Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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distribuição do 
imposto de guerra, dirigir a polícia de Atenas e a defesa nacional. Como atividades políticas 
podiam convocar assembléias extraordinárias, assistir às sessões secretas do Conselho e, no 
exterior, eram embaixadores oficiais e negociadores de tratados. Embora, pela sua origem, sua 
atividades estivessem mais associadas com a guerra, foram, aos poucos ampliando suas 
funções e acabaram substituindo os arcontes como verdadeiros chefes do poder executivo. 
Os magistrados eram sorteados dentre os candidatos eleitos, renovados 
anualmente e não podiam ser reeleitos, o que impedia qualquer possibilidade de continuidade 
política (o que não acontecia com os estrategos). Os atenienses tinham vários tipos de 
magistraduras, quase sempre agrupadas em forma de colegiado (normalmente dez por 
categoria), sendo o grupo mais importante dos arcontes. Estes também em número de dez 
(nove arcontes e um secretário) tinham nomes particulares, dependendo de sua atividade. O 
arconte propriamente dito dava seu nome ao ano e passou a ser chamado de arconte epônimo 
no período romano, cabendo-lhe regulamentar o calendário, presidir as Grandes Dionisíacas, 
instruir os processos de sucessão e tutelar viúvas e órfãos. O arconte rei (basileu) tinha 
funções apenas religiosas e presidia os tribunais do Areópago. O arconte polemarco não era 
mais o chefe do exército, mas o responsável pelas cerimônias fúnebres dos cidadãos mortos 
em combate com o inimigo. Seis arcontes (thesmothétai) eram os presidentes de tribunais e, a 
partir do quarto século a.C., passaram a revisar e coordenar anualmente as leis.O arconte era o 
secretário (grammateus). 
Os demais magistrados, conhecidos também por magistrados, conhecidos também 
por magistrados secundários, ocupavam-se de atividades como: executar as sentenças de 
morte, inspecionar os mercados, os sistemas de água, o sistema de medidas e demais 
atividades relacionadas com a administração municipal. 
Resumindo, as instituições políticas que se ocupavam do governo da cidade eram 
organizadas da seguinte forma:
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O Conselho: 
 
- examina; 
- prepara as leis; 
- controla. 
 
A Assembléia: 
 
- delibera; 
- decide; 
- elege e julga. 
 
Os Estrategos: 
 
- administram a guerra; 
- distribuem os impostos; 
- dirigem a polícia. 
 
Os Magistrados: 
 
- instruem os processos; 
- ocupam-se dos cultos; 
 
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 Extraído de FAURE, Paul; GAIGNEROT, Marie-Jeanne. Guide grec antique Paris: Haehette, p, 119. 
- exercem as funções municipais. 
 
 A justiça e os tribunais 
Sempre coube ao Estado o papel de administrador da justiça e assim tem sido até 
nossos dias, constituindo a Grécia antiga, no modelo ateniense, a grande exceção. Corno 
detentor da soberania, ao povo, e somente a ele, cabia administrar a justiça e resolver conflitos 
através de instituições populares e com a característica adicional da ausência total do 
profissionalismo. As instituições atenienses, para a administração da justiça, podem ser 
agrupadas em duas categorias: (a) justiça criminal e (b) justiça civil. 
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a) Justiça criminal 
 
O Areópago era o mais antigo tribunal de Atenas e, de acordo com uma lenda, 
havia sido instituído pela deusa Atena para o julgamento de Orestes. De início era um tribunal 
aristocrático, com amplos poderes, tanto na condição de corte de justiça como na de conselho 
político. Com as sucessivas refomlas (Clístenes e Efialtes), teve seu poder esvaziado, 
perdendo várias atribuições, inclusive as políticas. No quarto século, somente julgava os casos 
de homicídios premeditados ou voluntários, de incêndios e de envenenamento. Seus membros 
eram os ex-arcontes. 
O tribunal dos Efetas era composto de quatro tribunais especiais: o Pritaneu, o 
Paládio, o Delfínio e o Freátis. Estes tribunais eram compostos de 51 pessoas com mais de 50 
anos e designadas por sorteio. O Areópago enviava a esses tribunais os casos de homicídio 
involuntário ou desculpáveis (como legítima defesa, por exemplo), conforme a diferenciação 
estabelecida desde os tempos de Drácon. 
 
b) Justiça civil 
 
Os juízes dos demos, em número de 30 e mais tarde 40, escolhidos por sorteio, 
percorriam os demos e resolviam de forma rápida os litígios que não ultrapassassem 10 
dracmas (cerca de 20 dias de salário). No caso de processos mais importantes, embora fossem 
enviados aos tribunais atenienses, cabia aos juízes dos demos a responsabilidade da 
 
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 O livro The lawcourts at Athens (Os tribunais em Atenas), de Alan Boegehold (Princeton: The American 
School of Classical Studies at Athens, 1995), classifica as cortes em duas categorias: (a) de homicídio; (b) 
populares. 
investigação preliminar. Era um arranjo que facilitava a vida dos habitantes do campo, 
evitando que tivessem de se dirigir à cidade para solucionar pequenos litígios. 
Os árbitros podiam ser privados ou públicos. No caso de árbitros privados, estes 
eram escolhidos pelos litigantes, que assim mantinham o caso fora dos tribunais e do 
conhecimento público. Funcionava também como sistema rápido e econômico para a solução 
de litígios entre familiares; os árbitros procuravam uma solução negociada, sem possibilidade 
de apelação, que se assemelhava à mediação de nossos dias. No caso de árbitros públicos, 
eram escolhidos por sorteio e deviam ter mais de 60 anos. Também nesse caso o processo era 
mais rápido e menos custoso, mas a sentença era imposta pelo árbitro, com possibilidade de 
apelação. 
A heliaia foi a grande demonstração de que o povo era soberano em matéria 
judiciária, por ser um tribunal que permitia que a maior parte dos processos fosse julgada por 
grandes júris populares. Composta por seis mil heliastas escolhidos anualmente por sorteio 
pelos arcontes, dentre os cidadãos com mais de 30 anos, era o grande tribunal ateniense onde 
a cidade se reunia para julgar. 
Havia dois sorteios adicionais que operacionalizavam o sistema e procuravam 
dificultar as possibilidades de suborno dos jurados. O primeiro sorteio era realizado no início 
da manhã do dia do julgamento e escolhia os jurados em número de 201, 301, 401 membros, 
etc., de acordo com a natureza e a importância do julgamento. O outro sorteio designava o 
local onde seria realizado o julgamento, podendo ser na Ágora ou no Odeon. As seções de 
julgamento eram conhecidas como dikasterias, de onde resulta nome dikasta para os jurados, 
que assim eram designados em vez de heliastas. Os jurados recebiam o pagamento de um 
óbolo por sessão no início do quinto século (criado por Péricles), passando depois passou para 
três óbolos no seu final, aumento concedido por Creon. 
Finalmente, havia os juízes dos tribunais marítimos (nautodikai), que se 
ocupavam dos assuntos concernentes ao comércio e à marinha mercante, além das acusações 
contra os estrangeiros que usurpavam o título de cidadão. 
 
7. CONCLUSÃO 
 
É famosa a máxima de John Ford no filme The man who shot liberty valance (O 
homem que matou o facínora): \u201cWhen the legend becomes fact, print the legend\u201d (Quando a 
lenda se toma fato, imprima-se a lenda). Na verdade, essa frase é uma variante do princípio de 
que os mitos escondem as verdades. Com relação ao direito grego, dois mitos têm-se 
perpetuado em nossa cultura, distorcendo os fatos: o de que os gregos não eram fortes em 
direito e o da severidade das leis draconianas que tudo punia com a morte.
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 Este trabalho 
tratou particularmente do primeiro e procurou mostrar como o direito grego surgiu 
simultaneamente com a escrita no oitavo século a.C., tomando-se
Rafael
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