As Regras do Metodo Sociologico - Durkheim
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As Regras do Metodo Sociologico - Durkheim


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o problema sociológico não diferem dos precedentes. Assim, sua famosa
lei dos três estados nada possui de uma relação de causalidade; ainda que fosse
exata, ela não é e não pode ser mais que empírica. Trata-se de uma visão
sumária da história transcorrida do gênero humano. É muito arbitrariamente que
Comte considera o terceiro estado como o estado definitivo da humanidade. Quem
nos diz que não surgirá outro no futuro? Do mesmo modo, a lei que domina a
sociologia de Spencer não parece ser de outra natureza. Ainda que fosse verdade
que tendemos atualmente a buscar nossa felicidade numa civilização industrial,
nada assegura que, posteriormente, não venhamos a buscá-la em outra parte.
Ora, o que faz a generalidade e a persistência desse método é que na maioria das
vezes se viu no meio social um meio pelo qual o progresso se realiza, não a causa
que o determina.
Por outro lado, é igualmente em relação a esse mesmo meio que se deve,
medir o valor útil ou, como dissemos, a função dos fenômenos sociais. Entre .as
mudanças de que é a causa, servem aquelas que estão em relação com o estado
no qual esse meio se encontra, já que ele é a condição essencial da existência
coletiva. Também desse ponto de vista, acreditamos, a concepção que acabamos
de expor é fundamental; pois só ela permite explicar como o caráter útil dos
fenômenos sociais pode variar sem no entanto depender de arranjos arbitrários.
Se, dê fato, representa-se a evolução histórica como movida por uma espécie de
vis a tergo [força propulsora] que impele os homens para a frente, já que uma
tendência motora só pode ter um objetivo e apenas um, não pode haver senão um
ponto de referência em relação ao qual se calcula a utilidade ou a nocividade dos
fenômenos sociais. Disso resulta que só pode haver um único tipo de organização
social perfeitamente adequado à humanidade e que as diferentes sociedades
históricas são apenas aproximações sucessivas desse modelo único. Não é
necessário mostrar o quanto semelhante simplismo é hoje inconciliável com a
variedade e a complexidade reconhecidas das formas sociais. Se, ao contrário, a
conveniência ou não das instituições só puder ser estabelecida em relação a um
meio dado, e corno esses meios são diversos, haverá então uma diversidade de
pontos de referência e, por conseguinte, de tipos que, embora qualitativamente
distintos uns dos outros, estão todos igualmente fundados na natureza dos meios
sociais.
A questão que acabamos de tratar está assim estreitamente vinculada à
que diz respeito à constituição dos tipos sociais. Se há espécies sociais, é porque
a vida coletiva depende antes de tudo de condições concomitantes que
apresentam uma certa diversidade. Se, ao contrário, as principais causas dos
acontecimentos sociais estivessem todas no passado, cada povo não seria mais
que o prolongamento daquele que o precedeu, e as diferentes sociedades
perderiam sua individualidade para se tornarem apenas momentos diversos de um
mesmo e único desenvolvimento. Uma vez que, por outro lado, a constituição do
meio social resulta do modo de composição dos agregados sociais e que essas
duas expressões são, elas próprias, no fundo, sinônimas, temos agora a prova de
que não há caracteres mais essenciais do que aqueles que atribuímos como base
para a classificação sociológica.
Enfim, deve-se compreender agora, melhor do que antes, o quanto seria
injusto apoiar-se nas palavras "condições exteriores" e "meio" para acusar nosso
método e buscar as fontes da vida fora do que é vivo. Muito pelo contrário, as
considerações que acabam de ser lidas resumem-se na idéia de que as causas
dos fenômenos sociais são internas à sociedade. É antes a teoria que deriva a
sociedade do indivíduo que se poderia justamente recriminar por querer tirar o
interior do exterior, já que ela explica o ser social por outra coisa que não ele
mesmo, e por querer tirar o mais do menos, já que ela empreende deduzir o todo
da parte. Os princípios que precedem ignoram tão pouco 0 caráter espontâneo de
todo vivente que, se aplicados à biologia e à psicologia, dever-se-á admitir que
também a vida individual se elabora por inteiro no interior do indivíduo.
Do grupo de regras que acabam de ser estabelecidas resulta certa
concepção da sociedade e da vida coletiva.
Sobre esse ponto, duas teorias contrárias dividem os espíritos.
Para uns, como Hobbes e Rousseau, há solução de continuidade entre o
indivíduo e a sociedade. O homem é portanto naturalmente refratário à vida
comum, somente forçado pode resignar-se a ela. Os fins sociais não são
simplesmente o ponto de encontro dos fins individuais; são antes contrários a eles.
Assim, para fazer o indivíduo buscar esses fins, é necessário exercer sobre ele
uma coerção, e é na instituição e na organização dessa coerção que consiste, por
excelência, a obra social. Só que, como o indivíduo é visto como a única e
exclusiva realidade do reino humano, essa organização, que tem por objeto
constrangê-lo e contê-lo, não pode ser concebida senão como artificial. Ela não
está fundada na natureza, uma vez que se destina a fazer-lhe violência
impedindo-a de produzir suas conseqüências anti-sociais. Trata-se de uma obra
de arte, de uma máquina construída inteiramente pela mão dos homens e que,
como todos os produtos desse gênero, é o que é apenas porque os homens a
quiseram assim; um decreto da vontade a criou, um outro decreto pode
transformá-la. Nem Hobbes nem Rousseau parecem ter percebido tudo o que há
de contraditório em admitir que o indivíduo seja ele próprio o autor de uma
máquina que tem por tarefa essencial dominá-lo e constrangê-lo, ou pelo menos
lhes pareceu que, para fazer desaparecer essa contradição, bastava dissimulá-la,
aos olhos daqueles que são suas vítimas, pelo hábil artifício do pacto social.
Foi na idéia contrária que se inspiraram tanto os teóricos do direito natural
quanto os economistas e, mais recentemente, Spencerzz. Para eles, a vida social
é essencialmente espontânea e a sociedade uma coisa natural. Mas, se conferem
a ela esse caráter, não é porque lhe reconheçam uma natureza específica; é
porque encontram sua base na natureza do indivíduo. Do mesmo modo que os
precedentes pensadores, eles não vêem na sociedade um sistema de coisas que
exista pôr si mesmo, em virtude de causas que lhe sejam específicas. Mas,
enquanto aqueles a concebiam apenas como um arranjo convencional que
nenhum vínculo prende à realidade e que se sustenta, por assim dizer, no ar,
estes lhe dão por base os instintos fundamentais do coração humano. O homem
tende naturalmente à vida política, doméstica, religiosa, às trocas, etc., e é dessas
inclinações naturais que deriva a organização social. Em conseqüência, sempre
que for normal, esta não tem necessidade de impor-se. Quando ela recorre à
coerção, é porque não é o que deve ser ou porque as circunstâncias são
anormais. Em princípio, basta deixar as forças individuais desenvolverem-se em
liberdade para que elas se organizem socialmente.
Nenhuma dessas duas doutrinas é a nossa.
Certamente, fazemos da coerção a característica de todo fato social. Só que essa
coerção não resulta de uma maquinaria mais ou menos engenhosa, destinada a
mascarar aos homens as armadilhas nas quais eles próprios se pegaram. Ela
simplesmente se deve ao fato de o homem estar em presença de uma força que o
domina e diante da qual se curva; mas essa força é natural. Ela não deriva de um
arranjo convencional que a vontade humana acrescentou completamente ao real;
ela provém das entranhas mesmas da realidade; ê o produto necessário de
causas dadas. Assim, para fazer o indivíduo submeter-se a ela de boa vontade,
não é preciso recorrer a nenhum artifício; basta fazê-lo tomar consciência de seu
estado de dependência