Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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lei que proibia a utilização de advogados e que o uso de logógrafos era uma 
forma de burlar essa lei é encontrada em Quintiliano: \u201cet tum maxime scribere litigatoribus, quae illi pro se ipsi 
dicerent, erat moris, atque ita iuri, quo non licebat pro altero agere, fraus adhibebatur". (Era uma prática usual 
naqueles dias [referindo-se ao período de Sócrates e Lísias] escrever discursos para as partes apresentarem no 
tribunal em seu próprio benefício, uma maneira de burlar a lei que proibia a utilização de advogados). 
QUINTILIANO. Institutionis Oratoriae, Liber II, XV, 30. Citado de The Institutio Oratoria of Quintilian, V. I, 
p. 315, edição Loeb Classical Library. 
pessoas que emprestavam dinheiro, políticos e homens de negócios.
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A retórica dos logógrafos tomou-se um dos mais eficazes meios de persuasão
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 e 
tem sido discutida e analisada como uma das grandes fontes do direito grego antigo. Em seu 
tratado, Retórica, Aristóteles diferencia três tipos de retórica: deliberativa, judiciária e 
epidítica. A retórica judiciária, segundo Aristóteles, visava ao júri e tratava de eventos 
passados.
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 Na linguagem de hoje, retórica é vista como sinônimo de empolação, discurso 
pomposo. No sentido grego original, significava orador e se referia à arte de dizer, da 
eloqüência, e tinha como objetivo original persuadir com a força dos argumentos e com a 
conveniência da expressão.
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Os logógrafos gregos são classificados em dois grupos: predecessores e 
contemporâneos de Demóstenes. Os mais famosos, denominados \u201edez oradores áticos\u201f, são: 
Antífonas (440-380 a.C.), Lísias (450-380 a.C.), Isaeus (420-353 a.C.), Isócrates (436-338 
a.C.), Demóstenes (384-323 a.C.), Ésquino (390-330 a.C.), Licurgo (a.C.), Hipérides (389-
322 a.C.) e Dinarco (360 a.C.). 
Tem-se ainda, no rol de personagens do sistema processual do direito grego 
antigo, a figura do sicofanta,
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 um produto do próprio sistema que permitia e estimulava que 
qualquer cidadão grego iniciasse uma ação pública (graphé). O estímulo era dado por meio de 
leis que concediam percentuais, pagos ao acusador, sobre a quantia que o acusado deveria 
pagar ao Estado, principalmente quando se tratava de devolução ou reembolso no caso de 
administradores públicos. Os sicofantas passaram a viver desse expediente e tomaram-se uma 
classe temida e odiada na sociedade ateniense, adquirindo o nome um sentido pejorativo e 
tomando-se alvo de críticas e ridículo nas comédias de Aristófanes, particularmente em Pluto. 
 
6. AS INSTITUIÇÕES GREGAS 
 
Neste item serão vistas com mais detalhes as instituições gregas e sua 
organização, sendo que algumas características e nomes já apareceram nos capítulos 
anteriores. As instituições gregas, mais particularmente as de Atenas, podem ser classificadas 
em instituições políticas de governo da cidade e instituições relativas à administração da 
 
57
 BONNER, Robert J. Lawyers and litigants in ancient Athens. Chicago: The University of Chicago Press, 
1927, p. 214-215. 
58
 The art of persuasion in Greece, de G. Kennedy. 
59
 MEYER, Michel. Histoire de la rhétorique des grecs anos jours. Paris: Librairie Générale Française, 1999, p. 
47-55. 
60
 CARLETTI, Amilcare. Demóstenes. São Paulo: Editora Universitária do Direito, 1995, p. 6. 
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 LOFBERG, J. O. Sycophancy in Athens. Wisconsin: George Banta Publishing Company. 
justiça, os tribunais. No primeiro grupo (governo da cidade), tem-se a Assembléia do Povo 
(Ekklêsia), o Conselho (Boulê), a Comissão Permanente do Conselho (prítanes), os estrategos 
e os magistrados (arcontes e secundários). O segundo grupo (administração da justiça) estava 
organizado em justiça criminal (o Areópago e os Efetas) e justiça civil (os árbitros, os 
heliastas e os juízes dos tribunais marítimos). 
 
Os órgãos do governo 
 
A Assembléia (ekklêsia) era composta por todos os cidadãos acima de 20 anos e 
de posse de seus direitos políticos. Dentre os 40 mil cidadãos de Atenas, de uma população de 
300 mil, dificilmente se conseguia reunir mais de 6 mil, seja na praça pública (ágora), seja na 
colina da Pnice ou, já no quarto século, no grande teatro de Dionísio. l)c início não havia 
pagamento, mas, entre 425 e 392 a.C., os participantes recebiam um óbolo por sessão, depois 
dois, três e finalmente, em 325 a.C., seis óbolos. 
A Assembléia constituía-se no órgão de maior autoridade, com atribuições 
legislativas, executivas e judiciárias. Competiam-lhe: as relações exteriores, o poder 
legis1ativo, a parte política do poder judiciário e o controle do poder executivo, 
compreendendo a nomeação e a fiscalização dos magistrados.
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 No quinto século, o 
presidente da Assembléia era o epistatês dos pritanes. 
O Conselho (boulê), composto de 500 cidadãos (50 para cada tribo), com idade 
acima de 30 anos e escolhidos por sorteio a partir de candidatura prévia, era renovado a cada 
ano. Eram submetidos a exame moral prévio (dokimasia) pelos conselheiros antigos e a 
prestação de contas (euthynê) no final de sua atividade. Segundo Glotz \u201cos ambiciosos cuja 
vida não era sem mácula não ousavam apresentar-se, porque temiam o interrogatório da 
docimasia feito pelo Conselho em poder\u201d.63 A atividade no Conselho requeria dedicação total 
durante um ano inteiro e, embora fosse paga - cinco óbolos por dia na época de Aristóteles -, 
não era suficiente para um ateniense de pouca renda se dedicar a tal atividade. 
Por meio da mediante Assembléia, o povo era o real soberano, mas encontrava 
algumas dificuldades para o exercício contínuo de sua soberania. Não podia manter-se em 
sessão permanente para preparar textos e decretos para discussão e votação nas assembléias e 
nem tinha como assegurar-se de que fossem adequadamente executados os projetos 
aprovados. Tinha de fiscalizar a administração pública, negociar com estados estrangeiros, 
 
62
 GLOTZ, Gustave. A cidade grega. São Paulo: DIFEL, 1980, p.135. 63 GLOTZ, Gustave. Op. cit., p. 151. 
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além de receber seus representantes. O papel do Conselho, devido a sua dedicação total à 
atividade pública, era o de auxiliar a Assembléia e aliviá-la das atividades que requeriam 
dedicação total, funcionando como parlamento moderno. Entre suas principais atividades, 
destacam-se a de preparar os projetos que seriam submetidos à Assembléia, controlar os 
tesoureiros, realizar a prestação de contas dos magistrados, receber embaixadores, investigar 
as acusações de alta traição, examinar os futuros conselheiros e os futuros magistrados. 
Os prítanes é o que se pode chamar de comitê diretor do Conselho (Boulê). Os 
500 membros do Conselho eram organizados em 10 grupos de 50 (um grupo para cada tribo) 
e cada grupo exercia a pritania durante um décimo do ano. O epistatês era o presidente de 
cada grupo e era escolhido diariamente por sorteio e somente podia ser escolhido uma vez. 
Atuava como presidente do Conselho e da Assembléia e tomava-se o guardião das chaves dos 
templos onde ficavam os tesouros e os arquivos. Os prítanes eram o elo entre o Conselho e a 
Assembléia, os magistrados, os cidadãos e os embaixadores estrangeiros. 
Os estrategos foram instituídos em 501 a.C., em número de dez, sendo eleitos 
pela Assembléia, e podendo ser reeleitos indefinidamente (foi o caso de Péricles, eleito 
estratego 15 vezes) e devendo prestar contas no final da atividade. Como requisito, tinham de 
ser cidadãos natos, casados legitimamente (não eram elegíveis os solteiros) e possuir uma 
propriedade financeira na Ática que assegurasse alguma renda, porque a atividade não era 
remunerada. Tinham como atividades principais o comando do exército,
Rafael
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