As Regras do Metodo Sociologico - Durkheim
113 pág.

As Regras do Metodo Sociologico - Durkheim


DisciplinaSociologia Geral e Juridica341 materiais5.142 seguidores
Pré-visualização34 páginas
partes da população tendem a se aproximar, é inevitável que elas
abram caminhos que permitam essa aproximação, e, por outro lado, só podem se
estabelecer relações entre pontos distantes da massa social se essa distância não
for um obstáculo, isto é, se ela de fato for suprimida. Há no entanto exceções, e
incorreríamos em sérios erros se julgássemos sempre a concentração moral de
uma sociedade com base no grau de concentração material que ela apresenta. As
estradas,, as vias férreas, etc., podem servir mais ao movimento dos negócios do
que à fusão das populações, que elas então só exprimem muito imperfeitamente.
É o caso da Inglaterra, cuja densidade material é superior à da França, e onde,
não obstante, a coalescência dos segmentos é muito menos avançada, como
demonstra á persistência do espírito local e da vida regional.
Mostramos alhures como todo aumento no volume e na densidade
dinâmica das sociedades, ao tomar a vida social mais intensa, ao estender o
horizonte que cada indivíduo abarca com seu pensamento e preenche com sua
ação, modifica profundamente as condições fundamentais da existência coletiva.
Não precisamos falar de novo da aplicação que fizemos então desse princípio.
Acrescentemos apenas que ele nos serviu para tratar não somente a questão
ainda muito geral que era o objeto daquele estudo, mas muitos outros problemas
mais específicos, e que pudemos assim verificar sua exatidão por um número já
respeitável de experiências. Todavia, estamos longe de pensar ter descoberto
todas as particularidades do meio social suscetíveis de desempenhar um papel na
explicação dos fatos sociais. Tudo o que podemos dizer é que essas são as
únicas que percebemos e que não fomos levados a buscar outras.
Mas essa espécie de preponderância que atribuímos ao meio social e, mais
particularmente, ao meio humano, não implica que se deva ver aí algo como um
fato último e absoluto para além do qual não é preciso remontar. É evidente, ao
contrário, que o estado no qual se encontra esse meio a cada momento da história
depende ele próprio de causas sociais, algumas inerentes à própria sociedade,
enquanto outras se devem às ações e reações entre essa sociedade e suas
vizinhas. Aliás, a ciência não conhece causas primeiras, no sentido absoluto da
palavra. Para ela, um fato é primário simplesmente quando for suficientemente
geral para explicar um grande número de outros fatos. Ora, o meio social é
certamente um fator desse gênero; pois as mudanças que nele se produzem,
sejam quais forem suas causas, repercutem em todas as direções do organismo
social e não podem deixar de afetar em maior ou menor grau todas as suas
funções.
O que acabamos de dizer do meio geral da sociedade pode ser dito dos
meios específicos a cada um dos grupos particulares que ela encerra. Por
exemplo; conforme a família for mais ou menos volumosa, mais ou menos voltada
para si mesma, muito diferente será a vida doméstica. Do mesmo modo, se as
corporações profissionais se organizarem de maneira a que cada uma delas se
ramifique em toda a extensão do território, em vez de permanecer encerrada,
como outrora, nos limites de uma cidade, a ação que irão exercer será muito
diferente da que exerceram outrora. De uma maneira mais geral, a vida
profissional será completamente diferente se o meio próprio a cada profissão for
fortemente constituído ou se sua trama for frouxa, como é hoje. Todavia, a ação
desses meios particulares não poderia ter a importância do meio geral; pois eles
próprios submetem-se à influência deste último. É sempre a este que se deve
voltar. É a pressão que ele exerce sobre os grupos parciais que faz variar a
constituição destes.
Tal concepção do meio social como fator determinante da evolução coletiva
é da mais alta importância. Pois, se a rejeitarmos, a sociologia será incapaz de
estabelecer qualquer relação de causalidade.
De fato, descartada essa ordem de causas, não há condições
concomitantes das quais possam depender os fenômenos sociais; pois, se o meio
social externo, isto é, aquele formado pelas sociedades ao redor, é suscetível de
exercer alguma ação, só a exerce sobre as funções que têm por objeto o ataque e
a defesa; além disso, ele só pode fazer sentir sua influência por intermédio do
meio social interno. As principais causas do desenvolvimento histórico não
estariam portanto entre as coisas, circunfusas, mas estariam todas no passado.
Elas próprias fariam parte desse desenvolvimento, do qual constituiriam
simplesmente fases mais antigas. Os acontecimentos atuais da vida social
derivariam não do estado atual da sociedade, más dos acontecimentos anteriores,
dos precedentes históricos, e as explicações sociológicas consistiriam
exclusivamente em ligar o presente ao passado.
Isso pode parecer, de fato, suficiente. Não se costuma dizer que a história
tem precisamente por objeto encadear os acontecimentos segundo sua ordem de
sucessão? Mas é impossível conceber de que maneira o estado em que a
civilização se encontra num momento dado poderia ser a causa determinante do
estado seguinte. As etapas que a humanidade percorre sucessivamente não se
engendram umas às outras. Compreende-se bem que os progressos realizados
numa época determinada na ordem jurídica, econômica, política, etc, tornem
possíveis novos progressos; mas em que os primeiros predeterminam os
segundos? Eles são um ponto de partida que permite ir mais adiante; mas o que é
que nos incita a ir mais adiante? Seria preciso admitir então uma tendência interna
que leva a humanidade a ultrapassar constantemente os resultados adquiridos,
seja para se realizar completamente, seja para aumentar sua felicidade, e o objeto
da sociologia seria descobrir a ordem segundo a qual se desenvolveu essa
tendência. Mas, sem voltar às dificuldades que semelhante hipótese implica, a lei
que exprime esse desenvolvimento nada teria de causal. Uma relação de
causalidade, com efeito, só pode se estabelecer entre dois fatos dados; ora, tal
tendência, que se supõe ser a causa desse desenvolvimento, não é dada; é
apenas postulada e construída pelo espírito com base nos efeitos que se atribuem
a ela. Trata-se de uma espécie de faculdade motora que imaginamos sob o
movimento, a fim de explicá-lo; mas a causa eficiente de um movimento só pode
ser um outro movimento, não uma virtualidade desse gênero. Portanto, tudo o que
obtemos experimentalmente, aqui, é uma série de mudanças entre as quais não
existe vínculo causal. O estado antecendente não produz o conseqüente, mas a
relação entre eles é exclusivamente cronológica. Assim, nessas condições, toda
previsão científica é impossível. Podemos perfeitamente dizer como as coisas se
sucederam até o presente, não em que ordem elas se sucederão daqui por diante,
porque a causa de que supostamente dependem não é cientificamente
determinada, nem determinável. Geralmente, é verdade, admite-se que a
evolução prosseguirá no mesmo sentido do passado, mas isso em virtude de um
simples postulado. Nada nos garante que os fatos realizados exprimam de
maneira bastante completa a natureza dessa tendência para que se possa
prejulgar o termo a que ela aspira com base naqueles pelos quais passou
sucessivamente. Inclusive, por que seria retilínea a direção que ela segue e
imprime?
Eis aí, de fato, a razão de o número das relações causais, estabelecidas
pelos sociólogos, ser tão restrito. Com poucas exceções, das quais Montesquieu é
o mais ilustre exemplo, a antiga filosofia da história limitou-se unicamente a
descobrir o sentido, geral em que se orienta a humanidade, sem procurar ligar as
fases dessa evolução a alguma condição concomitante. Por mais que Comte
tenha prestado alguns grandes serviços à filosofia social, os termos nos quais ele
coloca