humanizacao_parto
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indicadores de 
saúde, particularmente na assistência perinatal. Muitos resultados adversos relacionados 
à mortalidade e à morbidade materna e perinatal têm sua origem em um trabalho em 
equipe fraco e desarticulado. Em muitas mortes de crianças e mulheres, relacionadas 
às complicações da gravidez e do parto, identifica-se que a equipe não atua de forma 
conjunta e coesa e que a forte hierarquia presente entre os seus membros, destacando-se a 
hegemonia médica, dificulta, e muitas vezes impossibilita, que outras categorias profissionais 
possam atuar de forma a contribuir para melhorar os resultados. 
A presença central e preponderante de profissionais médicos, principalmente obstetras e 
pediatras, não tem resultado em avanços significativos na melhoria dos indicadores de 
mortalidade e morbidade materna e perinatal no País. O médico obstetra ou pediatra, 
pela sua formação, obviamente está mais capacitado a lidar com as mulheres e recém-
nascidos de alto risco e com as complicações sérias que podem surgir durante a gravidez, o 
parto e o nascimento, estando mais propenso a intervir com mais frequência (OMS, 1996). 
Por isso, o trabalho integrado em equipe multiprofissional, pedra angular da utilização 
racional dos recursos humanos disponíveis, somando diversos saberes e habilidades, deve 
se tornar uma prática constante na assistência. 
A incorporação ativa de outros sujeitos, como enfermeiras obstetras, obstetrizes, educadores 
perinatais, psicólogos, e doulas, entre outros, na equipe assistencial deve ser promovida, 
proporcionado uma assistência integral, de acordo com as necessidades da mulher e de 
sua família. Dessa forma, as potencialidades de cada membro da equipe podem ser 
utilizadas plenamente, de acordo com suas capacidades técnica e legal, em benefício da 
mulher e da criança.
Práticas baseadas em evidências científicas
Várias evidências científicas têm demonstrado que muitas práticas correntes na assistência 
obstétrica e neonatal são aplicadas sem a devida validação por estudos científicos bem 
desenhados. Também a introdução de novas práticas e tecnologias sofisticadas na 
assistência, com a esperança de se obter resultados melhores, não foi acompanhada dos 
resultados esperados. O uso rotineiro de práticas já consideradas obsoletas pelas evidências 
atuais deve ser evitado (ex.: enema e episiotomia de rotina etc.). Apenas aquelas práticas 
validadas pela melhor evidência científica disponível devem ser adotadas, aliando a arte 
com a ciência, visando a um nascimento seguro para a mãe e a criança, com o mínimo 
de intervenções necessárias.
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Práticas assistenciais do modelo obstétrico e neonatal
Contrapondo-se às concepções puramente biomédica e tecnocrática, já delineadas acima, 
o componente ético-político mais significativo no modelo obstétrico e neonatal proposto 
pelo PqM refere-se ao direito à vida digna, sem sofrimento e com qualidade, sinalizado 
pela defesa dos direitos humanos na atividade cotidiana de cuidados maternos e infantis. 
Na prática, esse modelo deve atender à demanda de assegurar uma assistência ao parto 
e ao nascimento segura e humanizada, baseada em evidências científicas e em direitos: o 
direito ao exercício da autonomia feminina, para que a voz das mulheres seja respeitada 
nos serviços de saúde, incluindo o direito de escolha informada e consentida no parto (como, 
com quem e onde ter o parto). Nesse sentido, é fundamental reconhecer como ideia-força 
o percurso de construção do Sistema Único de Saúde (SUS), que afirma a universalidade, 
a equidade, a integralidade e a participação social, a fim de assegurar a saúde como 
direito de todos. 
Um importante elemento organizador e estruturante para efetivar a mudança de modelo 
obstétrico e neonatal refere-se ao reconhecimento da problemática envolvida no modelo 
Tecnocrático de cuidados maternos e infantis, e a decisão política de enfrentá-la nas 
instituições. Nesta perspectiva política, o exercício da gestão ampliada e compartilhada para 
a produção de mudanças nas organizações de saúde requer uma agenda de decisões, que 
efetive os acordos entre os atores envolvidos, e assegure condições concretas, sem as quais se 
corre o risco de transformar a cogestão em apenas um exercício discursivo (BRASIl, 2010).
O modelo obstétrico e neonatal que defendemos, e com o qual trabalhamos, deve 
ser reflexivo sobre o processo de trabalho com foco no atual modelo de assistência ao 
nascimento e seus resultados maternos e perinatais, subsidiado pelo debate sobre as 
evidências científicas que sustentam os melhores indicadores maternos e perinatais e onde 
as mulheres têm a oportunidade de exercer sua autonomia. 
Local do nascimento
O local do parto que antes ocorria no ambiente doméstico e passou para o hospital com o 
suposto objetivo de melhorar a segurança para a mãe e a criança, tem sido tema de muitas 
discussões na obstetrícia. Por se tratar de um processo natural e fisiológico, existem muitas 
razões para que a mulher seja apoiada no parto em um ambiente quieto, seguro e que 
lhe seja familiar. A opção de parto domiciliar é uma alternativa para muitas mulheres que 
assim o desejarem e que não possuam algum fator de risco que as levariam à necessidade 
de buscar o ambiente hospitalar. Pode-se usar como exemplo a Holanda, onde o parto 
domiciliar faz parte do sistema nacional de assistência à saúde, e 30% destes, ocorrem no 
domicílio, geralmente com o auxílio de uma parteira profissional (TREFFERS et al., 1990; 
BUITENDIJK, 2000). 
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A principal discussão que surge em relação ao parto domiciliar é a que concerne à 
segurança. Os opositores de tal opção alegam que o parto no domicílio é perigoso e 
que, mesmo em situações de risco habitual, poderiam surgir problemas que apenas são 
solucionados no ambiente hospitalar. Ao contrário, os seus defensores alegam que não 
necessariamente o parto no ambiente hospitalar é absolutamente seguro, tendo em 
vista as intervenções, muitas vezes desnecessárias, às quais as mulheres são submetidas 
acarretando-lhes também complicações. 
Uma metanálise sobre a segurança do parto domiciliar planejado com o apoio de um 
hospital de referência, comparado com o parto hospitalar planejado, incluindo estudos 
observacionais com amostra de 24.092 mulheres, mostrou que o parto domiciliar é 
seguro e associado a uma menor frequência de indução, estimulação, episiotomia, parto 
vaginal operatório, cesariana, menor frequência de baixos escores de Apgar e lacerações 
graves, quando as mulheres são adequadamente selecionadas e assistidas por profissionais 
habilitados. Não houve diferença na mortalidade perinatal (OlSEN, 1997). 
Além dessa metanálise, podemos citar vários estudos de coorte realizados em diferentes 
países. Um estudo de coorte retrospectivo realizado na Holanda, utilizando dados de rotina 
de mais de 500 mil mulheres, não encontrou diferença na morbidade ou mortalidade 
perinatal entre mulheres de baixo risco que planejaram o parto em casa e mulheres de 
baixo risco que planejaram o parto no hospital (DE JONG et al., 2009). Estudos canadenses 
e suecos de partos planejados no domicílio comparados com partos planejados no hospital, 
para mulheres de baixo risco, também não mostraram diferenças na mortalidade perinatal 
(JANSSEN et al., 2009; lINDGREN et al., 2008). Outro grande estudo de coorte prospectivo 
realizado na Inglaterra, envolvendo cerca de 65 mil mulheres demonstrou que o parto 
planejado no domicílio, para multíparas de baixo risco, não aumenta a chance de resultados 
perinatais adversos quando comparado ao parto planejado no hospital ou outros locais 
de nascimento. Para as nulíparas, entretanto, os resultados perinatais adversos parecem 
ser maiores (HOllOWEll, 2011).
Outro estudo de revisão crítica da literatura internacional sobre o tema, realizado na 
Austrália no sentido