Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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que se 
reconhecem, ainda, nos modernos institutos de nossos dias que lhes correspondem. 
Para dar exemplos, apenas no campo das obrigações, podemos citar diversos tipos 
de contratos (a compra e venda, o mútuo, o comodato, o depósito, o penhor, a 
hipoteca) ainda existentes nos sistemas jurídicos de hoje.
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A expressão Corpus Juris Civilis não foi lançada por Justiniano, mas pode ser 
creditada ao estudioso do direito romano Denis Godefroy, a que atribuiu à compilação de 
quatro livros, Institutas, Pandectas, Digesta e Codex, feita por uma comissão de juristas 
dirigidos por Triboniano, jurista de Beirute, a serviço do Império Romano do Oriente. Essa 
comissão foi designada para compilar o direito do período clássico romano feito pelos 
jurisconsultos antigos do período clássico (Digesta e Pandectas). Queriam também compilar 
as constituições imperiais (Codex) e criar o material didático acessível ao direito romano para 
o estudante de direito (Institutas). Esse trabalho de sistematização do direito romano foi feito 
 
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 HUVELIN. Apud AL VES, José Carlos Moreira. Direito romano. Rio de Janeiro: Forense, 1999, v. 1, p. 2. 
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 CRETELLA JR., José. Curso de direito romano: o direito romano e o direito civil brasileiro. 13. ed. 1993, p.10. 
a mando do Imperador romano do Oriente, Justiniano. Grande parte do que conhecemos sobre 
o direito romano chegou a nossa era devido ao resgate dessas compilações, principalmente 
das Institutas: 
 
A compilação feita por ordem de Justiniano, já no declínio do Império Romano, e 
que se corporificou em quatro livros, somente muito mais tarde, ou seja, já em 1583, 
é que foi chamada pelo romanista francês Denis Godefroy de Corpus Juris Civilis, 
em obra que publicou em latim, resultando que essa expressão acabou sendo 
consagrada universalmente.
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3. AS FASES HISTÓRICAS DA CIVILIZAÇÃO ROMANA E DE SUAS 
INSTITUIÇÕES JURÍDICO-POLÍTICAS 
 
Os períodos em que a historiografia jurídica divide a história jurídico-política do 
Império Romano correspondem a etapas cronológicas plenamente delimitadas: 1) Período da 
Realeza (das origens de Roma à queda da realeza em 510 a.C.); 2) Período da República (510 
a.C. até 27 a.C., quando o Senado investe Otaviano - futuro Augusto - no poder supremo, com 
a denominação de princeps); 3) Período do Principado (de 27 a.C. até 285 d.C., com o início 
do dominato pró-Dioc1eciano); 4) Período do Baixo Império (de 285 até 585 d.C., data em 
que morre Justiniano). 
No primeiro período que corresponde a Realeza, atribui-se uma origem lendária 
aos romanos, através da lenda de Rômulo e Remo,
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 cuja existência Moreira Alves atribui à 
simbologia da representação de dois grupos etruscos rivais, que disputavam o poder, já que de 
acordo com várias teses foi este o povo que fundou Roma, após derrotar a Liga Setimonial e a 
outra liga dos povos locais, chamada de Albana. As ligas constituíam-se em alianças das 
tribos do antigo Lácio, para resistirem aos inimigos externos. Os etruscos teriam subjugado 
estes povos, empreendendo um trabalho de secagem dos pântanos entre as colinas, 
substituindo a pecuária pastoril pelo desenvolvimento da agricultura; na segunda etapa, deram 
a primeira organização política a de Roma no peno do da Realeza.
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Na fase da Realeza surgem algumas instituições político-jurídicas ainda muito 
vinculadas à existência de um Estado Teocrático. O cargo de rei assume caráter de 
magistratura vitalícia, sendo ao mesmo tempo chefe político, jurídico, religioso e militar, ou 
 
45
 PINHEIRO, Ralph Lopes. 1.000 perguntas sobre a história do direito. Rio de Janeiro: Biblioteca da 
Universidade Estácio de Sá, 1997, p. 45. 
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 Rômulo e Remo teriam sido criados por uma loba, e Remo teria violado um augúrio, um rito sagrado, sendo 
morto pelo seu irmão gêmeo Rômulo, suposto fundador de Roma. 
47
 PEIXOTO, Matos. Apud ALVES, José Carlos Moreira. Direito romano. Rio de Janeiro: Forense, 1999, v. 1, p. 07. 
seja, o rei era o magistrato único, vitalício e irresponsável.
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Existiam também alguns cargos auxiliares ao rei, assessores militares (tribunus 
militum e celerum); encarregado da custódia da cidade (praefectus urbs), funções judiciárias 
(os duouiri perduellionis: juízes nos casos de crimes contra o Estado); os magistrados 
encarregados do julgamento do assassínio voluntário de um pater familias pelo seu filho 
(quaestore parricidii), nas funções religiosas (os membros dos colégios dos pontífices, 
áugures e feciais). 
O Senado funcionava como uma espécie de Conselho do Rei, composto por 100 
membros; era subordinado ao rei e por este convocado; sua função era consultiva e não 
deliberativa e, em relação aos comícios, possuía competência deliberativa.
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 Existiam também 
os comícios curiatos, que eram chamados pelo rei e pelo senado para modificar a ordem legal 
da civitas.
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O direito era essencialmente costumeiro, sendo a jurisprudência monopolizada 
pelos pontíficies.
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 O período da realeza ter-se-ia encerrado com a queda de Tarquínio, o 
soberbo. 
No período da República, as magistraturas passaram a ganhar mais prestígio, 
destacando-se do poder dos dois cônsules, que inicialmente são as magistraturas únicas e 
vitalícias; comandam o exército, velam pela segurança pública, procedem recenseamento da 
população, administram a justiça criminal. 
Com a Lex Valeria, a gestão das finanças é delegada a dois questores. Em 501 
a.C., criou-se a magistratura da ditadura, que durava seis meses, e em 443 a.C., surgem os 
censores. Com a Lex Licinia de Magistratibus, os plebeus adquiriram o direito de ser 
cônsules. A plebe depois consegue também o direito de participar de outras magistraturas, 
como a encarregada de fiscalizar espetáculos, da vigilância sanitária (edilidade curul), a 
ditadura (magistratura dos tempos de guerra), a censura (magistratura encarregada do 
recenseamento) e a pretura urbana e peregrina (magistraturas que aplicavam o direito civil 
romano aos ,romanos e aos estrangeiros) que criaram o jus honorarium, direito prático dos 
pretores, complementadora do rígido direito civil (jus civile). As magistraturas romanas nesse 
período caracterizavam-se por serem temporárias, colegiadas, gratuitas e irresponsáveis.
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Finalmente, no período do Principado surgem os comícios, centuariatos, que 
 
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 ALVES, José Carlos Moreira. Op.cit., p. 8-9. 
49
 ALVES, José Carlos Moreira. Op. cit. 
50
 ALVES, José Carlos Moreira. Op. cit., p. 11. 
51
 ALVES, José Carlos Moreira. Op. cit., p. 12. 
52
 ALVES, José Carlos Moreira. Op. cit., p. 15. 
teriam aparecido conforme a tradição na época do Imperador Sérvio Túlio. Tais comícios 
seriam agrupados em cinco classes divididas de acordo com a riqueza imobiliária; mais tarde, 
os bens móveis foram também computados no recenseamento da riqueza dos cidadãos 
romanos, patrícios e plebeus. As classes superiores, dos cavaleiros e dos proprietários 
fundiários patrícios, terminavam por prevalecer às votações centuriais, devido ao peso 
excessivo atribuído nas votações das duas primeiras centúrias, compostas de membros da 
classe privilegiada romana.
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As fontes do direito na República são o costume, a lei e os editos dos 
magistrados.
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A passagem da República ao Império fez-se progressivamente. O progresso 
econômico, as dificuldades sociais e as vastas conquistas provocaram, durante o século I a.C., 
uma crise política, que desencadeou a centralização de todos os poderes em Octávio, o qual 
manteve as instituições da República, e tendo recebido
Rafael
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