Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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do Senado o título de Augusto. Este 
criou a instituição do imperium proconsular e o poder do tribunato vitalício; foi proclamado 
general vitorioso (imperator) e não estava vinculado nem limitado pela lei (legibus solutio). 
Era o primeiro dos cidadãos (princeps) e concentrava todos os poderes do novo regime 
político, sendo que, em Roma, respeitava as instituições políticas, mas, nas províncias 
imperiais, agia como um monarca absoluto.
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Nesse período também se destacam alguns dos maiores jurisconsultos e criadores 
de conceitos tópicos da \u201cciência jurídica romana\u201d, incluindo alguns dos maiores 
sistematizadores do direito romano, que mais tarde foram elevados à condição de fonte 
imutável do direito romano, no período justianeu (Império Romano do Oriente): 
 
Dessa época, destaque para Sálvio Juliano e outros cinco notáveis juristas: Papiniano 
(considerado pelo Imperador Justiniano e pelos romanistas o maior que Roma já 
tivera), Paulo, Gaio, Ulpiano e Modestino (último dos jurisconsultos clássicos, viveu 
no século III d.C.).
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O último período da história da civilização romana é o do baixo Império 
(dominato), quando ocorre a cristianização do Império, e também a decadência política e 
cultural; a fonte de criação do direito passa a ser a constituição imperial: 
 
Por volta do ano 284 d.C., Diocleciano encerra a transição iniciada na fase anterior e 
 
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 ALVES, José Carlos Moreira. Op. cit., p. 17. 
54
 ALVES, José Carlos Moreira. Op. cit., p. 21. 
55
 DEMO, Wilson. Manual de história do direito. Florianópolis: OAB/SC, 2000, p. 76. 
56
 DEMO, Wilson. Op. cit., p. 77. 
afirma seu poder absoluto. O imperador já não é mais o princeps, mas o dominus, o 
senhor do império. O seu poder é absoluto e divinizado, encarna a res publica e 
legisla só (quod principi placuit, legis haber vigorem), datando desta época os 
primeiros esforços de reunião da legislação em único documento.
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O próximo passo é o de fixar a importância da Lei das XII Tábuas, do Corpus 
Juris Civile, e de alguns institutos jurídicos romanos mais importantes, como a propriedade, a 
personalidade e o direito obrigacional. 
 
4. LEIS E INSTITUTOS ROMANOS: O DIREITO DE PROPRIEDADE E DAS 
OBRIGAÇÕES 
 
O direito da época arcaica se consubstancia na Lei das XII Tábuas; conhecem-se 
apenas fragmentos da literatura dos fins da República e do começo do Principado. 
Os magistrados patrícios julgavam segundo tradições que apenas eles conheciam e 
aplicavam. A incerteza na aplicação do direito, por parte dos magistrados patrícios, levou a 
plebe a pleitear a elaboração de leis escritas.
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Os patrícios se constituíram no segmento social hegemônico da sociedade romana 
antiga, pois 
 
(...) somente eles gozavam de todos os direitos civis e políticos, como, por exemplo, 
o ius suffragi, que consistia na faculdade de votar nos comícios; o ius honorarium, 
que era o direito de exercer os cargos públicos; o ius ocupandi agrum publicum, isto 
é, o direito de posse das terras conquistadas; o direito de adquirir a propriedade de 
acordo com os processos romanos (ius commerci); o direito de contrair casamento 
(ius conubi). No entanto, ao lado dessas prerrogativas era imposta aos patrícios a 
obrigação de pagar os impostos (ius tributi), como também a de prestar o serviço 
militar (ius militae).
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A lei das XII Tábuas foi elaborada por uma comissão de três magistrados,
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encarregados de pesquisar, na Magna Grécia, as leis de Sólon, propiciando a criação de um 
código escrito de leis romanas.
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 As disposições normativas estavam distribuídas nas 
seguintes tábuas: 
 
 
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 DEMO, Wilson. Manual de história do direito. Florianópolis: OAB/SC, 2000, p. 78-79. 30 DEMO, Wilson. 
Op. cit., p. 74. 
58
 DEMO, Wilson. Op cit., p. 74 
59
 VANDICK, L. da Nóbrega. Compêndio de direito romano. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1976, p. 136. 
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 Existem dúvidas se o número de juristas designados para esta missão era de 3 ou 5 juristas. 
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 Cf. GRASSI, Fiorindo David. Direito romano hoje: síntese da história e da filosofia do direito romanista. 
Frederico Westphalen-RS: URJ, 1996, p. 33. 
Tábua I 
Referia-se ao chamamento a juízo; a ninguém era lícito fugir do chamamento 
judicial. Não havia oficial de justiça para o desempenho de tais funções: o 
autor da demanda fazia a própria citação. 
 
Tábua II 
Suspensão da causa por motivo de moléstia: estabelecia o prazo para 
comparecimento ajuízo. 
 
Tábua III 
Execução no caso de confissão por dívida: após condenado, o devedor tinha 30 
dias para pagar. Se não pagasse, era preso e levado à presença do magistrado; 
se a dívida persistisse (o devedor) seria preso por correias ou com ferro de 15 
libras aos pés; se continuasse não pagando, podia ser morto, esquartejado de 
acordo com o número de escravos ou alienado como escravo.
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Isto se explica porque nesse período a Realeza vivia situação precária, só 
depois o erário romano se enriqueceu com os saques (pilhagens de outros 
povos). Sérvio Túlio, o sexto rei, institui a estatística: tudo era cadastrado e os 
censores vasculhavam cada canto do reino à procura de riqueza para pagar 
impostos e ampliar as receitas. 
 
Tábua IV 
Tratava do poder paterno e de outras matérias de direito de família (in jure 
patrio): o filho monstruoso podia ser morto imediatamente; defendiam a 
eugenia; o pai tinha sobre o filho direito de vida e morte, ou seja, tinha direito 
de flagelar, aprisionar, obrigar a trabalhos rústicos, vender e matar; com o 
tempo isto se foi amenizando e mais tarde esses casos dariam margem a 
destituição do pátrio poder (neste aspecto, gregos e romanos diferiam de outros 
povos da Antigüidade). 
 
Tábua V 
Da tutela hereditária: as mulheres não podiam gerir os negócios civis, 
 
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 Cf. ALTA VILA, Jayme. Origem dos direitos dos povos. São Paulo: Ícone, 1989, p. 93. 
permanecendo em tutela perpétua. Não se podia fazer Usucapião de coisas que 
estivessem sob a tutela da mulher (ela era absolutamente incapaz no início do 
período republicano). 
 
Tábua VI 
Da propriedade e da posse (dominio et possessione): constituiu uma admirável 
base do direito civil. Roma era agrária, não possuía exploração de minérios; os 
romanos cultivavam oliveira, vinha e trigo; proibiam a compra de propriedades 
imóveis por estrangeiros, para não prejudicar os nacionais (a propriedade 
fundiária desempenhava papel essencial para os romanos, tanto no plano 
econômico, como no plano da religião, pelo culto aos ancestrais ali enterrados). 
 
Tábua VII 
Do direito relativo aos edifícios e às terras: a ciência econômica dos romanos 
era a de um povo guerreiro e agrícola. O reino, e depois a República, possuíam 
terras públicas, por isto traduziram o livro de agronomia do cartaginês Magon; 
as estradas não podiam ser depredadas, pois eram o local de deslocamento das 
legiões; aquele que defecasse nas estradas reais podia ser severamente punido. 
O inciso IX permitia cortar o galho das árvores, se a sombra invadisse o quintal 
da propriedade vizinha; pelo inciso X, o proprietário tinha direito a colher os 
frutos das árvores vizinhas que chegassem ao seu quintal. Esse preceitos 
aparecem em nosso código civil: uso nocivo das propriedades, das árvores 
limítrofes, da passagem forçada.
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Segundo a célebre obra de Fustel de Coulanges, A cidade antiga, a propriedade 
não deve ser interpretada sob as mesmas luzes da propriedade existente no campo e nas 
cidades da sociedade
Rafael
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