Fundamentos de Historia do Direito - Antonio Carlos Wolkmer
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e transformados em máximas do direito. 
Dessa descontextualização da prática dos princípios jurídicos originais romanos 
resulta a "alienação da vida" de um direito puramente lógico, cuja conseqüência para os 
interessados é a irracionalidade da qual pode revertir-se quando de sua discrepância em 
relação às expectativas existentes.
99
 Isto não impede visualizar o direito romano como fator de 
racionalização do direito moderno, como o vê Robert Nisbet: 
 
sem os princípios do Direito Romano, e, o que é mais importante, as incessantes 
atividades dos intelectuais políticos cujo pensamento se formara nas universidades 
medievais, pelo estudo deste direito, jamais teria ocorrido aquilo que o sociólogo 
Max Weber, memoravelmente, chamou racionalização da moderna sociedade e 
cultura européias.
100
 
 
E também não se pode negar a sua influência no delineamento de Importantes 
institutos privados, como a propriedade no seu sentido material, que foi um dos atributos 
máximos da codificação napoleônica. Assim, de acordo com Perry Anderson, o direito 
romano garantia um conceito de propriedade absoluta, sem restrições, oponível em relação a 
terceiros e independente de outros fatores extrínsecos: 
 
Nenhum sistema jurídico anterior tiverajamais a noção de uma propriedade privada 
sem restrições: a propriedade na Grécia, na Pérsia, no Egito, fora sempre \u201erelativa\u201f, 
ou, por outras palavras, era condicionada por direitos superiores ou colaterais de 
outras partes e autoridades, ou por obrigações em relação a elas. Foi a jurisprudência 
romana que pela primeira vez emancipou a propriedade privada de todo o requisito 
ou restrição extrínsecos, ao desenvolver a novel distinção entre mera posse, consolo 
factual dos bens, e propriedade, direito legal pleno a eles. O direito romano de 
propriedade, do qual um sector extremamente substancial era dedicado à 
propriedade de escravos, representava a primeira destilação à propriedade de 
escravos, representada a primeira destilação conceptual da produção e troca 
comercializada de mercadorias num sistema político alargado, que o imperialismo 
republicano tornara possível. Tal como a civilização grega fora a primeira a 
desprender o pólo absoluto da \u201eliberdade\u201f do continuum político de condições e 
direitos relativos que sempre prevalecera, assim a civilização romana foi a primeira 
a separar a cor pura da \u201epropriedade\u201f do espectro econômico da posse opaca e 
indeterminada que, de um modo geral, a precedera. A propriedade quiritária, 
consumação legal da economia escravagista extensiva de Roma, constituiu uma 
vultosa inovação, destinada a sobreviver ao mundo e à idade que lhe haviam dado 
origem.
101
 
 
 
99
 WEBER, Max. Economia y sociedad. 2. ed. México: Fondo de Cultura Económica, 1977, p. 634-635. 
100
 NISBET, Robert. Os filósofos sociais. Brasília: UnB, p. 133. 
101
 ANDERSON, Perry. Linhagens do estado absolutista. Lisboa: Afrontamento, 1984, p. 72. 
Para esse autor, a própria funcionalidade de tal direito estava estabelecida na sua 
superioridade para a prática comercial nas cidades (urbis romanas), embora se considere que 
o império romano era essencialmente agrário e escravocrata: 
 
A superioridade do direito romano para a prática mercantil das cidades residia, pois, 
não somente nas suas noções claras de propriedade absoluta, mas também nas suas 
tradições e eqüidade, nos seus critérios racionais de prova e no relevo dado a uma 
magistratura profissional, vantagens que os tribunais consuetudinários normalmente 
ofereciam.
102
 
 
Porém, não se pode desconsiderar que o direito romano e o seu conceito de 
propriedade foram produzidos em outro modo de produção, o modo de produção escravagista, 
ou seja, num contexto histórico profundamente diferenciado do protocapitalismo renascentista 
italiano, do capitalismo mercantil dos estados absolustistas a partir do século XVI e do 
capitalismo concorrencial, a partir da Revolução Industrial (1750-1850). 
Estes estágios históricos foram típicos da Europa Continental, formando o sistema 
romano-germânico. 
A construção não foi imediata. Precisou aplicar e incorporar todos os seus 
institutos à nova realidade do final da Idade Média e renascentista. Após o início estritamente 
acadêmico dos glosadores, cederam aos pós-glosadores interessados mais no desvirtuamento 
prático do direito, formulado pelos jurisconsultos da Roma Clássica, liberando-o do 
anacronismo de suas vestes escravistas, para possibilitar e difundir o seu uso na civilização 
moderna. Este trabalho foi gradativamente sendo empreendido pelos novos juristas 
contratados para atender as necessidades mercantis burguesas, já que estes estavam menos 
interessados que os humanistas de outrora no virtuosismo da civilização clássica pagã, e mais 
aquiescentes Com seu emprego e adaptação às novas práticas e necessidades comerciais da 
classe burguesa, cada vez mais detentora do poder econômico e político (Revolução de 1789). 
Ao contrário do apregoado, a codificação contribuiu como fator de unificação do 
direito privado europeu. Serviu também como instrumento de expansão do direito romano-
germânico para fora dos quadros europeus do geopolitismo jurídico do velho mundo, no 
período das conquistas coloniais ultramar, que retiraram a Europa do seu status de periferia do 
mundo mulçumano. 
O processo de codificação consolida a dominação das várias potências coloniais 
européias já a partir do século XVI, erigindo seus sistemas jurídicos como hegemônicos para 
estabelecer um sistema de propriedade garantidor da escravidão e da supremacia 
 
102
 ANDERSON, Perry. Op. cit. p, 26. 
metropolitana sobre as colônias com a adoção do modelo exportador monoculturista, criando 
com isto um etnocentrismo jurídico europeu. 
 
8. CONCLUSÃO 
 
O direito romano caracterizou uma civilização forjada sob o modo de produção 
escravagista. Nas suas várias fases de organização jurídico-política, o modelo romano criou 
uma ordem prática, calcada muitas vezes em uma ordem sicofântica, baseada no ardil e no uso 
de artificios jurídicos para uma sociedade desigual. 
Na sociedade romana, sempre esteve presente também a luta de classes entre 
patrícias e plebeus, resultando na elaboração da Lei das XII Tábuas. O direito escrito é 
resultante da rebelião de Monte Sagrado. O Império Romano viveu uma fase de ascensão e de 
declínio, como tantos outros impérios. A ascensão do direito e a sua decadência 
acompanharam as duas fases do Império anteriormente citadas. 
O formalista direito civil romano foi flexibilizado pela ação dos pretores. Os 
aspectos formais e os princípios dos jurisconsultos romanos permitiram a sua reapropriação 
posterior a partir do Renascimento e a sua utilização pelos movimentos de codificação 
napoleônica, após a sua conservação e estudo humanístico a partir das congregações 
educacionais eclesiásticas medievais. 
A Europa e as suas colônias de exploração adotaram o sistema romano-
germânico, permitindo o surgimento de uma ordem liberal Illdividualista no continente 
europeu e uma ordem patrimonialista nas colônias ibéricas marcadas pela escravidão atroz. 
No contexto de um outro modo de produção diverso da escravidão da antigüidade, 
a propriedade utilizou-se mais uma vez dos conceitos romanos para garantir a propriedade de 
homens africanos; a personalização do sujeito e a sua atomização na ordem social foi 
possibilitada pela reconstrução jurídica do conceito abstrato e formal de personalidade 
jurídica individual e empresarial. 
A ordem legal capitalista encontrou substratos fundantes no sistema romano 
gennânico, não nos
Rafael
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