Texto sociologia - Cristina Costa
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Texto sociologia - Cristina Costa


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da sociedade. Porém, após a queda do Império, quando a Europa retorna à estrutura de uma sociedade agrária e teocrática, que submete a razão e a filosofia à teologia, a razão deixa de ser a melhor forma de explicação do mundo. Durante a Idade Média, período de grande poder da Igreja Católica, a razão passou a ser considerada um instrumento auxiliar da fé. A Igreja Católica usava a razão (inicialmente pelos ensinamentos de Platão, depois com os ensinamentos de Aristóteles) como forma de manter seu poder e divulgar a fé. A fé ou a crença, como nas sociedades agrícolas míticas, passaram novamente a condicionar o comportamento humano e a sociedade, e a explicá-los. Apenas as ordens religiosas, isoladas nos mosteiros, tinham acesso a textos de filosofia, geometria e astronomia. A população laica deixou de participar desse saber.
	No Renascimento, entretanto, o homem volta aos textos antigos e redescobre o prazer de investigar o mundo, descobrir as leis de sua organização como atividade com valor em si mesma, independente de suas implicações religiosas e metafísicas. Nos últimos quatrocentos anos, e em particular a partir do século XVII, vimos assistindo ao crescente progresso desse conhecimento \u2014 a ciência \u2014 destinado à descoberta das relações entre as coisas, das leis que regem o mundo natural, organizando as ideias e interpretações do ponto de vista lógico-científico. Aprimoraram-se as técnicas e os utensílios de medição, e a imprensa e os demais meios de comunicação levaram a uma transmissão cada vez maior de informações e de saber. No seio desse movimento de ideias, surgiu no século XIX uma ciência nova \u2014 a sociologia, a ciência da sociedade. O surgimento da sociologia significou o aparecimento da preocupação do homem com o seu mundo e a sua vida em grupo, numa nova perspectiva, livre das tradições morais e religiosas.
	Desencadeou-se então a preocupação com as regras que organizavam a vida social. Regras que pudessem ser observadas, medidas e comprovadas, capazes de dar ao homem explicações plausíveis, num mundo onde passou a imperar o racionalismo, isto é, a crença no poder da razão humana de alcançar a verdade. Regras, enfim, que tornassem possível prever e controlar os fenômenos sociais.
	Portanto, o aparecimento da sociologia significou que as questões concernentes às relações entre os homens deixaram de ser apenas matéria religiosa e do senso comum: passaram a interessar também aos cientistas. A constituição desse campo do conhecimento significou, antes de mais nada, que as relações entre os homens mereciam ser conhecidas e formuladas por uma nova forma de linguagem e discurso \u2014 o científico \u2014, o qual, na sociedade moderna, adquiriu o status de "verdade".
	A partir de então o homem começou a elaborar métodos e instrumentos de análise capazes de explicar e interpretar sua experiência social de maneira científica. Isso equivaleu a criar, como nas demais ciências, métodos de averiguação e medição e a fazer formulações sobre a sociedade que pudessem ser comprovadas empiricamente \u2014 isto é, pela observação e experimentação \u2014, de modo a tornar a ação social humana explicável em termos de regularidades e previsões.
	O pensamento relativo às ligações do homem com seus semelhantes passava assim a outra esfera de abstração, a outra maneira de formular problemas, ligada à necessidade de descobrir leis de interpretação e previsão dos acontecimentos.
\u201cCom o desenvolvimento da sociologia, multiplicaram-se os métodos e técnicas de investigação da vida social.\u201d
A sociologia: um conhecimento de todos 
Desde o século XIX, quando a sociologia foi criada ou reconhecida como campo de conhecimento explorável pelo procedimento científico, até a atualidade, inúmeros estudos se desenvolveram. Como nas demais ciências, estabeleceu-se uma comunicação permanente entre pesquisadores, permitindo um acúmulo de princípios e informações de modo a submeter as teorias à comprovação, questionamento, revisão.
	Criou-se também um jargão científico, isto é, um vocabulário próprio com conceitos que designam aspectos precisos da vida social. De tal forma se alastraram os resultados das pesquisas sociológicas que, hoje, boa parte desse vocabulário faz parte da vida cotidiana. Palavras e expressões como contexto social, movimentos sociais, classes, estratos, camadas, conflito social, são usadas no dia-a-dia das pessoas e profusamente veiculadas pelos meios de comunicação de massa. 
	Nos discursos políticos, referências às "classes dominantes", às "pressões sociais" emergem (= surgem) como se fossem de domínio público, como se todos, políticos e eleitores soubessem exatamente o que elas designam.
	As pesquisas de opinião de qualquer tipo veiculam os resultados de procedimentos metodológicos amplamente usados nas pesquisas científicas, e os leitores percebem de maneira mais ou menos geral seu significado. Quando se diz que um governante conta com o apoio de 60% da população de uma cidade, por exemplo, as pessoas entendem que um grupo de pesquisadores empreendeu uma pesquisa que arguiu um número delimitado de cidadãos a respeito da gestão desse governante e que esses cidadãos expressaram sua opinião. Compreendem que, de cada 100 pessoas arguidas, 60 manifestaram-se favoráveis às medidas tomadas pelo governante.
	E, quando se diz, após algum tempo, que a popularidade desse governante cresceu 10%, sabemos que nova pesquisa foi feita nos mesmos moldes da anterior e, de cada 100 cidadãos, agora são 70 que se mostraram favoráveis à atuação governamental.
	Esse simples raciocínio, utilizado não só nas pesquisas de caráter político, mas em quaisquer outras que pretendem verificar a adesão das pessoas a certas ideias \u2014 ou a frequência a espetáculos, ou o número de espectadores de um programa de televisão \u2014, decorre da aceitação generalizada dos conhecimentos básicos da sociologia. 
	Isso ocorre porque foi possível constatar e verificar uma regularidade nos fatos sociais. Essa regularidade responde às leis da vida social e essas leis científicas são passíveis de serem observadas e apreendidas. Disso resulta que é também possível prever (o que é diferente de adivinhar) com certa margem de acerto os possíveis eventos futuros de uma determinada sociedade. Abre-se, então, a possibilidade de se poder intervir conscientemente nos processos, tanto para reforçá-los como para negá-los, dependendo dos interesses em jogo.
	Queremos deixar claro que o leitor de uma pesquisa de opinião, mesmo desconhecendo a sua metodologia, sabe que existem meios mais ou menos eficazes de se desvendar o comportamento, o gosto e a opinião de uma população pela investigação de uma amostra, isto é, de uma parte escolhida dessa população. O leitor intui a existência de uma regularidade nesses comportamentos e opiniões; reconhece que, por trás da diversidade entre as pessoas, existe certa padronização nas suas formas de agir e pensar, de acordo com o sexo, a idade, a nacionalidade etc.
	Quando lemos em uma notícia ou artigo que Maria, 35 anos, casada, dona-de-casa, brasileira, votará em determinado candidato, não estamos tomando conhecimento apenas da opinião de uma pessoa isolada, mas do grupo de pessoas do qual Maria é o protótipo: o das mulheres de idade mediana, donas-de-casa, casadas e brasileiras.
	Portanto, os conhecimentos de sociologia hoje já não estão restritos ao uso dos cientistas sociais. Eles fazem parte de um modo de perceber e interpretar os acontecimentos formado pela disseminação dos procedimentos e técnicas de pesquisa social.
	Hoje manifesta-se confiança nessa forma de conhecer a realidade, do mesmo modo como se confia em um termômetro para constatar a temperatura do corpo.
	Mesmo que o público desconheça todos os procedimentos de amostragem e de levantamento de dados, assim como pode desconhecer a técnica utilizada na fabricação de um termômetro, já confia nas informações das pesquisas, o que demonstra a utilidade e a popularidade da sociologia. Hoje é mais frequente comprovar uma afirmação qualquer por meio de dados de pesquisa