As Regras do Metodo Sociologico - Durkheim
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As Regras do Metodo Sociologico - Durkheim


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embora variem de um ponto a outro. Quando, ao contrário, trata-se de uma
instituição, de uma regra jurídica ou moral, de um costume organizado, que são
idênticos e funcionam da mesma maneira em toda a extensão do país e que só se
modificarei com o tempo, não é possível restringir-se ao estudo de um único povo;
pois, nesse caso, ter-se-ia como elemento da prova apenas um único par de
curvas paralelas, a saber, as que exprimem a marcha histórica do fenômeno
considerado e da causa conjeturada, mas nessa única e exclusiva sociedade.
Certamente, mesmo esse único paralelismo, se for constante, já é um fato
considerável, mas não poderia, por si só, constituir uma demonstração.
Fazendo entrar em consideração vários povos da mesma espécie, dispõe-
se já de um campo de comparação mais extenso. Primeiramente, pode-se
confrontar a história de um com a dos outros e ver se, em cada um deles
isoladamente, o mesmo fenômeno evolui no tempo em função das mesmas
condições. A seguir, podem-se estabelecer comparações entre esses diversos
desenvolvimentos. Por exemplo, determinar-se-á a forma que o fato estudado
adquire nessas diferentes sociedades no momento em que ele chega a seu
apogeu. Como essas sociedades, embora pertençam ao mesmo tipo, são
individualidades distintas, a forma em questão não é em toda parte a mesma*; ela
é mais ou menos pronunciada conforme os casos*. Deste modo se terá uma nova
série de variações que serão aproximadas daquelas que apresenta, no mesmo
momento e em cada um desses países, a condição **presumida**. Assim, após ter
seguido a evolução da família patriarcal através da história de Roma, de Atenas,
de Esparta, essas mesmas cidades serão classificadas conforme o grau máximo
de desenvolvimento que atinge em cada uma delas esse tipo familiar, e a seguir
se verá, em relação ao estado do meio social do qual parece depender o tipo
familiar de acordo com a primeira experiência, se elas se classificam ainda da
mesma maneira.
Mas mesmo esse método não pode ainda ser suficiente. Ele só se aplica,
com efeito, aos fenômenos que têm origem durante a vida dos povos comparados.
Ora, uma sociedade não cria completamente sua organização; ela a recebe
pronta, em parte, das sociedades que a precederam. O que lhe é assim
transmitido, no decorrer de sua história, não é o produto de um desenvolvimento
seu, portanto não pode ser explicado se não sairmos dos limites da espécie de
que ela faz parte. Somente os acréscimos que se juntam a esse fundo primitivo e
o transformam podem ser tratados dessa maneira. Porém, quanto mais nos
elevamos na escala social, tanto menor é a importância dos caracteres adquiridos
por cada povo comparados aos caracteres transmitidos. Aliás, essa é a condição
de todo progresso. Assim, elementos novos que introduzimos no direito
doméstico, no direito de propriedade, na moral, desde o começo de nossa história,
são relativamente pouco numerosos e pouco importantes, comparados aos que o
passado nos legou. As novidades que se produzem não poderiam portanto ser
compreendidas se primeiro não fossem estudados aqueles fenômenos mais
fundamentais que são suas raízes, e estes só podem ser estudados com o auxílio
de comparações muito mais extensas. Para poder explicar o estado atual da
família, do casamento, da propriedade, etc., seria preciso conhecer quais são suas
origens, quais os elementos simples que compõem essas instituições, e, sobre
esses pontos, a história comparada das grandes sociedades européias não nos
daria grandes esclarecimentos. É preciso remontar mais acima.
Conseqüentemente, para explicar uma instituição social, pertencente a uma
espécie determinada, iremos comparar as formas diferentes que ela apresenta
não apenas nos povos dessa espécie, mas em todas as espécies anteriores.
Trata-se, por exemplo, da organização doméstica? Constituiremos primeiramente
o tipo mais rudimentar que possa ter existido, para em seguida acompanhar passo
a passo a maneira como ele progressivamente se complicou. Esse método, que
poderíamos chamar genético, efetuaria de uma só vez a análise e a síntese do
fenômeno. Pois, por um lado, nos mostraria em estado dissociado os elementos
que o compõem, pelo simples fato de nos mostrar esses elementos
acrescentando-se sucessivamente uns aos outros; ao mesmo tempo, graças ao
extenso campo de comparação, ele seria bem mais capaz de determinar as
condições de que dependem a formação e associação desses mesmos
elementos. Conseqüentemente, só se pode explicar um fato social de alguma
complexidade se se acompanhar seu desenvolvimento integral através de todas
as espécies sociais. A sociologia comparada não é um ramo particular da
sociologia; é a sociologia mesma, na medida em que ela deixa de ser puramente
descritiva e aspira a explicar os fatos.
No decorrer dessas comparações extensas, comete=se com freqüência um
erro que falseia os resultados. Algumas vezes, para julgar em que sentido se
desenvolvem os acontecimentos sociais, simplesmente se comparou o que se
passa no declínio de cada espécie com o que se produz no começo da espécie
seguinte. Procedendo deste modo, acreditou-se poder afirmar, por exemplo, que o
enfraquecimento das crenças religiosas e de todo tradicionalismo nunca podia ser
mais que um fenômeno passageiro da vida dos povos, porque ele só aparece no
último período de sua existência para cessar assim que uma nova evolução
recomeça. Mas, com semelhante método, corre-se o risco de tomar como marcha
regular e necessária do progresso o que é efeito de uma causa muito diferente. De
fato, o estado em que se encontra uma sociedade jovem não é simplesmente o
prolongamento do estado em que haviam chegado no final de sua carreira as
sociedades que ela substitui, mas provém em parte dessa própria juventude que
impede que os produtos das experiências feitas pelos povos anteriores sejam
todos imediatamente assimiláveis e utilizáveis. Assim, a criança recebe de seus
pais faculdades e predisposições que só tardiamente entram em jogo em sua vida.
Portanto é possível, para retomar o mesmo exemplo, que o retorno do
tradicionalismo observado no começo de cada história seja devido, não ao fato de
que um recuo do mesmo fenômeno só pode ser transitório, mas às condições
especiais em que se acha colocada toda sociedade que começa. A comparação
só pode ser demonstrativa se eliminamos esse fator da idade, que a perturba;
para tanto, bastará considerar as sociedades comparadas no mesmo período de
seu desenvolvimento. Assim, para saber em que sentido evolui um fenômeno
social, iremos comparar o que ele é na juventude de cada espécie com aquilo em
que se transforma na juventude da espécie seguinte, e, conforme apresentar, de
uma etapa a outra, maior, menor ou igual intensidade, diremos que ele progride,
recua ou se mantém.
CONCLUSÃO
Em resumo, as características desse método são as seguintes.
Em primeiro lugar, ele é independente de toda filosofia. Por ter nascido das
grandes doutrinas filosóficas, a sociologia conservou o hábito de se apoiar em
algum sistema do qual se acha, pois, solidária. Assim, ela foi sucessivamente
positivista, evolucionista, espiritualista, quando deve contentar-se em ser
sociologia e nada mais. Inclusive hesitaríamos em qualificá-la de naturalista, a
menos que com isso se queira simplesmente indicar que ela considera os fatos
sociais como explicáveis naturalmente; nesse caso, o epíteto é inútil, pois significa
apenas que o sociólogo pratica a ciência e não é um místico. Mas repelimos a
palavra, se lhe quiserem dar um sentido doutrinal sobre a essência das coisas
sociais, se, por exemplo, disserem que elas são redutíveis às outras forças
cósmicas. A sociologia não tem de tomar partido por uma das grandes hipóteses
que dividem