensível\u201d de Feuerbach 
apenas mediante essa ação de uma sociedade determinada numa determi-
nada época.a Aliás, nessa concepção das coisas tal como realmente são e tal 
como se deram, todo profundo problema filosófico é simplesmente dissol-
vido num fato empírico,