Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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antes de poder sequer suspeitar-se 
de qualquer agrupamento permanente em aldeias (...) Ali no centro cerimonial verificava-se uma associação dedicada 
a uma vida mais abundante; não simplesmente um aumento de alimentos, mas um aumento do prazer social, graças a 
uma utilização mais completa da fantasia simbolizada e da arte, com uma visão comum de uma vida melhor e mais 
significativa ao mesmo tempo que esteticamente atraente, uma boa vida em embrião, como a que Aristóteles um dia 
iria descrever na Política: o primeiro vislumbre da Eutopia\u201d. MUMFORD, Lewis. A cidade na história - suas origens, 
transformações e perspectivas. 4. ed. Trad. Neil R. da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 14. 
8
 8 Na verdade, a longa escalada que culminou com a formação de cidades tem origem fora do terreno da atual 
Mesopotâmia. Foram encontrados, na atual cidade turca de Çatal Hüyük (antiga região da Anatólia) e no sítio de 
Jericó (Tell es-Sultan), no vale do Jordão, vestígios de uma espécie de proto-cidade, constituída por um agrupa-
mento de casas e santuários. As diferenças essenciais entre estes agrupamentos populacionais e as primeiras 
cidades mesopotâmicas residem nos seguintes fatores: (1) as cidades da Mesopotâmia constituíram uma 
verdadeira rede urbana, composta por várias cidades (as antecessoras, aqui assinaladas, foram casos isolados em 
suas localidades); e (2) essa mesma rede urbana perdurou por várias gerações, fixando-se no tempo, à medida 
que novas cidades iam surgindo (na própria Mesopotâmia ou em regiões próximas). Além disso, a população das 
proto-cidades, ainda dedicadas à agricultura, girava em torno de 1.000 habitantes, enquanto que as primeiras 
cidades mesopotâmicas agrupavam cerca de 10 vezes mais. Cf., para melhor aprofundamento dessas questões, 
JANSON, H.W. História geral da arte. Trad. J.A. Ferreira de Almeida et al. São Paulo: Martins Fontes, 1993, v. 
I, p. 49-50; e DELFANTE, Charles. A grande história da cidade - da Mesopotâmia aos Estados Unidos. Trad. 
Luís C. Feio. Lisboa: Instituto Piaget, 2000, p. 23-25. O autor gostaria de registrar seu agradecimento à 
orientação valiosamente concedida, neste tópico, por Eduardo Liberato Nogueira de Sousa. 
Mesopotâmia foi o termo final de um processo lento de destribalização que se estendeu pela 
maior parte do quarto milênio da era pré-cristã. Na Baixa Mesopotâmia - região normalmente 
designada como Suméria, nas margens do Rio Eufrates, mais próxima ao Golfo Pérsico -, já 
se contabilizavam cinco cidades nos anos 3100-2900 a.C.: Eridu, Badtibira, Sippar, Larak e 
Shuruppak. No período histórico imediatamente subseqüente, chamado dinástico primitivo ou 
présargônico (2900-2334 a.C.), são registradas, além daquelas já mencionadas, as seguintes 
cidades: Kish, Akshak, Nippur, Adab, Umma, Lagash, Uruk, Larsa e Ur.
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 A estrutura desses 
primeiros agrupamentos urbanos era tripartite: (i) a cidade propriamente dita, cercada por 
muralhas, em que ficavam os principais locais de culto e as células dos futuros palácios reais; 
(ii) uma espécie de subúrbio, extramuros, local em que se misturavam residências e 
instalações para plantio e criação de animais e (iii) o porto fluvial, em que se praticava o 
comércio e que era utilizado como local de instalação dos estrangeiros, cuja admissão, em 
regra, era vedada nos muros da cidade. 
Ainda que não seja recomendável lançar qualquer assertiva postulando uma relação 
entre causa e efeito - pois a complexidade do correr do tempo histórico não permite tal 
simplificação -, é possível afirmar, pelas evidências hoje existentes, que o processo de invenção e 
consolidação da escrita possui estreita ligação com o surgimento das cidades (e das modificações 
que a revolução urbana acabou por trazer). Isso porque, se forem desconsideradas formas muito 
pouco evoluídas de inscrição como, por exemplo, puras representações pictográficas ou fichas de 
argila com indicações de mera quantidade -, é também na Mesopotâmia que se manifesta a 
primeira escrita mais complexa, com um maior número de sinais e com aspectos ideográficos e 
fonéticos: a escrita cuneiforme. Assim designada pela forma de \u201ccunha\u201d - construção geométrica 
em que os caracteres são dispostos -, a escrita cuneiforme surge na região da Baixa Mesopotâmia, 
por volta de 3.100 a.C. As razões dessa inovação decorrem da maior complexidade que as recém-
fundadas cidades passaram a apresentar. A simples transmissão oral da cultura começa a se tomar 
insuficiente para preservação da memória e identidade dos primeiros povos urbanos, que já 
possuem uma estrutura religiosa, política e econômica mais diferenciada. É nesse momento, 
portanto, que se consolida a passagem da verba volant para a scripta manent. Nesse contexto, 
Andrew Robinson pondera: \u201cem algum momento do fmal do quarto milênio a.C., a complexidade 
do comércio e da administração nas primeiras cidades da Mesopotâmia atingiu um ponto que 
acabou por superar o poder da memória da elite govemante.\u201d10 
 
9
 CARDOSO, Ciro Flamarion. Sete olhares sobre a Antigüidade. 2. ed. Brasília: UnB, 1998, p. 64. 
10
 ROBINSON, Andrew. The story of writing - alphabets, hieroglyphs and pictograms. London: Thames & 
Hudson, 1999, p. 11. 
Uma última palavra merece ser enunciada, agora em relação ao advento do 
comércio. Não obstante ser extremamente difícil, em termos exatos, definir a data em que 
surge a modalidade de agregação de valor e posterior comercialização de bens, é bastante 
plausível citar o incremento e sistematização das trocas de mercadorias (por intermédio da 
venda em mercados ou da navegação) como um aspecto preponderante da passagem das 
sociedades arcaicas para o mundo antigo. De fato, como será observado a seguir, o comércio é 
um elemento fundamental na consolidação das civilizações da Mesopotâmia e Egito. Segundo 
a já clássica contribuição de Engels, a origem do comércio localiza-se na divisão do trabalho 
gerada pela apropriação individual dos produtos antes distribuídos no seio da comunidade; 
com a retenção do excedente, a criação de urna camada de comerciantes e a atribuição de 
valor a determinados bens, o homem deixa de ser senhor do processo de produção. Inaugura-
se, então, segundo Engels, urna as simetria no interior da comunidade, com a introdução da 
distinção rico-pobre.
11
 
A síntese desses três elementos - cidades, escrita, comércio representa a derrocada 
de urna sociedade fechada, organizada em tribos ou clãs, com pouca diferenciação de papéis 
sociais e fortemente influenciada, no plano das mentalidades, por aspectos místicos ou 
religiosos. Há, nessas sociedades arcaicas, um direito ainda incipiente, bastante concreto, 
cognoscível apenas pelo costume e que se confunde com a própria religião. 
Mas, aos poucos, vai se construindo uma nova sociedade - urbana, aberta a trocas 
materiais e intercâmbio de experiências políticas, mais dinâmica e complexa -, que demandará 
um novo direito. 
As primeiras manifestações desse novo tipo de sociedade - e, por conseqüência, 
desse novo estilo de direito - ocorrem na Mesopotâmia e no Egito. 
 
3. MESOPOTÂMIA E EGITO: ASPECTOS GEOGRÁFICOS, POLÍTICOS E 
ECONÔMICOS 
 
As civilizações ora estudadas fornecem um raro exemplo de simultaneidade do 
tempo histórico: elas são construídas de forma lenta, mas a finalização do processo de 
mudança dá-se no mesmo período. Com efeito, existem indícios de existência de vida humana 
na Mesopotâmia e Egito já na Era Neolítica (ano 7000 a.C. na região da Mesopotâmia
12
 e 
 
11
 ENGELS, Friedrich.A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 3.ed. Trad. José Silveira Paes 
São Paulo: Global, 1986. 
12
 CARDOSO,
Rafael
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