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de vulnerabilidade, melhorando suas condições de vida 
segue como meta a alcançar. 
As iniciativas de controle do HIv/aids no Brasil estão voltadas para a prevenção da 
transmissão vertical (com a realização de testes e profilaxia durante o pré-natal), além 
do tratamento de crianças e adolescentes com HIv/aids. A incidência da transmissão 
vertical diminuiu, embora a atenção pré-natal ainda não tenha a qualificação desejada, 
principalmente em regiões do País menos assistidas, como é o caso das regiões Norte e 
Nordeste. Testes rápidos para diagnóstico do HIv em mulheres grávidas em periparto que 
não conheçam seu status sorológico, realizados em escala nacional, podem compensar, 
parcialmente, os problemas resultantes dessa situação. Porém, é necessário por em prática 
uma série de outras ações estratégicas focadas nos fatores individuais, sociais e programáticos 
que limitam o acesso à informação, à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. 
Nesse contexto, o que parece ter igual importância à qualidade das tecnologias de 
diagnóstico e dos procedimentos terapêuticos é a qualificação dos processos de escuta 
nos encontros com as usuárias. Uma escuta qualificada pode promover a ampliação das 
abordagens e da organização de planos terapêuticos singulares com base nas necessidades 
de saúde específicas de cada mulher, considerados seu contexto histórico, social e cultural. 
Outra preocupação importante do ponto de vista da saúde materna e infantil é a sífilis. É 
estimado que, por ano, na América latina e Caribe, aproximadamente 330 mil gestantes 
sejam infectadas e que um terço das crianças nascidas destas mulheres terá sífilis congênita. 
Como medida para redução da ocorrência de sífilis congênita é recomendada a realização 
de testagem para sífilis na primeira consulta de acompanhamento pré-natal, antes da 
20ª semana de gestação e no terceiro trimestre. Feito o diagnóstico, o tratamento da 
gestante e do seu parceiro deve ser realizado com Penicilina G Benzatina, segundo doses 
recomendadas e de acordo com o tempo de aquisição da infecção (FESCINA et al., 2010). 
Conforme pesquisas realizadas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, na maioria das 
vezes, as gestantes realizam apenas um teste de sorologia para sífilis e somente parte 
delas recebe o tratamento indicado. Além disso, as pesquisas brasileiras indicam que 
aproximadamente 90% dos parceiros destas mulheres não recebem tratamento (ARAUJO 
et al., 2006; CAMPOS et al., 2010; ARAUJO et al., 2012). 
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Mais uma vez ficam evidenciados os atravessamentos de gênero e a influência da localização 
geográfica e a situação social na vulnerabilidade das mulheres durante o ciclo gravídico 
e puerperal. Nesse sentido, é possível afirmar a necessidade de qualificação da atenção 
pré-natal, com a inclusão do parceiro da mulher neste espaço de cuidado, e a adoção de 
abordagens mais realísticas dos profissionais e que incluam informações sobre o que é a 
sífilis, de que forma esta é adquirida e transmitida, bem como suas repercussões na saúde 
dos adultos e dos bebês recém-nascidos. 
Considerações finais
É importante reconhecer que as Políticas Públicas de Saúde, destinadas às mulheres no 
período reprodutivo, vêm contribuindo na consolidação da integralidade da atenção, 
uma vez que são dirigidas a demandas epidemiológicas, mesmo que estas se atenham 
com mais vigor ao período reprodutivo (gestação e parto) que a qualquer outra etapa 
da vida e da proposição de ações mais pautadas nos processos de adoecimento que nas 
necessidades de saúde referidas pelas mulheres. 
Ainda assim, percebe-se que, mesmo havendo ampliação na oferta de serviços, de 
tecnologias de diagnóstico e tratamento, de inovações na terapêutica clínica, de criação de 
aparato jurídico que garante seus direitos sexuais e reprodutivos, as mulheres continuam 
sofrendo com as desigualdades sociais e de gênero, o que acaba por impactar na sua 
qualidade de vida, nas suas escolhas e tomadas de decisão sobre a sua saúde.
Nesta perspectiva, é necessário considerar que outros aspectos precisam entrar na agenda 
dos serviços e nos processos de trabalho em saúde que tem como foco a saúde materna e 
infantil, como por exemplo, as questões relacionadas ao gênero, à cultura e ao contexto 
social. Tudo isso deve ser levado em conta quando da formulação de políticas e programas 
de saúde para as mulheres, se o objetivo que se quer alcançar é impactar efetivamente 
na melhoria das suas condições de vida. 
 É importante aliar os avanços conquistados com as experiências bem-sucedidas nos serviços, 
incorporando o conhecimento científico produzido pelo campo da saúde coletiva sobre 
a implicação da escuta qualificada na produção de projetos terapêuticos singulares e da 
promoção da saúde. O conhecimento e a valorização das demandas de saúde acessadas 
por estes processos de escuta, e expressas na busca das mulheres por cuidado, constituem-
se em importantes ferramentas para a efetivação dos princípios da universalidade e da 
integralidade no campo da atenção materna e infantil. 
 
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Referências
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