Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer


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fértil, apresentava problemas quanto à dificuldade de drenagem e de contenção 
do avanço da vegetação desértica. 
Não é difícil concluir, portanto, que as cidades da Mesopotâmia dependiam do 
comércio em grau sensivelmente superior ao Egito, o que terá reflexos, como poder-se-á 
observar, no desenvolvimento do direito privado nessas duas civilizações. 
 
4. A VIGÊNCIA DO DIREITO: SEUS ELEMENTOS, MANIFESTAÇÕES E 
INSTITUIÇÕES 
 
Há que se ponderar, de imediato, que o estudo do direito das sociedades pré-
clássicas representa um campo relativamente novo na história do direito. Muitas das 
descobertas fundamentais, no terreno da arqueologia, são posteriores ao início do século XX. 
As principais expedições foram enviadas à Mesopotâmia e ao Egito nos anos vinte: as 
célebres escavações em Ur lideradas por Wooley (1922-1929) e a descoberta e catalogação 
dos tesouros da tumba de Tutankhamon, efetuadas por Carter, no Vale dos Reis (1922-1924). 
Evidentemente, a reaparição de elementos da cultura escrita e material, proporcionada pela 
 
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 \u201cNa Babilônia, por ocasião dos ritos de Ano-Novo no templo de Marduk, o rei era esbofeteado (e não 
gentilmente: o signo favorável esperado era que lágrimas saltassem de seus olhos!) por um sacerdote do deus, 
que lhe retirara previamente os signos da realeza e depois devia puxá-lo pelas orelhas para fazê-lo prosternar-se 
diante da imagem divina. Nessa ocasião, o rei deveria declarar à divindade estar livre de pecados; entre estes 
pecados não-cometidos constava o de \u201efazer chover golpes na face de um subordinado\u201f, e também o de 
\u201ehumilhar\u201f os súditos. No Egito, algo semelhante seria, mais uma vez, impensável, sendo o faraó um deus 
encarnado\u201d. CARDOSO, Ciro Flamarion Sete olhares sobre a Antigüidade. Op. cit., p. 50-51. 
29
 Cf. McEVEDY, Colin. Atlas da História Antiga. Op. cit., p. 49 e CARDOSO, Ciro Flamarion. Sete olhares 
sobre a Antigüidade. Op. cit., p. 20. 
30
 CARDOSO, Ciro Flamarion.Antigüidade oriental-política e religião. Op. cit., p. 40. 
arqueologia, é apenas o início de um longo trabalho que inclui a decifração dos textos, a 
compilação e confronto do material e a posterior tentativa de obter-se uma reprodução 
aproximada de determinado aspecto de uma sociedade, a saber, algum rito religioso, alguma 
manifestação política ou movimento econômico.
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 Não é, dessarte, de se estranhar que uma 
obra clássica de história do direito escrita no século XIX, como a de Sir Henry Sumner 
Maine, não dedique uma linha sequer aos direitos da Mesopotâmia e do Egito.
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Hoje a história vale-se da lingüística e da arqueologia para tentar aprofundar o 
estudo dos direitos dos povos do Oriente próximo; é possível, com isso, esclarecer algumas 
características dos sistemas jurídicos da época clássica e posterior. Para tanto, cumpre ressaltar 
um dado fundamental no início da presente exposição; tanto os direitos da Mesopotâmia como o 
direito egípcio possuem uma característica comum: a idéia de revelação divina. 
Como já observado no item anterior, as sociedades mesopotâmica e egípcia, em 
face de seu caráter urbano e comercial, passaram a desenvolver um grau de complexidade que 
exigia a vigência de um direito mais abstrato do que o simples costume ou tradição religiosa. 
Era necessário um conjunto de leis escritas, que desse previsibilidade às ações no campo 
privado, que estipulasse algum tipo de tribunal ou juiz para resolver controvérsias e que fosse 
inteiramente seguido em toda a extensão do reino para o qual se destinava. Ambas as 
sociedades aqui estudadas atingiram esse estágio. Deve ser ressalvado, contudo, o fato de que 
uma característica do direito arcaico ainda produziu efeitos nessas civilizações urbanas: as 
normas de direito tinham sua justificação no princípio da revelação divina. A noção de 
responsabilidade política pela decisão legislativa é estranha à Mesopotâmia e ao Egito.
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O exemplo mais enfático dessa revelação consta do Código de Hammurabi: num 
extenso prólogo, fica ali explicitado que o conjunto de leis foi oferecido ao povo da Babilônia 
pelo deus Sarnas, por intermédio do rei Hammurabi, e não por decisão deste. Na exata 
descrição de Aymard e Auboyer, \u201cHammurabi, ao publicar o seu código, quer satisfazer a 
Sarnas, deus da justiça, \u201efazer resplandecer o direito no país, arruinar o mau e o malfeitor, 
impedir que o forte maltrate o fraco\u201f. Mas a justiça, no fundo, identifica-se à vontade dos 
deuses, cujas razões escapam à compreensão dos homens: e estes não devem julgá-la\u201d.34 O 
mesmo raciocínio se aplica, com maior evidência, ao direito egípcio. Como o faraó é a própria 
 
31
 Cf. TAVARES, António Augusto. As civilizações pré-clássicas - guia de estudo 3. ed. Lisboa: Estampa, 1995, p. 56. 
32
 MAINE, Sir Henry Sumner. Ancient Law. USA: Dorset Press, 1986. 
33
 Cf. FINLEY, M.I. Política. In: FINLEY, M.I. (Org.). O legado da Grécia - uma nova avaliação. Trad. Yvette V. Pinto 
de Almeida. Brasília: UnB, 1998, p. 31-33 e GILISSEN, John. Introdução histórica ao direito. Op. cit., p. 53 e 62. 
34
 AYMARD, André e AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga - vol. I. As Civilizações Imperiais. 
Volume 1 da coleção organizada por CROUZET, Maurice. História geral das civilizações. 2. ed. Trad. Pedro 
Moacyr Campos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 197. 
encarnação da divindade, e dele emanam todas as normas, não será possível conceber 
qualquer decisão política que vincule o soberano pelo seu simples poder temporal. O direito 
terá de se originar num plano superior: a revelação divina. 
Consignada essa premissa fundamental - comum às duas civilizações ora 
estudadas -, é hora de resgatar as principais manifestações do direito na Mesopotâmia e no 
Egito. 
 
4.1 A Mesopotâmia: compilações de normas jurídicas e sua aplicação 
 
É pertinente iniciar a descrição dos fenômenos ligados à criação, vigência e 
aplicação do direito nas cidades da Mesopotâmia com uma advertência constantemente 
reprisada, mas que é ainda necessária: quando se fala da existência de \u201ccódigos\u201d na antiga 
Mesopotâmia, é claro que esta expressão não deve ser compreendida em seu sentido moderno 
(como um documento sistematizado, dotado de princípios gerais, categorias, conceitos e 
institutos, pensado para vigorar como um conjunto de preceitos gerais e abstratos). A 
configuração do direito, no alvorecer da Antigüidade, reflete o estado de maturidade política e 
institucional da época. O emprego da expressão \u201ccódigo\u201d para descrever as normas de direito 
escrito produzidas na Mesopotâmia encontra fundamento tão-somente na tradição. Não há 
qualquer paralelo com os códigos de inspiração napoleônica. 
O primeiro desses \u201ccódigos\u201d da antiga Mesopotâmia surge no período 
compreendido entre 2140 e 2004 a.C., na região da Suméria. Esta região, aliás, localizada na 
Baixa Mesopotâmia, foi a sede do primeiro império
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 fundado na bacia do Eufrates e do 
Tigre; o centro vital desse império inicial foi a cidade de Umma, que conquistou algumas 
cidades vizinhas entre 2465 e 2370 a.C. O império seguinte foi o acádico, teve como principal 
figura histórica o rei Sargão, e se estendeu de 2370 a 2140 a.C. A queda do império acádico 
veio com a recuperação da hegemonia suméria, por intermédio da refundação do primeiro 
império, agora com sede na cidade de VI. É nesse momento que surge o primeiro documento 
escrito da história do direito. 
O fundador desse novo império na Suméria (que inicia a chamada III dinastia de 
 
35
 É fundamental registrar que a expressão \u201cimpério\u201d, aqui utilizada, deve ser compreendida em sentido restrito,
Rafael
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