LIVRO - Um toque de classicos - Durkheim Marx Weber
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podido 
proporcionar um terreno favorável à eclosão da arte grega.
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NECESSIDADES: PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO 
 
Na busca de atender às suas carências, os seres humanos produzem seus meios de 
vida. É nessa atividade que recriam a si próprios e reproduzem sua espécie num processo que 
é continuamente transformado pela ação das sucessivas gerações. A premissa da análise 
marxista da sociedade é, portanto, a existência de seres humanos que, por meio da interação 
com a natureza e com outros indivíduos, dão origem à sua vida material. 
 
Um primeiro pressuposto de toda existência humana e, portanto, de toda história (...) 
[é] que os homens devem estar em condições de poder viver a fim de \u201cfazer a 
história\u201d. Mas, para viver, é necessário, antes de mais nada, beber, comer, ter um 
teto onde se abrigar, vestir-se etc. O primeiro fato histórico é, pois, a produção dos 
meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida 
material; trata-se de um fato histórico; de uma condição fundamental de toda a 
história, que é necessário, tanto hoje como há milhares de anos, executar, dia a dia, 
hora a hora, a fim de manter os homens vivos.
18
 
 
 
16
 MARX. Miseria de la filosofía, p. 104. 
17
 MARX. Introdução à crítica da economia política; Crítica à economia política, p. 239-240. 
18
 MARX; ENGELS. A ideologia alemã, p. 33. 
Todos os seres vivos devem refazer suas energias a fim de assegurar sua 
existência e a de sua espécie. Todavia, ao interagir com a natureza, os animais atuam de forma 
inconsciente, não-cumulativa, somente em resposta às suas privações imediatas, e tendo como 
limite as condições naturais. 
 
É certo que também o animal produz. Constrói para si um ninho, casas, como as 
abelhas, os castores, as formigas etc. Mas produz unicamente o que necessita 
imediatamente para si ou sua prole (...) produz unicamente por força de uma 
necessidade física imediata, enquanto o homem produz inclusive livre da 
necessidade física e só produz realmente liberado dela; o animal produz somente a si 
mesmo, enquanto o homem reproduz a natureza inteira; o produto do animal 
pertence imediatamente a seu corpo físico, enquanto o homem enfrenta-se 
livremente com seu produto. O animal produz unicamente segundo a necessidade e a 
medida da espécie a que pertence, enquanto o homem sabe produzir segundo a 
medida de qualquer espécie e sabe sempre impor ao objeto a medida que lhe é 
inerente; por isso o homem cria também segundo as leis da beleza.
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Ao produzir para prover-se do que precisam, os seres humanos procuram dominar 
as circunstâncias naturais, e podem modificar a fauna e a flora.
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 Para isto, organizam-se 
socialmente, estabelecem relações sociais. O ato de produzir gera também novas 
necessidades, que não são, por conseguinte, simples exigências naturais ou físicas, mas 
produtos da existência social. 
 
A fome é a fome, mas a fome que se satisfaz com carne cozinhada, comida com faca 
e garfo, não é a mesma fome que come a carne crua, servindo-se das mãos, das 
unhas, dos dentes. Por conseguinte, a produção determina não só o objeto do 
consumo, mas também o modo de consumo, e não só de forma objetiva, mas 
também subjetiva. Logo, a produção cria o consumidor.
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Logo, \u201ca própria quantidade das supostas necessidades naturais, como o modo de 
satisfazê-las, é um produto histórico que depende em grande parte do grau de civilização 
alcançado\u201d.22 Na busca de controlar as condições naturais, os homens criam novos objetos os 
quais não só se incorporam ao ambiente, modificando-o, como passam às próximas gerações. 
Os resultados da atividade e da experiência humanas que se objetivam são acumulados e 
transmitidos por meio da cultura. É por meio da ação produtiva que o homem humaniza a 
natureza e também a si mesmo. O processo de produção e reprodução da vida através do 
trabalho é, para Marx, a atividade humana básica, a partir da qual se constitui a \u201chistória dos 
 
19
 MARX. Manuscritos: economía y filosofía, p. 112. 
20
 Isto nem sempre se dá de maneira adequada, ou tendo em vista os interesses coletivos ou da espécie, podendo 
haver destruição dos recursos naturais. 
21
 MARX. Introdução à crítica da economia política, p. 220. 
22
 MARX. O capital, v. I, p. 178. 
homens\u201d, é para ele que se volta o materialismo histórico, método de análise da vida 
econômica, social, política, intelectual. 
 
FORÇAS PRODUTIVAS E RELAÇÕES SOCIAIS DE PRODUÇÃO 
 
Marx nunca se refere à produção em geral, mas à \u201cprodução num estádio 
determinado do desenvolvimento social [que] é a produção dos indivíduos vivendo em 
sociedade\u201d. Embora a sociedade seja \u201co produto da ação recíproca dos homens\u201d, ela não é 
uma obra que esses realizam de acordo com seus desejos particulares. A estrutura de uma 
sociedade depende do estado de desenvolvimento de suas forças produtivas e das relações 
sociais de produção que lhes são correspondentes. Tais conceitos são interdependentes e têm, 
antes de mais nada, uma finalidade analítica, de modo a tornar inteligível a realidade. 
A ação dos indivíduos sobre a natureza é expressa no conceito de forças 
produtivas - o qual busca apreender o modo como aqueles obtêm, em determinados 
momentos, os bens de que necessitam e, para isto, em que grau desenvolveram sua tecnologia, 
processos e modos de cooperação, a divisão técnica do trabalho, habilidades e conhecimentos 
utilizados na produção, a qualidade dos instrumentos e as matérias-primas de que dispõem. 
Esse conceito pretende, pois, exprimir o grau de domínio humano sobre a natureza, embora 
Marx assinale 
 
que os homens não são livres árbitros de suas forças produtivas - base de toda sua 
história - pois toda força produtiva é uma força adquirida, produto de uma atividade 
anterior. Portanto, as forças produtivas são o resultado da energia prática dos 
homens, mas essa mesma energia está determinada pelas condições em que os 
homens se encontram colocados, pelas forças produtivas já adquiridas, pela forma 
social anterior a eles, que eles não criaram e que é produto da geração anterior. O 
simples fato de que cada geração posterior encontre forças produtivas adquiridas 
pela geração precedente, que lhe servem de matéria-prima para a nova produção, 
cria na história dos homens uma conexão, cria uma história da humanidade, que é 
tanto mais a história da humanidade porque as forças produtivas dos homens e, por 
conseguinte, suas relações sociais adquiriram maior desenvolvimento.
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O conceito de relações sociais de produção refere-se às formas estabelecidas de 
distribuição dos meios de produção e do produto, e o tipo de divisão social do trabalho numa 
dada sociedade e em um período histórico determinado. Ele expressa o modo como os 
homens se organizam entre si para produzir; que formas existem naquela sociedade de 
apropriação de ferramentas, tecnologia, terra, fontes de matéria-prima e de energia, e 
 
23
 MARX. Carta a Annenkov, p. 470-471. 
eventualmente de trabalhadores; quem toma decisões que afetam a produção; como a massa 
do que é produzido é distribuída, qual a proporção que se destina a cada grupo, e as diversas 
maneiras pelas quais os membros da sociedade produzem e repartem o produto. Na medida 
em que, ao produzir, os homens atuam coletivamente, cooperam, 
 
a produção da vida, tanto a própria através do trabalho como a alheia através da 
procriação, surge-nos agora como uma relação dupla: por um lado, como uma 
relação natural e, por outro, como uma relação social social no sentido