Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
376 pág.

Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer


DisciplinaHistória do Direito7.669 materiais299.760 seguidores
Pré-visualização50 páginas
sobretudo, a espiritualidade 
cristã, reduziu o grupo familiar aos pais e filhos, sucedendo à organização autocrática uma 
orientação democrática afetiva. 
Assim, o centro de constituição familiar deslocou-se do princípio da autoridade 
paterna para o da compreensão e do amor. As relações de parentesco permutaram o 
fundamento político da agnação pela vinculação biológica da consangüinidade. E o pai, na 
modernidade, passou a exercer o pátrio poder exclusivamente no interesse dos filhos, menos 
como direito e mais como dever.
28
 Tudo isso levou a uma nova concepção da instituição 
familiar, abandonando-se o caráter hierático e conquistando-se novas relações e papéis, que 
encaminham modernamente a evolução da civilização humana. 
 
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
BERR, Henri. Apud GLOTZ, Gustave. A cidade grega. Rio de Janeiro: Difel, 1980. COULANGES, Fustel de. A 
cidade antiga. Trad. Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. Rio de Janeiro: Ediouro, (s/d), 
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Introdução do Prof. 
Riolando Azzi do Instituto Pio XI. São Paulo: Editora das Américas, 1967, v. I 
GLOTZ, Gustave. A cidade grega. Trad. Henrique de Araújo Mesquita e Roberto Cortes de Lacerda. São Paulo: 
Difel, 1980. 
MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil. São Paulo: Saraiva, 1973. 
PEREIRA, Virgilio de Sá. Direito de família. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1959. PRITCHARD, E. E. Evans. 
Antropologia social da religião: contribuições em antropologia, história, sociologia. Rio de Janeiro: Campus, 1978. 
REALE, Miguel. Horizontes do direito e da história. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1977. 
ROCHA, José V.C. Branco. O pátrio poder. Rio de Janeiro: Tupã, 1960. 
 
28
 Ver, neste sentido: MONTElRO, Washington de Barros. Curso de direito civil. São Paulo: Saraiva, 1973, p. 
259 et seq. e PEREIRA, Virgílio de Sá. Direito de família. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1950, p. 61 et seq. 
Capítulo 5 
DIREITO ROMANO CLÁSSICO: SEUS INSTITUTOS 
JURÍDICOS E SEU LEGADO 
FRANCISCO QUINTANILHA VÉRAS NETO
29
 
 
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. A importância do direito romano 
e a sua presença nos ordenamentos jurídicos modernos. 3. As 
fases históricas da civilização romana e de suas instituições 
jurídico-políticas. 4. Leis e institutos jurídicos romanos: o 
direito de propriedade e das obrigações. 5. A queda do Império 
Romano e a emergência do mundo feudal. 6. A retomada pelos 
estudos romanísticos no direito do ocidente europeu. 7. A 
recepção do direito romano. 8. Conclusão. 9. Referências 
bibliográficas. 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
A idéia de modo de produção já foi desenvolvida por Karl Marx, opondo a idéia 
de mundo antigo ao de sociedade antiga, criando uma periodização das fases do 
desenvolvimento histórico, iniciando portanto uma forma inusitada e impactante de 
interpretação materialista das transformações históricas, a partir do modelo de sucessão dos 
modos de produção asiático, escravagista, feudal e capitalista: 
 
Na produção social de sua vida, os homens estabelecem determinadas relações de 
produção que correspondem a uma determinada fase do desenvolvimento das suas 
forças produtivas materiais (...). Num certo estágio de seu desenvolvimento, as 
forças materiais da sociedade entram em conflito com as relações de produção 
existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de 
propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali (...). Abre-se, então, uma 
época de revolução social (...). Em linhas gerais, podemos designar os modos de 
produção asiático, feudal e burguês moderno como outras tantas épocas do 
progresso da formação econômica da sociedade.
30 
 
Essa interpretação dos modos de produção no tempo traz à tona a idéia de que o 
Império Romano e suas várias etapas históricas estariam fixados cronologicamente no modo 
 
29
 Professor do Curso de Direito da Universidade Federal de Rio Grande-RS. Mestre em Direito pela UFSC. 
Doutor em Direito e Relações Sociais pela UFPR. Autor do livro: Cooperativismo: nova abordagem 
sóciojurídica. Curitiba: Juruá, 2002. Co-autor da obra: Política internacional, política externa e relações 
internacionais. Curitiba: Juruá, 2003. 
30
 BOTTOMORE, Tom et al. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar, p. 346. 
de produção escravagista, em que o motor do desenvolvimento econômico estava nas grandes 
propriedades apropriadas pela aristocracia patrícia,
31
 que, controlando os meios de produção, 
as terras e as ferramentas necessárias ao trabalho agrícola, dominavam as classes pobres e 
livres dos plebeus, clientes e a dos escravos, estes últimos classificados como res (coisa), 
eram uma espécie de propriedade instrumental animada. A sociedade desigual romana gerou 
uma série de instituições políticas e jurídicas sui generis, bem como um ambiente de 
conturbação e de conflitos de classe, decorrentes das desigualdades sociais, principalmente 
entre as classes dos patrícios e a dos plebeus, esta situação se manifestou, por exemplo, na 
rebelião plebéia que gerou a elaboração da famosa Lei das XII Tábuas,
32
 atribuindo mais 
poder aos plebeus, reforçando a visão de Marx de que: 
 
Até hoje a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a 
história das lutas de classes (...). 
Nas primeiras épocas históricas, verificamos, quase por toda parte, uma completa 
divisão da sociedade em classes distintas, uma escala graduada de condições sociais. 
Na Roma antiga encontramos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade 
Média, senhores, vassalos, mestres, companheiros, servos; e, em cada uma destas 
classes, gradações especiais.
33
 
 
Na monumental obra reconstituidora da história da vida privada ocidental, desde 
os romanos, George Duby fornece uma interessante análise do universo cultural romano, 
principalmente nas suas relações familiares, caracterizadas por valores que tomam a 
civilização romana tão exótica, para a moderna civilização mundial, como foram as 
civilizações ameríndias subjugadas e exterminadas pelos primeiros invasores europeus. 
Descontitui-se, assim, o mito de um universo cultural romano idealizado e similar ao do 
contexto europeu, mito imposto pelo racionalismo emergente do renascimento europeu. 
Toma-se, portanto, essencial a aplicação do método historicista e crítico, assim como a 
revalorização da relativização antropológica do princípio da alteridade, para enfim reatribuir a 
significação histórica do direito romano em seu contexto histórico, caracterizado por um 
modo de produção escravagista, especificamente demarcado no tempo. Esse mundo era 
caracterizado por formas de dominação diferentes das atuais, incluindo aí um universo 
 
31
 Classe dos grandes proprietários de terra no Império Romano. 
32
 A Lei das XII Tábuas teria sido o reflexo da ameaça plebéia de abandonar a cidade de Roma, fundando uma 
nova cidade no Monte Sagrado, próximo a Roma, caso as suas exigências não fossem atendidas pela classe dos 
patrícios. Como concessão para que as ameaças não se consumassem, os patrícios aceitaram que um conjunto de 
leis escritas fosse elaborados a fim de garantir maior isonomía (igualdade) entre patrícios e plebeus. Muitos 
historiados acreditam até que a Lei das XII Tábuas fora inspirada na legislação criada na Magna Grécia por 
Sólon. 
33
 MARX, Karl. Manifesto comunista. León Trotsky. 90 anos do manifesto comunista. São Paulo: Cadernos 
Desafio, 1991, p. 18. 
jurídico construí do por formas peculiares de controle
Rafael
Rafael fez um comentário
.
0 aprovações
Carregar mais