Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
376 pág.

Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer


DisciplinaHistória do Direito7.700 materiais300.143 seguidores
Pré-visualização50 páginas
pelas cidades e a criar focos de 
inquietação. As doutrinas revolucionárias da jovem igreja cristã disseminavam o 
descontentamento entre as classes inferiores e estimulavam as autoridades a uma 
repressão brutal a seus fiéis. Nas fronteiras do Império, grupos expulsos da Europa 
Central pelos Hunos em marcha agravaram os problemas administrativos de uma 
burocracia cada vez mais sobrecarregada e dispendiosa. As comunicações, a 
capacidade de defender os ricos e a segurança do comércio começaram a diminuir 
no século III d.C. e, com elas, desapareceu a prosperidade do Império.
89
 
 
A \u201cqueda\u201d do Império em 476 d.C. constituiu apenas o último passo no processo 
de desintegração. A essa altura, os imperadores romanos haviam abraçado o catolicismo. 
Constantino fora o primeiro a converter-se em 313 d.C. Sobreviveram as cidades episcopais e 
arcebispais. Grandes regiões ocupadas por latifundiários e colonos, no entanto, tomaram-se 
autônomas, professando apenas uma lealdade nominal ao distante imperador oriental, que 
governava de Constantinopla; ao final, hordas bárbaras ocupam-se do antigo Império Romano 
do Ocidente: 
 
A necessidade de sobrevivência e defesa militar e a ausência de governo e de legiões 
romanas tornaram possível e necessária a instituição de um sistema senhorial, no 
qual encontramos as origens do que mais tarde veio a ser chamado de feudalismo 
(...). 
Em locais não submetidos ao governo romano, tais como a Escócia, a Irlanda, a 
Escandinávia e a Alemanha, registros ainda existentes indicam que formas feudais 
também se desenvolviam, adaptando as necessidades de alimentação e defesa a 
organização social local.
90
 
 
Arther Ferryl analisa a questão militar e a sua influência para a queda do Império 
Romano. Em determinada fase, o exército romano, que fora considerado uma imbatível 
máquina de guerra, passava a ser encarado como força desprezível pelos hunos de Átila: 
 
Como os poderosos haviam decaído! Cem anos antes, o exército romano fora a mais 
eficiente força combatente na face da terra. Na época de Átila, era tão desprezível 
que podia ser ignorado em combate real. De fato, é claro, tropas romanas 
contribuíram para a vitória em Châlons, sobretudo ao apoderar-se de terreno elevado 
ao deflagrar a luta, mas os trechos citados acima constituem um comentário 
fascinante sobre a sina do exército romano no século V Apesar do impacto da 
barbarização, as tropas romanas continuaram a lutar de acordo com a tradicional 
tática romana; entretanto, essa tática, anteriormente tão superior, pareceu absurda 
aos bárbaros do século V.
91
 
 
Surge a duplicidade do domínio, com a bipartição do domínio útil e do eminente, 
através da difusão do arrendamento de terras, gerando o germe do feudalismo: 
 
89
 TIGAR E, Michael; LEVY, Madaleine R. O direito e a ascensão do capitalismo ao poder. Rio de Janeiro: 
Zahar, 1987, p. 36. 
90
 TIGAR E, Michael; LEVY, Madaleine R. Op, cit., p. 37. 
91
 FERRIL, Arther. A queda do império romano: a explicação militar. Rio de Janeiro: Zahar, 1989, p. 133-134. 
 
No caso dos grandes latifúndios situados na área mais próxima a Roma, uma das 
soluções do problema trabalhista consistiu em arrendar parte das grandes 
propriedades a cidadãos ou escravos, cobrando-se aluguel em espécie sob a forma da 
obrigação de cultivar a parte da terra reservada ao uso e lucro pessoal do 
latifundiário. Nas fronteiras do Império, com a finalidade de manter ao largo os 
invasores, cidadãos romanos receberam terras e o status de coloni, sob a supervisão 
de um senhorio investido de prerrogativas legais. Os colonos pagavam o aluguel em 
espécie e trabalho e eram obrigados a participar da defesa das fronteiras. Em todos 
os casos possíveis, os invasores eram comprados pelo convite de entrarem em 
federação com o Império. Os federati recebiam terras para cultivar, prestavam o 
juramento de defender o Império e adaptavam sua organização social ao sistema 
praticado pelos latifundiários e coloni, embora tivessem permissão para conservar 
suas próprias leis em contendas dentro do grupo.
92
 
 
Emerge definitivamente deste processo de decadência uma nova estrutura 
econômica, jurídica, política e cultural, o feudalismo: 
Na parte da Europa outrora governada por Roma, por conseguinte, o feudalismo 
representou a retirada, para a casa senhorial e a aldeia, de uma classe governante 
privada da proteção de um decadente e moribundo governo imperial. Em outras 
regiões, constitui a mudança de uma existência pastoril, nômade e voltada para a 
guerra, para uma vida agrícola mais estável (embora ainda bastante guerreira). As 
terras de superfície variável constituíam um dos testemunhos do principal interesse 
econômico da casa senhorial, pois o padrão, desse o mansio da Gália ou o hide da 
Inglaterra, era aquele que podia sustentar uma família, variando seu tamanho 
segundo a região e a fertilidade do solo.
93
 
 
6. RETOMADA PELOS ESTUDOS ROMANÍSTICOS NO DIREITO DO OCIDENTE 
EUROPEU 
 
A continuidade dos estudos sobre o direito romano justificava-se pela sua 
apropriação pelos ordenamentos jurídicos europeus, a partir das monarquias absolutistas e do 
movimento de codificação francês sedimentado por Napoleão Bonaparte, seguindo tendências 
já expressas na Europa, com o ressurgimento do comércio em decorrência do renascimento 
comercial europeu, criando a necessidade da construção de um direito privado moderno a 
partir de um sistema mais abstrato, formal e adaptado às exigências do direito civil e 
comercial surgidos. 
O francês René David fixa o papel essencial da comunidade jurídica feudal, 
instaurada nas universidades medievais eclesiásticas, que permitiu a formulação de um novo 
padrão de cultura jurídica, que se universalizou e permitiu a construção das bases teóricas 
fundamentais para a edificação da família romano-germânica: 
 
92
 FERRIL, Arther. Op. cit., p. 37. 
93
 TIGAR E, Michael; LEVY, Madaleine R. O direito e a ascensão do capitalismo ao poder. Rio de Janeiro: 
Zahar. Biblioteca de Ciências Sociais, 1993, p. 38. 
 
O meio principal pelo qual as novas idéias se espalharam, favorecendo o 
renascimento do direito, foi constituído pelos novos focos de cultura criados no 
Ocidente Europeu; uma função essencial pertence à universidade de Bolonha. 
Convém, por conseqüência, estudar em primeiro lugar como as universidades 
conceberam a sua função e como elaboraram no decorrer dos séculos, 
negligenciando as fronteiras dos Estados, um direito erudito comum a toda a Europa. 
Em seguida, estudaremos os direitos aplicados pelos tribunais, direitos que variam 
de Estado para Estado e de região para região; e veremos como, numa medida 
variável, eles sofreram a influência do direito erudito ensinado nas universidades.
94
 
 
O jusfilósofo Norberto Bobbio demonstra também o processo de romanização do 
direito europeu: 
 
O Direito Romano se eclipsou na Europa Ocidental durante a alta Idade Média, 
substituído pelos costumes locais e pelo novo direito próprio das populações 
germânicas (ou bárbaras). Mas depois do obumbramento ocorrido em tal período - 
obumbramento comum, de resto, àquele de toda a cultura, ressurgiu no primeiro 
milênio com o aparecimento da Escola Jurídica de Bolonha e difundiu-se não apenas 
nos territórios sobre os quais já se havia estendido o Império Romano, mas também 
sobre outros territórios jamais dominados por este: sobretudo na Alemanha, onde 
ocorreu no início da Idade Moderna o fenômeno da \u201erecepção\u201f, graças ao qual o 
direito romano penetrou profundamente na sociedade alemã (basta pensar
Rafael
Rafael fez um comentário
.
0 aprovações
Carregar mais